Neste início de ano, repleto de tropeços, sonhos desfeitos e decepções diversas, inclusive episcopais, ao rebu sendo acrescida a barafunda causada pela crise financeira internacional, ainda não devidamente percebida pelo presidente Lulinha, o da Marolinha, recordo um ex-companheiro da Fundação Joaquim Nabuco, Mário Souto Maior, eternizado sob protestos dos muitos que o amavam, eu incluso na relação.
Pesquisador do folclore nordestino, o Mário foi um dos mais legítimos perpetuadores da cultura popular nordestina. O seu lugar, como folclorista, está situado no primeiríssimo escalão. Os seus livros Nomes Próprios Pouco Comuns, Dicionário do Palavrão e Dicionário Folclórico da Cachaça ainda hoje subsidiam dezenas de textos, que necessitam de trilhas seguras e consistentes, distanciadas dos embusteiros travestidos de pesquisadeiros, macunaímicos uns, pra lá de vivaldinos a grande maioria.
Para uma leitura relaxante de férias, sempre ao alcance de uns taludos cajus e umas lapadas de uma bem destilada “branquinha”, aquela que é abominada pelos puritanosos de carteirinha, olhinhos virados e pantins diversos, recomendo um dos textos mais deliciosos do Mário Souto Maior: Geografia Popular do Pau Através da Língua Portuguesa. Trezentas e cinquenta expressões analisadas, sem resvalar para o chulo e o grotesco.
Sem apelar para obscenidades, no seu meticuloso ensaio Souto Maior demonstra como o pau contribuiu para as manifestações do nosso brasileiríssimo dia-a-dia, não de todo tragado pelos importados maneirismos primeiromundistas.
Imaginei logo uma pessoa muito distanciada das raizes da nossa gente buscando entender o significado da frase “no largo da feira de Casa Amarela encontrei o Dr. Fulano a-meio-pau, caindo pelas tabelas”. Ou uma outra, recém chegada do outro lado do mundo, com anos de bunda esfregada nos bancos da pós-graduação, não assimilando o pensar de um companheiro de universidade nordestina: “o deputado fulano de tal está sujo-que-nem-pau-de-galinheiro na CPI do mensalão”.
Outro dia, o fato foi contado pelo meu irmão João Silvino da Conceição, uma faxineira declarava para sua patroa que era pau-pra-toda-obra, indo logo por-cima-de-paus-e-pedras quando algum afoito desejava por-os-pauzinhos-ao-sol. E o marido da socialite quase cai em desespero, ao ouvir de um auxiliar que estava de olho grande num pauzão (mulher grande) e que por conta disso já estava ajeitando o pauzinho-do-matrimônio (os teréns do ajuntamento) E que o casório aconteceria rapidamente, pois gostava mesmo era de pau-na-égua (agilidade). Pedia apenas ao dono da casa, autoridade de primeira entrância, que fosse na sua vara bulir-com-os-pauzinhos, pois, mais que ninguém, o patrão era habituado a conhecer-o-pau-pela-raiz .
Para não fazer-casa-com-pau-bichado, li mais de duas vezes, de cabo a rabo, o livro do Mário Souto Maior. Também não desejando ser pau-de-amarrar-égua, nem tolerando os que adoram viver-à-sombra-do-pau, fiz questão de ganhar-os-paus para me deliciar com a pesquisa do Mário, meu ex-companheiro da Fundação Joaquim Nabuco, pai do Jan e avô do Bruno, dois arretados da Informática, consultores de tudo que é gente, inclusive ignorante que nem eu, um metido, vez por outra, a descobrir-o-mel-de-pau na minha área de trabalho.
Tomei ciência que souto, em Portugal, é bosque espesso. E o Mário Souto Maior, folclorista popular de primeira linha, nunca desejou mudar-de-pau-pra-cacete, ficando sempre na seara, convencido que nem-todo-pau-dá-esteio.
Não desejando deitar-os-pauzinhos-fora, esta crônica, com a licença do competente Roberto Tavares, ratifica uma demonstração de querer bem a um intelectual que jamais quis ser um dois-de-paus, em tempo algum desejando disputar-pau-a-pau com quem quer que fosse.
Um autêntico sábio nordestino, o Mário Souto Maior. Agrestino, jamais negou que se um-dia-é-do-pau-o-outro-é-do-machado. Hoje, na eternidade, os seus eflúvios continuam provocando imensas saudades.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)
Pesquisador do folclore nordestino, o Mário foi um dos mais legítimos perpetuadores da cultura popular nordestina. O seu lugar, como folclorista, está situado no primeiríssimo escalão. Os seus livros Nomes Próprios Pouco Comuns, Dicionário do Palavrão e Dicionário Folclórico da Cachaça ainda hoje subsidiam dezenas de textos, que necessitam de trilhas seguras e consistentes, distanciadas dos embusteiros travestidos de pesquisadeiros, macunaímicos uns, pra lá de vivaldinos a grande maioria.
Para uma leitura relaxante de férias, sempre ao alcance de uns taludos cajus e umas lapadas de uma bem destilada “branquinha”, aquela que é abominada pelos puritanosos de carteirinha, olhinhos virados e pantins diversos, recomendo um dos textos mais deliciosos do Mário Souto Maior: Geografia Popular do Pau Através da Língua Portuguesa. Trezentas e cinquenta expressões analisadas, sem resvalar para o chulo e o grotesco.
Sem apelar para obscenidades, no seu meticuloso ensaio Souto Maior demonstra como o pau contribuiu para as manifestações do nosso brasileiríssimo dia-a-dia, não de todo tragado pelos importados maneirismos primeiromundistas.
Imaginei logo uma pessoa muito distanciada das raizes da nossa gente buscando entender o significado da frase “no largo da feira de Casa Amarela encontrei o Dr. Fulano a-meio-pau, caindo pelas tabelas”. Ou uma outra, recém chegada do outro lado do mundo, com anos de bunda esfregada nos bancos da pós-graduação, não assimilando o pensar de um companheiro de universidade nordestina: “o deputado fulano de tal está sujo-que-nem-pau-de-galinheiro na CPI do mensalão”.
Outro dia, o fato foi contado pelo meu irmão João Silvino da Conceição, uma faxineira declarava para sua patroa que era pau-pra-toda-obra, indo logo por-cima-de-paus-e-pedras quando algum afoito desejava por-os-pauzinhos-ao-sol. E o marido da socialite quase cai em desespero, ao ouvir de um auxiliar que estava de olho grande num pauzão (mulher grande) e que por conta disso já estava ajeitando o pauzinho-do-matrimônio (os teréns do ajuntamento) E que o casório aconteceria rapidamente, pois gostava mesmo era de pau-na-égua (agilidade). Pedia apenas ao dono da casa, autoridade de primeira entrância, que fosse na sua vara bulir-com-os-pauzinhos, pois, mais que ninguém, o patrão era habituado a conhecer-o-pau-pela-raiz .
Para não fazer-casa-com-pau-bichado, li mais de duas vezes, de cabo a rabo, o livro do Mário Souto Maior. Também não desejando ser pau-de-amarrar-égua, nem tolerando os que adoram viver-à-sombra-do-pau, fiz questão de ganhar-os-paus para me deliciar com a pesquisa do Mário, meu ex-companheiro da Fundação Joaquim Nabuco, pai do Jan e avô do Bruno, dois arretados da Informática, consultores de tudo que é gente, inclusive ignorante que nem eu, um metido, vez por outra, a descobrir-o-mel-de-pau na minha área de trabalho.
Tomei ciência que souto, em Portugal, é bosque espesso. E o Mário Souto Maior, folclorista popular de primeira linha, nunca desejou mudar-de-pau-pra-cacete, ficando sempre na seara, convencido que nem-todo-pau-dá-esteio.
Não desejando deitar-os-pauzinhos-fora, esta crônica, com a licença do competente Roberto Tavares, ratifica uma demonstração de querer bem a um intelectual que jamais quis ser um dois-de-paus, em tempo algum desejando disputar-pau-a-pau com quem quer que fosse.
Um autêntico sábio nordestino, o Mário Souto Maior. Agrestino, jamais negou que se um-dia-é-do-pau-o-outro-é-do-machado. Hoje, na eternidade, os seus eflúvios continuam provocando imensas saudades.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

Nenhum comentário:
Postar um comentário