sábado, 31 de janeiro de 2009

Tolerância e Punibilidade

Outro dia, um não muito distanciado dos atuais, financeiramente nebulosos, o escritor Umberto Eco, professor de semiologia da Universidade de Bolonha, romancista de sucesso, autor de O Nome da Rosa e também de O Pêndulo de Foucault, foi entrevistado pelo francês Le Monde. Sem papas na língua, denunciou uma estupidificante indiferença moral diante dos extremismos políticos que estão proliferando no mundo inteiro, mormente os de extrema direita. Para ele, as categorias "direita" e "esquerda", radical dicotomia de trinta anos atrás, não são mais compatíveis com os instantes históricos do agora.
As últimas décadas, aceleradamente evolucionárias, não devem provocar indiferença nos portadores de uma criticidade avessa a dogmatismos e ortodoxias. Distinções esclerosadas "cegam", obstaculizando análises desapaixonadas, desestabilizando emocionalmente os mais jovens e os menos experientes. E os que, aturdidos pela velocidade da História, postulam a validade de tudo, nada recusando, tudo sendo permitido, as regras morais consistentes não mais servindo para balizamentos comportamentais e políticos. Resultando em cafajestadas provocadas por pretensos defensores do povo, consideradas pelo grupelho como manifestações democráticas autênticamente populares, quando não passam de ato de puro vandalismo, um desserviço acima de tudo.
Defende Umberto Eco, com a responsabilidade de ser um intelectual de renome internacional, a missão de todo ser-pensante: delinear os limites entre o tolerável e o não-tolerável. Segundo ele, não há "nenhuma verdadeira diferença entre os ‘skinheads’ e os neonazistas de hoje e os nazistas da geração anterior". E vai além: "Continua sendo a mesma forma de imbecilidade e de atração pelo mal, o mesmo ódio pelos outros e o mesmo desejo de destruição".
Num país onde a ética comportamental é ridicularizada pelos que apregoam cinicamente saber levar vantagem em tudo, o pensamento desalienante deve merecer um esforço continuado, para discernir entre o que se encontra ultrapassado, obsoleto, e o que é moderno, atualizado, contemporâneo. E, ainda, o que foi considerado errado no passado e o que continua erroneamente sendo feito nos dias de hoje, numa aldeia global de múltiplos e cada vez mais interdependentes segmentos.
Acredito que temos uma obrigação cidadã muito acima das agruras do cotidiano: o direito de desconfiar das posturas políticas enganosas e das ruidosas manifestações sectárias. O dever de persistir reconstruindo os fatos históricos do nosso ontem sob um prisma revisionista é característica maior de todo historiador cientificamente idôneo, que não se permite resvalar para os negativismos analíticos das conjunturas instáveis. O próprio Umberto Eco, em sua entrevista, declara que "a Terra é redonda: não se pode ir à esquerda demais". E explica: a força de perseguir a idéia mais extrema, a mais provocadora, a mais "inovadora", acaba por dar a volta e se ver situada na extrema direita. Os exemplos são centenas ao nosso derredor. Inclusive de recentes bispos romanos anti-semitas e contrários ao Vaticano II. Nada bentos.
Nas ante-vésperas de mais uma eleição presidencial, aparecerão "milagreiros donos da verdade", grunhindo palavras de ordem, odiando tudo e todos, desancando a moral alheia, arrotando uma “fraseologia pseudo-revolucionária”, num quanto-pior-melhor oportunista, esquizóide, cretino mesmo.
Populismo, ignorância e incompetência, definitivamente não são armas para quem busca transformações sociais consequentes e duradouras. George Orwell costumava dizer que os jovens intelectuais de classe média vão para a esquerda por desemprego, sempre cobrando dos outros aquilo que não podem oferecer. Por aqui, os mais exaltados serão alguns fronteiriços, que buscarão seus quinze minutos de fama no guia eleitoral.

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