sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Um Bispo Contemporâneo

Como em todas as áreas do Cristianismo, vez por outra uma inteligência se destaca numa determinado região: pela inteligência criadora, pela afabilidade com os irmãos de outras denominações e religiões, pelo descortino interpretativo acerca do futuro da humanidade, pela postura evangelizadora essencialmente ecumênica, pelo existir sem azedumes, pela capacidade de bem conduzir uma equipe diocesana. Sabendo delegar, não sendo puritano, moralista ou autoritário, tampouco se travestindo de cordeirinho estropiado.
Na área romana, por exemplo, sinto-me plenamente à vontade para enaltecer publicamente uma personalidade cativante: Dom Dadeus Grings, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, RS. Um entusiasmado ativista do Movimento Ecumênico e do Diálogo Inter-religioso, tendo sido um dos fundadores do CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, nos anos 70. Também participante, com irmãos anglicanos, metodistas e luteranos, do Bases Missionárias Ecumênicas, um movimento inicialmente implementado no bairro Petrópolis, na capital gaúcha, consistindo em visitas conjuntas às residências da localidade, estimulando seus moradores a visitarem as igrejas da denominação preferida.
Também bastante aplaudida é a novena que se realiza anualmente em cada uma das igrejas componentes do CONIC. Recentemente, o bispo anglicano de Porto Alegre presidiu celebração na Catedral Católica Metropolitana, numa demonstração de fraternidade que deveria balizar outras iniciativas pastorais, algumas delas a necessitar de pastores vocacionados, capazes de liderar sem tacanhices nem burocratismos.
Mas a admiração nutrida por muitos a Dom Dadeus Grings está atrelada à sua extraordinária capacidade de refletir sobre os assuntos mais complexos da atualidade, sempre utilizando uma linguagem sedutoramente acessível. Num estilo próprio que se movimenta habilmente pela Biologia, Física, Geologia, Filosofia e Teologia, na busca do Princípio Organizador do Universo que as religiões chamam Deus.
No final do ano passado, a Editora PUCRS tornou pública uma segunda edição revisada de um texto de Dom Dadeus denominado A Descoberta Científica de Deus – Ensaio de Diálogo Pós-Científico, onde o arcebispo descreve a evolução acontecida através das quatro grandes eras das teorias cosmogônicas: a era das irradiações, a era da matéria, a era da vida e a era da consciência.
No seu livro, de leitura apropriada para quem se encontra com sintomas de “indigestão episcopal”, Dom Dadeus exerce, com criativa argumentação, os três olhares indispensáveis para as lideranças século XXI, sejam elas técnico-científicas ou humanistas: o olhar para dentro, o olhar para fora e o olhar para os amanhãs. O primeiro voltado para uma permanentemente severa auto-crítica, percebendo sempre que “nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”, na reflexão heracliteana do músico Lulu Santos. O segundo olhar é voltado para o derredor, onde muitos, até religiosos, gastam um tempo enorme procurando apagar o brilho dos outros, em vez de possibilitarem o fortalecimento da sua própria irradiação, findando-se como pilhas de voltagem nula.
O terceiro olhar, o que busca amanhãs, é exclusidade dos que sabem fazer a hora, nunca esperando acontecer. Dos que ousam fazer, dos que sabem congregar, dos que percebem-se inconclusos, sentindo-se robustecidos quando acompanhados de não-medíocres de robusta criticidade.
Lendo o livro de Dom Dadeus, lembrei-me de muita gente que da leitura dele necessita, inclusive dos que ainda comungam do absolutismo religioso que afasta das religiões organizadas. E faço minhas, as palavras de Harold Kushner, rabino de muita fibra: “As igrejas, templos e sinagogas, com muita freqüência, têm-se tornado um terreno fértil para a hipocrisia, auto-promoção, uma falsa virtuosidade e para a propagação de mesquinharias e intolerâncias de todos os tipos”. Um rabino que até parece muito conhecer o Recife e as suas denominações religiosas...

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