domingo, 14 de dezembro de 2008

Leitura Oportuna

De vez em quando, quando sacripantas fricotentos tentam pousar no meu terreiro, travestidos de auditor geral e único da Base da Nossa Existência, como dizia Paul Tillich, fico com uma vontade de retrucar com atitudes malcriadas, bubônicas mesmo. Mas a mente, situada acima do coração e que executa o CGA - controle geral de ânimo, incentiva continuar na trilha, seguindo a canção sem desaforos nem traulitadas. Tudo em conformidade com os bons costumes, abjuradas sempre as caraminholas que não integram o meu embornal de peregrino. Acredito piamente que os de categoria todo-pequena rapidamente se revelam, seus próprios comandos se pulverizando num piscar de olhos, fazendo-os escafederem-se do urbano para as brenhas mais rurais, de criticidade ainda engatinhante, ovelhantes na sua grande maioria. Onde sobrevivem os currais políticos e religiosos dos mais diversos naipes.
Num instante em que a eletrônica produz o mais breve pulso de laser já medido, calculado em 80 bilionésimo de bilionésimo de segundo, abismam-me, em áreas urbanas ditas metropolitanas, as atitudes dos abeatados de olhinhos revirados, que ainda não se perceberam contemporâneos, situados e datados em pleno século XXI, que está a exigir religiosidades nunca fricotentas.
Os ovelhosos se comportam como o teólogo Tertuliano dos tempos primeiros do cristianismo, que ansiava por ver os filósofos pagãos arderem no fogo brabo do Juízo Final, ao anunciar que bastava fruir da mensagem do Homão para não se ter necessidade alguma de investigar mais. Um posicionamento retificado mais de mil anos depois pelo notável Tomás de Aquino, teólogo dominicano, ao ressaltar a vontade de ampliar a sabedoria como a mais sublime, a mais perfeita e a mais útil das atividades humanas.
Para além de Tomás de Aquino, os tempos atuais exigem uma ampliação da enxergância de todos. O próprio apóstolo Paulo, na sua Carta aos Romanos, incentivava a transformação do mundo de então pela renovação das mentes, “para que sejam capazes de experimentar e comprovar a agradável e perfeita vontade de Deus”. Cada um devendo estar plenamente convicto da sua própria mente, como ressaltou mais adiante na sua epístola.
Fico a imaginar o comportamento que alguns tomariam, hoje, diante das atitudes inusitadas do Rabi da Galiléia. Que se colocava no mesmo patamar dos demais, ajudava prostitutas e leprosos, até confidenciando seus ensinamentos a uma mulher, Maria Madalena, inteligência feminina apedrejada moralmente pelos falsos beatos durante séculos, somente recentemente sendo restaurada em sua dignidade existencial.
Boas leituras refrigeram mentalidades e comportamentos, destroem medos e angústias, desabestalhando por derradeiro. Evitando as ingenuidades asininas daqueles que desejam “fazer o peru caber dentro da castanha”, afastando ainda fobias e discriminações.
Lendo sobre assuntos que me estão incomodando, permito-me espiar atrás das cortinas que impossibilitam a entrada de uma claridade libertadora. O objetivo da leitura é único: manter as lâmpadas acesas, recriando caminhadas, revisitando eventos antes tidos como inexpugnáveis, realimentando sonhos e favorecendo estratégias existenciais classificadas como de difícil acesso.
Dias atrás, um amigo me confidenciou que estava, aos cinquenta e cinco anos, sem saber como se comportar nos próximos anos, pois sabia que “o quadrado da hipotenusa era igual à soma dos quadrados dos catetos”, embora não tivesse mais certeza se o triângulo era retângulo. Engenheiro, não estava mais sabendo viver, cheio de medos e angústias, misturando filosofia e religião. Recomendei-lhe a leitura de Aprender a Viver, de Luc Ferry, ex-ministro francês da Educação, um defensor do Humanismo Secular, o uso da razão crítica, sem apelar para termos complicados e citações eruditas.
Segundo último telefonema, o amigo está se sentindo bem melhor, muito acima da mediocridade que o estava acossando.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com)

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