Lembro-me como se fosse hoje: meu pai, em 1968, mostrando-me, entusiasmado, um livro de Dom Hélder Câmara, Revolução Dentro da Paz, editado naquele ano pela Sabiá. O “velho”, de personalidade conservadora, ainda que nunca reacionária, admirava profundamente a ação pastoral do Dom e os seus pronunciamentos a favor de um mundo mais humanizante. E se extasiava com as reflexões analíticas do arcebispo, principalmente com sua afiadíssima capacidade sementeira de pugnar por novos amanhãs civilizatórios.
O livro, coletânea de reflexões feita por um grupo de admiradores, quarenta anos depois e às vésperas do centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara, merece ser cuidadosamente guardado. Ele proporciona um panorama das principais preocupações do Dom. Sua visão evolucionista, por exemplo, é explicitada de modo cristalino, através de uma conclusão pra lá de sutil: “custaram alguns a entender que o essencial a salvar – ontem, hoje e sempre – é a presença do Criador e Pai. O mais é maneira de contar ao alcance de todos”.
Diante do maniqueísmo dos tridentinos e fundamentalistas contemporâneos, o Dom, há mais de quarenta anos, já dizia que “a oposição excessiva, feita por alguns, entre matéria e espírito, corpo e alma, quase firmava a convicção de que o espírito, sim, é criação de Deus, mas o corpo é quase criação do diabo”. E concordava com o teólogo Chenu, quando este afirmava que “a carne não pode ser sempre tida como sinônimo de pecado, de vez que o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
Aplaudindo um humanismo bíblico e cristão, o Dom acreditava que o cristianismo somente se fortaleceria através de um desenvolvimento científico evolucionário, por “acolher o que há de verdade em todos os humanismos, inclusive os ateus, por mais unilaterais e agressivos que se tornem”. E reconhecia no ser humano “o direito e o dever de dominar a terra e completar a criação”, cabendo ao próprio capacitar-se em todos os campos do saber”.
No livro, o Dom enviou um recado aos economistas da época: “Querem os economistas um bom começo para a revolução a empreender contra o econômico pelo econômico ...? Passem a bater-se pelo reconhecimento de que os mais rentáveis investimentos são os vinculados diretamente à formação do homem. Valorizem o homem como o centro e o fim da atividade econômica”. Recomendação ainda válida para os tempos de agora, dada a advertência de Bárbara Ward, uma extraordinária figura humana daquele tempo, que o próprio Dom reproduzia para seus colaboradores: “A riqueza, aliada à indiferença, atrai o castigo clássico que é, por indiferença e dureza de coração, perder contato com os anseios das grandes massas da Humanidade”.
Sei da imensa admiração sentida por Dom Maurício Andrade, Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, pelo sempre amado Dom Hélder Câmara. E foi dele que, outro dia, ouvi uma reflexão feita pelo Dom, ressaltando os dois ângulos de uma visão entorpecida: “...quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista."
Ratificando o pensar de Dom Hélder Câmara – “quase sempre o ateísmo nasce de deficiências na vida e no pensamento dos crentes” – sonho com a efetivação de um Movimento Solidariedade & Libertação, que congregasse os que amam o Homão da Galiléia, independentemente das denominações religiosas, estas hoje em franco declínio por descontemporaneidade. Um Movimento que ensejasse iniciativas que favorecessem a desalienação de milhares. Com uma justificativa que vem do próprio Dom: "É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática".
Os balizamentos do Movimento seriam voltados para uma reflexão-ação eminentemente binoculizadora, por derradeiro antecipadora de amanhãs, percebendo-se todos metamorfoses ambulantes.
(Publicada na Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, janeiro 2009, p. 29)
O livro, coletânea de reflexões feita por um grupo de admiradores, quarenta anos depois e às vésperas do centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara, merece ser cuidadosamente guardado. Ele proporciona um panorama das principais preocupações do Dom. Sua visão evolucionista, por exemplo, é explicitada de modo cristalino, através de uma conclusão pra lá de sutil: “custaram alguns a entender que o essencial a salvar – ontem, hoje e sempre – é a presença do Criador e Pai. O mais é maneira de contar ao alcance de todos”.
Diante do maniqueísmo dos tridentinos e fundamentalistas contemporâneos, o Dom, há mais de quarenta anos, já dizia que “a oposição excessiva, feita por alguns, entre matéria e espírito, corpo e alma, quase firmava a convicção de que o espírito, sim, é criação de Deus, mas o corpo é quase criação do diabo”. E concordava com o teólogo Chenu, quando este afirmava que “a carne não pode ser sempre tida como sinônimo de pecado, de vez que o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
Aplaudindo um humanismo bíblico e cristão, o Dom acreditava que o cristianismo somente se fortaleceria através de um desenvolvimento científico evolucionário, por “acolher o que há de verdade em todos os humanismos, inclusive os ateus, por mais unilaterais e agressivos que se tornem”. E reconhecia no ser humano “o direito e o dever de dominar a terra e completar a criação”, cabendo ao próprio capacitar-se em todos os campos do saber”.
No livro, o Dom enviou um recado aos economistas da época: “Querem os economistas um bom começo para a revolução a empreender contra o econômico pelo econômico ...? Passem a bater-se pelo reconhecimento de que os mais rentáveis investimentos são os vinculados diretamente à formação do homem. Valorizem o homem como o centro e o fim da atividade econômica”. Recomendação ainda válida para os tempos de agora, dada a advertência de Bárbara Ward, uma extraordinária figura humana daquele tempo, que o próprio Dom reproduzia para seus colaboradores: “A riqueza, aliada à indiferença, atrai o castigo clássico que é, por indiferença e dureza de coração, perder contato com os anseios das grandes massas da Humanidade”.
Sei da imensa admiração sentida por Dom Maurício Andrade, Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, pelo sempre amado Dom Hélder Câmara. E foi dele que, outro dia, ouvi uma reflexão feita pelo Dom, ressaltando os dois ângulos de uma visão entorpecida: “...quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista."
Ratificando o pensar de Dom Hélder Câmara – “quase sempre o ateísmo nasce de deficiências na vida e no pensamento dos crentes” – sonho com a efetivação de um Movimento Solidariedade & Libertação, que congregasse os que amam o Homão da Galiléia, independentemente das denominações religiosas, estas hoje em franco declínio por descontemporaneidade. Um Movimento que ensejasse iniciativas que favorecessem a desalienação de milhares. Com uma justificativa que vem do próprio Dom: "É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática".
Os balizamentos do Movimento seriam voltados para uma reflexão-ação eminentemente binoculizadora, por derradeiro antecipadora de amanhãs, percebendo-se todos metamorfoses ambulantes.
(Publicada na Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, janeiro 2009, p. 29)

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