quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Cartões da Pilantragem

A pergunta está presente nos papos sociais civilizados de todo país: por que só a ministra Matilde Ribeiro foi defenestrada pelo uso indevido de seu cartão corporativo, quando inúmeros, amolecadamente, também dele fizeram uso indevido? As respostas são dos mais variados calibres, envolvendo gênero, raça, incompetência, puxadas de tapete, arrogância desmedida e furor exibicionista. Inclusive a que questiona a não-saída de ministro tapioqueiro que devolveu alguns trocados, ao sentir-se, borrado todo, ameaçado de pular fora da zona ministerial.
Parecendo antever a TBC – Temporada da Bandidagem Corporativa, inclusive em ambientes reitorais, em 2004 a Editora UNESP tornou pública a segunda edição do manual do francês Michel de Pracontal, Doutor em Ciência da Informação. Intitulado A Impostura Científica em Dez Lições, destina-se aos leitores desabestalhados, cientistas ou leigos, que pretendem entender adequadamente as técnicas utilizadas para os diferenciados tipos de falcatrua científica, excluindo-se compra de mesa de bilhar e dos gastos em motel para usufruto do que é pontudo, côncavo ou convexo, para não falar das despesas tidas como de “extrema necessidade” dos beneficiados.
O manual, já ocupando posição de destaque na Esplanada dos Ministérios e em inúmeros outros gabinetes dos três poderes, explicita manobras sofisticadas de alta safadagem nas áreas técnico-científicas, até para utilização dos chamados “bandidos sinceros”, aqueles que realmente acreditam que estão dando os melhores exemplos para seus subordinados e parentes, favorecendo amanhãs nacionais mais distributivistas. O texto pode ser também aplicável pelos executivos de São Paulo, que ficam distanciados das outras regiões pátrias porque o estado é possuidor de formidáveis recursos financeiros.
Lamentavelmente, as análises feitas pelo professor Michel de Pracontal não abarcam os trambiques acontecidos em todo mundo, restringindo-se aos limites territoriais franceses, muito embora ele ressalte que “esse não é um quadro tipicamente francês e é facilmente identificável no resto da Europa, nos Estados Unidos ou no Brasil”. Parece até que ele quis dizer que os trambiques mensalônicos e as bandalheiras disfarçadas em cartões corporativos tornaram-se normas corriqueiras, como aquelas viagens sucessivas em aviões não convencionais feitas por governadores, as despesas efetivadas em churrascarias de elite, para não se falar do descaramento mais que debochado de um ministro quase senil que proclamou, pelos meios televisivos, a necessidade de, agora, diante do buruçu, se fazer uma “vaquinha” para oferecer um jantar a uma delegação estrangeira que brevemente nos visitará.
Num país que não deseja efetivar a separação entre ONGs decentes e ONGs de notórias cafajestadas e que está a ampliar, na área política, posturas de fingimento de proporções já taludas, tudo faz crer que somente uma baita reestruturação do todo porá o trem ético nacional nos trilhos. Onde sejam excluídos os ministérios de mentirinha e as aquisições de submarinos nucleares para dar noticiário a falante que até já se enroscou em cobra, onde a decência pública se agigante diante das ilusões midiatizadas, e onde apenas os de imbecilização precoce não reconheçam que promover o desenvolvimento da Educação Brasileira é bem mais importante que o blá-blá-blá histérico acerca da pílula do dia seguinte.
Lendo outro dia uma bobajada dita por um general planaltino – “para nós, quanto menor a transparência, maior é o grau de segurança” - fico a imaginar o desejo incontido de muitos: o de nada ser revelado, para melhor usufruto da bandalheira praticada com o dinheiro público. Razão possuindo Michel Pracontal em seu livro: “a maioria dos impostores protegem-se por detrás de uma muralha de convicções contra a qual os melhores argumentos vão se despedaçar”. E viva a ré-pública!!!
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 27.02.2008)

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