segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Ressurreição de Josué de Castro

Com entusiasmo, li de uma peitada só o texto tornado público, este ano, por três lideranças da terra, o jornalista Vandeck Santiago, o Instituto Maximiano Campos e a Edições Bagaço. O livro Josué de Castro, O Gênio Silenciado traz na contra-capa testemunho de Anna Maria de Castro, filha do biografado: “Recomendo a leitura do livro sem temores. Para realizá-lo o autor, o talentoso jornalista Vandeck Santiago, pesquisou exaustivamente a vida e a obra de meu pai, entrevistou especialistas, historiadores, sociólogos, economistas, professores, líderes de movimentos sociais, amigos e admiradores de Josué de Castro. Recolheu depoimentos os mais expressivos sobre a trajetória pessoal e profissional de Josué”.
O livro do Vandeck Santiago abrilhantou as comemorações centenárias do nascimento de Josué de Castro, autor de Geopolítica da Fome, 1951, “o mais encorajador, o mais esperançoso e o mais generoso livro que já li em toda a minha vida”, na opinião da norte-americana Pearl Buck (1982-1973), Prêmio Nobel de Literatura 1938 e Prêmio Pulitzer 1932, cujo livro A Boa Terra vendeu quase dois milhões exemplares, considerado um dos clássicos da literatura estadunidense.
Lastreado numa reportagem sua, O Gênio Silenciado, publicada em 2004 no Diário de Pernambuco, Vandeck Santiago, oito prêmios jornalísticos, entre eles um Esso e dois Embratel, no livro aponta, como causa primeira do desconhecimento de Josué de Castro, a “conspiração do silêncio em torno da fome”. Que as elites pernambucanas da época patrocinaram para encobrir problemas que poderiam redundar em prejuízos múltiplos à mais-valia que se usufruía então na Veneza Brasileira, a terceira cidade do Brasil e o maior carnaval do mundo, terra dos altos coqueiros. Os meninos que possuíam “o bucho estofado de lama” e os adultos que se assemelhavam a “bonecos de pano mal costurados”, conclusões feitas com rigorosa seriedade científica por Josué de Castro, incomodavam as elites puritanosas e reacionárias da época. Que não admitiam que se classificasse a fome como manifestação biológica de males sociais, tampouco um flagelo fabricado por seres humanos contra seus próprios semelhantes, tachando logo de comunista e de inimigo do progresso da região um pesquisador filho de retirante, laureado pela Academia de Ciências Políticas dos EUA e também contemplado com o Prêmio Internacional da Paz. Insensíveis que não aceitavam um pesquisador que dizia frequentemente “ditadura, nem do proletariado”, também alfinetando o pensamento liberal: - “Essa mão invisível nunca agiu em favor da humanidade”.
O professor Ignacy Sachs, naturalizado francês, dá um depoimento ímpar: “no pós-guerra, todas aquelas instituições criadas ao abrigo da ONU para melhorar o mundo tinham como guru máximo Josué de Castro. Antes mesmo de Gilberto Freyre tornar-se a referência do intelectual brasileiro, Josué já se impunha”. Um pernambucano que, por dois mandatos, presidiu o conselho executivo da FAO, organismo da ONU para Agricultura e Alimentação.
O golpe de 1964, ao decretar a cassação de Josué de Castro na primeira lista, juntamente com Miguel Arraes, Celso Furtado, Francisco Julião, Pelópidas da Silveira, Luiz Carlos Prestes, Darcy Ribeiro e tantos outros, tinha duas intenções: calar a voz de quem denunciava as causas sociais da fome e pôr no ostracismo as análises e estudos por ele desenvolvidos, tornando-o esquecido das escolas primárias e secundárias e da Universidade Brasileira. Uma estratégia que parecia obedecer, acabrestadamente, a sugestão feita por Fairfield Osborn, famoso neomalthusiano, a de “matarem o livro” de Josué, por tratar-se de obra “perigosa”. Estratégia que muito debilitou Josué de Castro, vítima de um infarto fulminante a 24 de setembro de1973, aos 65 anos de idade.
Mas o centenário de nascimento chegou e as condições políticas brasileiras agora são outras. As reedições dos trabalhos de Josué de Castro se sucedem, ainda que, para ele e todos os demais ressuscitados, permaneçam válidas as palavras do educador Paulo Freire, no auditório da FCAP da então FESP, nos primórdios da redemocratização: “Por favor, não me copiem. Me reinventem!!!”
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

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