quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Evitando gafes

Outro dia, aqui no Recife, em reunião de excelentes contas correntes, madame dizia que não via chegar a hora de, embarcando para a Europa na semana seguinte, lá conhecer o Mercado Comum Europeu, posto que, com a crise estampada no mundo inteiro, iria encontrar mil e um produtos em liquidação. O assombroso do dito é que ele sofreu concordância unânime dos presentes, entre eles três marmanjos de semblantes quase asininos, todos entusiasmados com os sonhos da socialite que não possuía qualquer tonalidade loura em seu penteado.
Para evitar esparrelas, a Globo editou, ano passado, manual que poderá livrar inúmeros embaraços vexaminosos. De um londrino, Mark MacCrum, Viagem sem Gafe – descubra como se comportar da América Latina a Ásia, “é um guia global para todas as ocasiões, desde as primeiras saudações aos ritos finais”. Que, de maneira divertida, evita constrangimentos de viagem, daqueles que favorecem a multiplicação das “estórias”.
Na Alemanha, por exemplo, aperta-se em primeiro lugar a mão da Frau (senhora, mulher casada) e só depois se cumprimenta o marido. E na França, o rebonjour é gostosamente utilizado quando se encontra alguém por uma segunda ou terceira ou quarta vez num mesmo dia, embora o aperto de mão esteja válido para o dia inteiro.
Todo cuidado com o arreganhamento dos dentes num primeiro contato, pessoal ou profissional. Em muitas culturas, considera-se coisa séria o ato de cumprimentar alguém. Regrinha de ouro: “quando conhecer alguém tome como exemplo o comportamento de seu novo conhecido: se ele sorrir, sorria também; senão, boca fechada.
Para quem é beijoqueiro, atenção redobrada quando se estiver em determinadas regiões. No Vietnã e na China, por exemplo, os beijinhos na testa e no rosto são estritamente proibidos, podendo até levar ao suicídio, em determinadas regiões rurais, se uma mulher for vista beijando um homem. Na Nova Zelândia, os maioris cumprimentam apertando as mãos e roçando o nariz e a testa para compartilhar o mesmo hálito, sopro da vida.
Segundo McGrum, os gestos tornam-se os atalhos mais rápidos para mal-entendidos e hostilidades. Na Sardenha, o polegar para cima poderá acarretar, num engarrafamento de trânsito, palavrões e imprecações diversas, inclusive ameaças de morte. O gesto é considerado insultuoso, tal e qual o daquele dedo médio bem estirado...
Toda precaução com os dois dedinhos em forma de V, utilizado mundo a fora pelo presidente Inácio da Silva, na presença de inúmeras personalidades estrangeiras ao seu redor. Na Austrália e na Irlanda, o gesto tem o significado do brasileiríssimo “vá se fu***” Também sendo atitude rude na Arábia Saudita e no México, se com a adição do próprio nariz enfiado entre os dedos.
Outro dia, na Coréia, um empreendedor brasileiro fez a famosa figa, quando dos entendimentos preliminares de um contrato de exportação brasileira. Considerado lá como de extrema ofensa, pois é considerado uma “banana” em miniatura, a solenidade de assinatura do acordo sofreu retardo de três dias, até os esclarecimentos surtirem efeitos e as feições amuadas se diluírem, para gáudio das partes e alívio mental do infeliz inculto.
Em viagem turística, em São Paulo, num restaurante japonês pra lá de chic, casal de interioranos comemorava quinze anos de casamento. Ao receber a famosa toalinha, conhecida como oshibori, exclusivamente destinada para a limpeza das mãos, o maridão passou-a pelo pescoço e rosto, após o que deu nela uma caprichada assoada, de som escutado, sob risinhos, nos quatro cantos da casa. Riso não contido até pelo garçon que atendia quando o matutão enfiou um dos hashis (pauzinho) num pedaço de peixe, levando-o à boca com um sorriso de mula de fazer inveja em qualquer baia.
E se alguém estiver passeando pela Finlândia, nunca esquecer de que o passatempo nacional de lá é tomar sauna. Para uma população de cinco milhões de almas, existem dois milhões de saunas. Cada um com a sua toalha, por pura questão de higiene.
O livro do McGrum seguramente ajudará todos na minimização das mancadas.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com)

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