terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O Deus de cada um

No último final de semana, atento às conclusões de um projeto sobre Direitos Humanos que se efetivará ainda este ano, no Recife, em comemoração aos 60 anos da Declaração Universal das Nações Unidas sobre o assunto, solicitado fui por educadora querida, cabeça feita e muito requisitada país inteiro, para examinar um outro tipo de leitura.
Num apreço especial a uma amizade de mais de trinta anos, por umas boas horas voltei minha atenção para uma leitura correlacionada com o além Terra: o livro O Deus de Cada Um, de Waldemar Falcão, editora Agir, fevereiro passado. Um presente enviado para minha amiga por superintendente de uma prestadora de serviços comunitários que assessoramos numa capital não-nordestina.
Quando me dei conta, a madrugada já espalhava seus primeiros raios. Envolvera-me com um livro que conta nove histórias reais de nove pessoas transformadas por nove diferentes crenças. O primeiro dos entrevistados, um católico romano chamado Marcelo Barros, hoje monge pernambucano aplaudido, de caminhada repleta de múltiplos compartilhamentos fraternos com personalidades as mais diferenciadas, de Hélder Câmara a Basílio Penido, passando por monges alemães e o líder comunista Diógenes de Arruda Falcão, Tomás Balduíno e Stella de Oxóssis, na atualidade a mais respeitada mão-de-santo do candoblé da Bahia, dirigente do Ylê Axé Opó Afonjá, mencionado em vários textos de Jorge Amado. Todos tornados amigos cinco estrelas do historiado.
Seu testemunho, como filho de família operária de Camaragibe, região fabril metropolitana do Recife, contém feitos e fatos que destilam imenso respeito humano inspirado pelo Espírito Santo, aquele “Vento” que sopra para onde bem quer e entende. E um dos fatos vivenciados pelo Marcelo envolve o sempre amado dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife. Um retrato fiel da personalidade do querido Dom, um líder religioso que respeitava todas as manifestações cúlticas. O caso, eu conto abaixo, respaldando-me no narrado pelo próprio monge.
Certa feita, em 1966, monge ainda não ordenado, ao chegar na portaria do mosteiro Marcelo foi informado do telefonema de alguém, dizendo-se “um amigo”, de nome dom Hélder Câmara. Imaginando trote de algum engraçadinho, eis que meia hora depois ele se vê dialogando com o próprio Dom, que o convida para ir à casa dele no dia seguinte. Em lá chegando, é indagado sobre se era verdadeiro o fato de estar freqüentando uma Igreja da Assembléia de Deus todas as quintas-feiras, quando seus colegas aproveitavam a recesso para um banho de mar. E lhe foi ainda indagado, depois do primeiro sim, se era também verdadeira a sua presença eventual num terreiro de candoblé próximo do mosteiro, fato confirmado.
Já aguardando uma admoestação, por mais amável que fosse, eis que Marcelo é convidado pelo Dom para ser seu assessor no relacionamento com as demais igrejas e religiões da região. Diante da alegação de despreparo, o argumento definitivo: - Não tem problema. Vamos combinar assim: eu assessoro você e você me assessora! Uma convivência por demais enriquecedora, sendo Marcelo, em 1969, ordenado por Dom Hélder Câmara, que ainda o convocou para integrar a Comissão Diocesana de Pastoral da Juventude.
O livro do Falcão ainda traz entrevistas com uma monja zen-budista, um neo-pentecostal, um umbadista, um islâmico, um israelita, um adepto do Santo Daime e “uma das mais impressionantes paranormais de cura do Brasil e, por que não dizer, do mundo”. Visões religiosas diferenciadas, com uma certeza única: a da mesma Presença Eterna, da mesma Consciência Cósmica, do mesmo Princípio Universal, também chamado por Paul Tillich, teólogo evangélico, de A Base de Toda Existência. Ressalte-se que o foco do livro “não são as instituições religiosas, mas as pessoas e a fé que as move e as transforma”.
Diz o autor da coletânea que, “em O Deus de Cada Um, os relatos colhidos nos fazem recobrar a esperança de que a espiritualidade, quando vivida de maneira plena e verdadeira, resgate, através do encontro com o divino, o humanismo que deveria nortear a nossa civilização planetária e nos torne dignos de sermos chamados de ‘filhos de Deus’. O Deus de todos nós. O Deus de cada um”.
Devolvendo o livro à estimada educadora, disse-lhe que subscrevia todo o texto, sem temor algum dos auditores de Deus. Pois pretendia continuar sendo irmão de todos os fiéis das religiões do mundo. Não me sentindo superior a ninguém, apenas um vaso quebrado que cotidianamente muito suplica as misericordiosas atenções do Oleiro.

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