Tenho uma amiga, tornada gigante pela sagacidade neuronial transmitida, que me enviou um e-mail indagando, entre outras coisas, sobre como eu veria, nos tempos de agora, a Mensagem do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador, confrontando-a com as brabezas do profeta Isaías, no Primeiro Testamento. Indo completar 70 anos nos próximos dias, essa amiga revela a necessidade de apreender mais as orientações do Senhor Jesus, parafraseando Machado de Assis: “Estou naquela idade inquieta e duvidosa que é um fim de tarde e começa a anoitecer.” E se define da seguinte maneira: “tenho uma idade cronológica, uma idade fisiológica, uma idade mental (cabeça sempre funcionando a mil por hora), uma idade cultural, outra comportamental. ... Amo livros, sei das novidades, dos lançamentos, mas não posso ter meus livros preferidos e necessários para me dar mais bagagem cultural. O dinheiro não dá. ... Tenho que dividir meus gastos com coisas essenciais e não essenciais. Entra aí uma escala de valores que é minha, pessoal. Não abdico de um jornal (ou mais de um quando posso) e de livros.”
A cuca da Estella (nome fantasia) é pra lá de ótima. Ampliando a responsabilidade minha na elaboração de uma resposta não abobada. Respondi-lhe assim:
A mensagem do Homão pode ser escalonada em quatro grandes vertentes. A primeira se dirige favoravelmente aos pobres, aos esquecidos, aos rejeitados e aos excluídos, rejeitando os sem coração, os sem misericórdia, os sepulcros caiados, aqueles que exclusivamente enfatizam as manifestações externas, fechando os olhinhos quando se manda, levantando os bracinhos e berrando versinhos para se classificarem como de maior fidelidade.
A segunda maneira, deriva das brabezas do profeta Isaías, bastando consultar o capítulo primeiro do seu livro. O Senhor enfatiza a sinceridade interior, a do coração, posto que a fidelidade externa à tradição pode estar mascarando uma baita infidelidade interna a Deus, há muito já enojado com as assembléias e reuniões nunca férteis, que se tornam fardos inúteis, festinhas.
A exposição das maldades realizadas com nomes e sobrenomes, eis outra maneira, pedagógica, de anunciar o juízo proclamado pelo Homão. Onde os infratores sofreriam as conseqüências das atrocidades cometidas no próprio transcorrer da História.
Para os dias atuais, a quarta maneira da Mensagem se relaciona com uma nova ordem mundial indispensável. Uma ordem onde as desigualdades entre os que possuem mais e os que quase nada têm sejam reduzidas a um mínimo dignificante, onde os principais líderes “não sejam amigos de ladrões, amando o suborno e andando atrás de presentes”, tal e qual denunciado pelo profeta Isaías.
O teólogo Brian D. McLaren ressaltou recentemente para uma imensa platéia: “faça distinção entre tradições eclesiásticas e a tradição cristã, e tire a ênfase da primeira, colocando na última”. Em outras palavras: dizer que os velhos padrões estão cada vez menos eficazes já é um modo novo e muito promissor para quem deseja cidadanizar-se cristãmente, observando as árvores sem jamais deixar de sentir os ares da floresta. Tal e qual a peroração de Martin Luther King, num trecho que eu incluiria quando da formatação do Terceiro Testamento: “Pela violência pode-se matar um assassino, mas não se pode matar o assassinato. Pela violência pode-se matar um mentiroso, mas não se pode estabelecer a verdade. Pela violência pode-se matar alguém que odeia, mas não se pode matar o ódio. As trevas não podem acabar com as trevas. Somente a luz pode fazê-lo”.
Esperando ter satisfeito a indagação da amiga Estella, estou remetendo para o seu endereço O Segredo das Coisas Perdidas, um romance da tasmaniana Sheridan Hay, que retrata com maestria amizade, perda, conquista da liberdade e a descoberta de si mesmo, para trilhar com mais efetividade (e afetividade) os dias que nos restam, antes do anoitecer chegar.
(Publicado na página Religião, editada pela jornalista Carmen Peixoto, Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 26.04.2009)
A cuca da Estella (nome fantasia) é pra lá de ótima. Ampliando a responsabilidade minha na elaboração de uma resposta não abobada. Respondi-lhe assim:
A mensagem do Homão pode ser escalonada em quatro grandes vertentes. A primeira se dirige favoravelmente aos pobres, aos esquecidos, aos rejeitados e aos excluídos, rejeitando os sem coração, os sem misericórdia, os sepulcros caiados, aqueles que exclusivamente enfatizam as manifestações externas, fechando os olhinhos quando se manda, levantando os bracinhos e berrando versinhos para se classificarem como de maior fidelidade.
A segunda maneira, deriva das brabezas do profeta Isaías, bastando consultar o capítulo primeiro do seu livro. O Senhor enfatiza a sinceridade interior, a do coração, posto que a fidelidade externa à tradição pode estar mascarando uma baita infidelidade interna a Deus, há muito já enojado com as assembléias e reuniões nunca férteis, que se tornam fardos inúteis, festinhas.
A exposição das maldades realizadas com nomes e sobrenomes, eis outra maneira, pedagógica, de anunciar o juízo proclamado pelo Homão. Onde os infratores sofreriam as conseqüências das atrocidades cometidas no próprio transcorrer da História.
Para os dias atuais, a quarta maneira da Mensagem se relaciona com uma nova ordem mundial indispensável. Uma ordem onde as desigualdades entre os que possuem mais e os que quase nada têm sejam reduzidas a um mínimo dignificante, onde os principais líderes “não sejam amigos de ladrões, amando o suborno e andando atrás de presentes”, tal e qual denunciado pelo profeta Isaías.
O teólogo Brian D. McLaren ressaltou recentemente para uma imensa platéia: “faça distinção entre tradições eclesiásticas e a tradição cristã, e tire a ênfase da primeira, colocando na última”. Em outras palavras: dizer que os velhos padrões estão cada vez menos eficazes já é um modo novo e muito promissor para quem deseja cidadanizar-se cristãmente, observando as árvores sem jamais deixar de sentir os ares da floresta. Tal e qual a peroração de Martin Luther King, num trecho que eu incluiria quando da formatação do Terceiro Testamento: “Pela violência pode-se matar um assassino, mas não se pode matar o assassinato. Pela violência pode-se matar um mentiroso, mas não se pode estabelecer a verdade. Pela violência pode-se matar alguém que odeia, mas não se pode matar o ódio. As trevas não podem acabar com as trevas. Somente a luz pode fazê-lo”.
Esperando ter satisfeito a indagação da amiga Estella, estou remetendo para o seu endereço O Segredo das Coisas Perdidas, um romance da tasmaniana Sheridan Hay, que retrata com maestria amizade, perda, conquista da liberdade e a descoberta de si mesmo, para trilhar com mais efetividade (e afetividade) os dias que nos restam, antes do anoitecer chegar.
(Publicado na página Religião, editada pela jornalista Carmen Peixoto, Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 26.04.2009)

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