quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ética, Ciência e Profissionalidade

Diante do acocoramento cívico de alguns senadores mercantes, muito oportuno o editado recentemente, 2007, pela Zahar Editora, sob título Textos Básicos de Ética – de Platão a Foucault. Organizados por Danilo Marcondes, titular do Departamento de Filosofia da PUC Rio de Janeiro, também vice-reitor acadêmico daquela consagrada universidade, os textos objetivam deixar a juventude universitária em contato com as idéias dos grandes pensadores sobre o assunto. Lidando diretamente com as reflexões, os alunos conhecem os conceitos-chave e os argumentos centrais da filosofia ocidental, ensejando discussões coletivas as mais diferenciadas, favorecendo uma profissionalidade ajustada aos parâmetros comportamentais condizentes com uma sadia convivialidade planetária.
Falando em profissionalidade, lamentavelmente é ainda bastante significativa a quantidade de jovens neurotizados às vésperas da conclusão dos estudos pré-vestibulares. Com 15, 16 ou 17 anos, já são pressionados pelo derredor para escolher uma profissão, sem tomar sequer conhecimento de milhares de atividades bem remuneradas, além de muito prazerosa. Diante de um cada vez mais diminuto número de empregos, não percebem eles os caminhos para o exercício de uma trabalhabilidade alavancadora.
A Campus Editora tornou público Cartas a um Jovem Indeciso, do professor José Roberto Whitaker Penteado, profissional reconhecido pela competência em áreas as mais diversas, como jornalismo, informática, economia, literatura e ciência política.
A partir de uma dedicatória criativa – a Elza, que me ensinou a importância do e – Penteado inicia suas reflexões citando Pablo Neruda: morre lentamente quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos. Acredita o autor que a era das especializações únicas profissionais está com seus dias contados, dando-se, hoje, preferência, a pessoas versáteis, de talentos múltiplos.
Profissional aplaudido, Whitaker aponta alguns requisitos para uma trabalhabilidade ativamente crescente: falar e escrever corretamente, leitura sistemática, curiosidade por tudo do mundo organizacional, disciplina de vida e convivialidade prazerosa. Sem esquecer a lição da Dona Vera, sua madrasta: “Na vida, a gente deve se arrepender do que fez, nunca do que deixou de fazer”.
Para os que ainda não perceberam a diferença entre os cientistas e os pescadores, nem sabem do que trata o ictiolalês, tampouco não descobriram porque o estômago da ciência é análogo ao estômago das vacas, o livro-lição do Rubem Alves, O Que é Científico?, Loyola Editora, é uma excelente oportunidade de clarear os horizontes mentais dos que desejam captar mais intensamente o que quis dizer o poeta Manoel de Barros: “A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos. A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá. Quem acumula muita informação perde o condão de advinhar: divinare. Os sabiás divinam.” Uma vacina apropriada para as doenças civilizatórias modernas: tédio, falta de sentido, sentimento de futilidade, inexistência de propósitos. Doenças que vitimam aqueles que não percebem que toda ciência, por melhor que seja, quando erigida como única linguagem para se conhecer o todo, acaba produzindo dogmatismo, cegueira e emburrecimentos.
O às vezes amaldiçoado Nietzsche um dia escreveu: “as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras”. Todo convicto sempre imagina que as suas bobeiras são sabedorias, nem sempre percebendo o que está acontecendo com ele próprio, pois desaprendeu, quase sempre, de ser generoso, prestativo e confiável. Sem nunca aceitar que toda teoria é uma hipótese que ainda não foi desbancada.
Três autores, inúmeras lições de como alicerçar uma profissionalidade cidadã século vinte e um.

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