sexta-feira, 24 de abril de 2009

Como dissolver picaretagens

Certa feita, o ex-ministro Gustavo Krause, inteligência pernambucana comprovada em prosa, verso e Galo da Madrugada, escreveu que a cultura da estabilidade econômica chama o país à razão, dissolvendo velhas e carcomidas crenças supersticiosas, bem como esmaecendo a vocação para se acreditar nos ilusionismos mágicos. Entretanto, se observarmos as coisas sob os vértices dos nossos imorais diferenciais de renda, apesar de todos os atuais paternalistas esforços governamentais, vislumbramos cenários desestruturadores, deveras preocupantes, principalmente depois de ultrapassadas as etapas dolorosas da atual crise econômica mundial, apelidada de marolinha, por um palrador que possuía “bem menas” importância antigamente.
Em duas extremidades, o dilema brasileiro. Num deles, redes televisivas esmagando pela religião a incipiente criticidade nacional, anestesiando os descuidados, alienando uma classe média ouriçada em invencionices mil, para não se falar, aqui, nas receitas para o sucesso imediato individual de qualquer um.
Na outra ponta, os comportamentos epiléptico-fundamentalistas dos que buscam os caminhos da salvação sem qualquer compostura ética prévia, não se devendo aqui excluir os que vendem tudo que é enganação, desde fiapos do pente que desassanhou os cabelos de Jesus quando da Sua primeira ida ao tabernáculo até os restos ensacados e congelados de pedacinhos da última ceia, além das correntes internéticas, que ameaçam com a bubônica quem não remeter, dia seguinte, pelo menos vinte cópias para amigos, parentes e aproximados.
Engabelando as duas pontas, e o meio também, identificamos com facilidade os Ali Babás, com seus ladrões, que garimpam fortunas sob grotescas formas exploratórias nas áreas legislativas, executivas, judiciárias e religiosas. A competitividade gerando diatribes esculhambatórias e até briguinhas de afetados pela ânsia de também começar a explorar, desrespeitando a memória dos que partiram e ainda se encontram sendo homenageados.
A pós-modernidade libertou energias, aumentando lazeres e liberdades, enormes abismos se abrindo entre os que possuem quase tudo e os que não possuem quase nada, nem sequer esperanças sadias. Ações levianas e devassas são cometidas pelos que se dizem cristãos, cada um desejando ampliar os óbulos das suas sacolinhas. A evolução tecnológica, ampliando desesperos, gerou indiferenças, já quase eliminando do cotidiano primeiromundista o vocábulo solidariedade.
Olvidamos a advertência do querido Dom Hélder Câmara: "O Cristianismo que difundimos no Continente, atribuindo tudo a Deus e quase não apelando para a iniciativa e a responsabilidade do homem chamado, pelo Criador, a dominar a natureza, a completar a Criação, a conduzir a História, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico".
Acredito firmemente na orientação dada por Lucas 14,28: “Quem dentre vós, quando quer construir uma torre, não começa por se assentar para calcular a despesa e avaliar se tens com que ir até o fim?”. O que talvez o apóstolo não avaliou na devida conta, os tempos eram bem outros, foi o agigantamento da cobiça na construção dessas torres, hoje também amealhadoras de milhões de dólares, advindos de idiotizados e desesperançados, que imaginam soluções mágicas para velhos e cruciantes problemas, solucionáveis todos sem panacéia alguma.
É chegada a hora da junção dos responsáveis pelos destinos do planeta. Para restabelecer diálogos, seguindo a orientação do pe. Yves Congar, um dos teólogos mais conscientes da era contemporânea: “Diz-se que a Igreja não interessa mais a ninguém, que a maioria dos homens deixou de esperar dela algo que tenha o peso do real. Isso não é exato. Uma decepção dá a medida de uma esperança, um despeito a medida de um amor. Se não se esperasse mais nada da Igreja, não se falaria tanto dela...”
Uma igreja torna-se saudável quando não se contenta em ser apenas uma crítica às outras, mas quando se torna, muito oportunamente, um julgamento severo de si mesma. E isso somente advirá com capacitação, terra e saúde, melhor distribuição de renda e ampla participação, no Brasil, dos severinos de maria.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

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