sábado, 23 de fevereiro de 2008

Indagações de um Nazareno Notável

O ex-provincial dos jesuítas do Chile, também ex-presidente da Conferência dos Religiosos Chilenos, o padre Fernando Montes, notável pela sua intensa atividade pastoral, escreveu um texto considerado valioso para debates comunitários e intra-eclesiais, dias atrás editado no Brasil pela Loyola sob título As Perguntas de Jesus. São 30 questionamentos do Senhor Jesus explicitados nos quatro evangelhos do Segundo Testamento. Que deveriam ser lidas e discutidas com muito vagar, os olhos de cada um voltados para dentro de si, buscando maior maturidade de ser-cristão contemporâneo, sempre em busca de um mundo mais digno para todos, onde todos tenham vida e vida em abundância, como já proclamava João (Jo 10,10).
As perguntas de Jesus, didaticamente muito bem explicadas pelo jesuíta Fernando Montes, nos abastecem para a ultrapassagem dos nossos atuais estágios, ratificando o pensar de Ernest Bloch: “Pensar significa transpor”. E que anda alertou: “Numa sociedade em declínio, que não consegue achar uma saída para a decadência, o medo se antepõe e se contrapõe à esperança”.
Se novamente estivesse entre nós, imagino que o Nazareno Amado seguramente formataria duas indagações deveras oportunas: “Por que as minhas indagações ainda não foram devidamente assimiladas pelos meus seguidores, dois mil e tantos anos depois da minha estada por aqui?”; e “Por que, ao invés de libertar integralmente os Filhos da Criação, em meu nome as denominações cristãs vivem se digladiando, transformando evangelização libertadora em estratégias empreendedoras prioritariamente financeiras?”.
Uma das perguntas de Jesus –“Se o sal perde seu sabr, como tornará a ser sal?” -, no livro devidamente esmiuçada pelo pe. Montes, me fez recordar uma reflexão do jornalista Fausto Wolff, na revista Forum deste mês: “Brasília é a Ilha de Circe, a Deusa, que tem a capacidade de transformar homens em porcos que abrem mão da vergonha, do caráter, da modéstia, da honestidade – sas vas sans dire – e de qualquer forma de escrúpulo, desde que recebam um pouco de atenção dessa monstra, cujo verdadeiro rosto não conseguem enxergar”.
Seria oportuno se todos nós, cristãos de todas as denominações, pudéssemos repetir, a partir das reflexões acuradas do padre Fernando Montes, a súplica feita pelo cego de Jericó – “Senhor, que eu recupere a vista” (Lc 18,41). Poderíamos, recuperada a visibilidade evangélizadora, promover uma “enxergada geral” em nossos próprios interiores, percebendo as nossas traves antes da observação dos ciscos dos olhos dos outros.
Somente através de um cristianismo mais conseqüente e socialmente responsável, rejeitando a falsa paz e favorecendo a construção mais acelerada do Reino, poderemos todos, as denominações postas de lado, unidos e de mãos dadas, reproduzir o anunciado nos versos do hinário: “Erguerei a taça da vitória e chamarei o Senhor pelo seu nome” (Sl 116,13).
Sejamos mais cristãos, reconhecendo nossas idiossincrasias, nossas egolatrias, nossas ânsias de poder e nossos oportunismos indisfarçáveis, pouco nos lixando para a advertência milenar: “Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a a se tornar conhecido” (Mt 10,26).

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