segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Comunicação e Caráter

Os últimos percentuais de aprovação alcançados pelo presidente Inácio da Silva, Lula para os mais íntimos, são prova cabal de uma comunicabilidade invejosa, daquela capaz de escamotear os desvãos de uma crise planetária, pelo menos enquanto ela não alcançar a carteira dos brasileiros. Uma comunicabilidade que está sendo cada vez mais aperfeiçoada tecnologicamente, camuflando as inconveniências proferidas e as gafes cometidas. Os casos mais recentes aconteceram quando o presidente declarou, em pronunciamentos para patuléias ouvirem, que “quando o mercado tem uma diarréia, quem eles chamaram para salvá-lo?” e “vamos dar tal remédio e você vai se recuperar. Ou você diria: Meu, sifu!!”. Um mais antigo aconteceu quando da visita do presidente à Naníbia, quando ele declarou ser a região “tão limpa que nem parece a África”.
Entretanto, as análises dos especialistas brasileiros, psicanalistas, sociólogos e cientistas políticos, preocupados sobre os destemperos presidenciais que “não ajudam o país a criar uma idéia de um chefe de Estado”, não possuem repercussão alguma num país que possui cinco mil escolas de ensino básico sem luz elétrica, doze por cento das escolas primárias não oferecem lugar para os alunos se sentarem, mais da metade dos alunos do ensino fundamental estudam em escolas sem biblioteca, onze mil estabelecimentos de educação fundamental carecem de sanitários e noventa e cinco por cento da rede pública não têm rampa de acesso para os portadores de mobilidade reduzida. Dados publicados na revista Educação, tendo como fontes a Unesco, o Conselho de Desenvovimento Econômico e Social e o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. De seriedades comprovadas em pesquisas do gênero.
A amostra dos indicadores educacionais acima retrata a alienação nacional, que nem um pouquinho percebe a advertência dos cientistas políticos, quando afirmam que o presidente Inácio da Silva “deveria adotar um tom mais sóbrio, aconselhando a população a se preparar para os possíveis reflexos da crise global. Isso inclui um linguajar como menos ‘gracinhas’, ou palavras de baixo calão”.
O que mais preocupa os entendidos em Ética Governamental numa era de alta tecnologia, tão bem explicitada no livro O Princípio Responsabilidade, a mais importante obra do filósofo de origem judaica Hans Jonas (1903-1993), que foi discípulo de Martin Heidegger na Universidade de Freiburg, é o problema da dupla-face do primeiro mandatário. Um exemplo a título de esclarecimento: antes de declarar para os abilolados de sempre que os empresários de um mercado tido e havido como onipotente correm para o Estado quando estão em situação diarréica, o próprio presidente Inácio da Silva assinou a declaração do G-20, que dizia: “nosso trabalho por uma crença compartilhada de que os princípios de mercado ... estimulam o dinamismo, a inovação e o empreendedorismo que são essenciais para o crescimento econômico, o emprego e a redução da pobreza”.
O teólogo Hans Küng um dia esreveu: “uma igreja veraz não fornece ao homem receitas baratas para a vida particular e, muito menos, para a política mundial em suas diversas modalidades”. Se “uma igreja” for substituída pela expressão “um governo”, a recomendação bem poderia ser encaminhada ao Palácio do Planalto. Antes que o Domingo de Ramos se transforme em Sexta-feira da Paixão. Sem mais Ressurreição alguma.
O poeta Fernando Pessoa tem um poema intitulado Às Vezes, assim sendo a segunda estrofe: Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar / a importância da aventura e do abandono. / Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar / sobre a responsabilidade do que dizemos. Como seria bom se todos nós, os não acachapados, pudéssemos bradar diante do Palácio do Planalto, preocupados com o retorno inócuo das bravatas de um passado sindical de porta de fábrica: Fecha a boca, Inácio da Silva!!!
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

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