sexta-feira, 25 de julho de 2008

Lambeth 2008 e a Terra Devastada

A propósito da reunião de um bocado de bispos anglicanos na Inglaterra, Conferência de Lambeth 2008, me chega aos olhos um ensaio pra lá de oportuno, do teólogo luterano Gottfried Brakemeier, Professor Emérito da Faculdade EST, São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Intitulado Ciência ou Religião: Quem Vai Conduzir a História?, Sinodal 2006, nele está descrito um entrevero acontecido, 1860 em Oxford, entre o bispo anglicano Samuel Wilberforce e o cientista Thomas Huxley, quando de um debate sobre a teoria da evolução das espécies, desenvolvida por Charles Darwin. Petulantemente, o bispo indagou de Huxley, com muita ironia, se ele se considerava descendente do macaco pela linha materna ou paterna. A resposta do cientista foi acachapante: preferia ter um macaco entre seus antecedentes a um bispo que relutava encarar a verdade.
Lamentavelmente, ainda nos tempos atuais, a intolerância religiosa sobrevive fortemente nos mais diferenciados contextos sociais, como se tivéssemos uma só alternativa: adaptações estupidificantes ou alheamentos auto-destrutivos. A favorecer a ampliação da esterilidade da vida contemporânea, com suas alienações, enfados, niilismos, hedonismos, superstições, egoísmos e desesperos.
Os participantes de Lambeth 2008 devem estar cientes da advertência célebre de uma pesquisadora consagrada, Karen Armstrong, freira católica durante sete anos, autora de Uma Breve História de Deus, Companhia das Letras, 2008: “Se os líderes religiosos profissionais não podem nos instruir no conhecimento mítico, nossos artistas e romancistas talvez possam ocupar esse papel sacerdotal e apresentar uma visão nova a nosso mundo perdido e avariado”. Uma intelectual de renome, que se refundou existencialmente a partir da leitura do poema A Terra Devastada, de T.S. Eliot, profeticamente escrito em 1922. Uma leitura que possibilita uma estratégia de “fincar raízes produtivas do ‘lixo pétreo’ da modernidade”, evitando-se uma desintegração espiritual mais acentuada da atual cultura ocidental.
A História do Cristianismo está repleta de intolerâncias das mais variadas espécies. Intolerâncias que se arrastam até os nossos dias, através de insensatezes múltiplas geradas pelo medo de perder poderes. Também reflexo de uma arraigada incompetência de perceber o significado mais profundo do que seja uma “metamorfose ambulante”, aqui utilizando expressão famosa de um menestrel baiano já eternizado.
A verdade é nua e crua, pedindo desculpas pela indiscrição invasiva e intrusiva: em tempo algum da história da humanidade, excluindo o fenômeno Homem de Nazaré, nenhum transformação surtiu mais efeito social que a alterações científicas principiadas no século XVII. Evoluções múltiplas que estão a exigir, há muitas décadas, uma reestruturação das concepções teológicas cristãs, evitando-se uma catastrófica ampliação do divórcio entre o crer e o saber. Que há muito está afetando as atuais gerações do mundo universitário.
Não postulo um cristianismo de “coitadinhos” como o caminho mais seguro para se sair dos atuais e brabos atoleiros. Mas tampouco gostaria de ver as lideranças anglicanas contempladas com as vergastadas do poeta Fernando Pessoa, no seu Ultimatum de 1917, prenúncio intuitivo das mesmices que afundariam a criatividade de uma sociedade, a portuguesa, nas décadas iniciais do século passado: “Passai frouxos que tendes a necessidade de serdes os 'istas' de todos os 'ismos'; passai, radicais do Pouco, incultos do Avanço, que tendes a ignorância por coluna da audácia; passai, gigantes de formigueiro, ébrios da vossa personalidade de filhos de burguês, com a mania da grande-vida roubada na despensa paterna e a hereditariedade indesentranhada dos nervos; passai, bolor do Novo, mercadorias em mau estado desde o cérebro de origem; passai, decigramas da Ambição; passai, cerebrais de arrabalde; passai, senhores feudais do Castelo de Papelão; passai, cabeças ocas que fazem barulho porque vão bater com elas nas paredes; passai, absolutamente passai, porque o que aí está não pode durar, porque não é nada!!”.
Para os que ainda não assimilaram as advertências de Pessoa e para os que fingem não perceber o “debaixo do pano”, utilizo as palavras do poeta, quando ansiava por novos ares civilizacionais: “Deixem-me respirar! Abram todas as janelas! Abram mais janelas do que as janelas que há no mundo!” E creio estar reproduzindo o anseio de muitos milhões de anglicanos do mundo desenvolvido.
Pressinto algo de grandioso e fecundo para este século que ainda se situa em sua primeira década. Desde que caiba a todos, sem moralismos cavilosos nem puritanismos abobados, manter sob controle férreo os interesses mesquinhos. Sabendo bem conduzir seus irmãos de caminhada diante das encruzilhadas da História, reconhecendo que a escada terrestre jamais possuirá o último degrau. Uma excelente maneira de ratificar o dito popular que sabiamente proclama: quem gosta de passado é museu.

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