terça-feira, 20 de novembro de 2007

Responsabilidades e Desafios

Certa feita, em 1936, Albert Einstein, um dos maiores cientistas de todos os tempos, antecipava um alerta aos de nível superior, hoje: “o desenvolvimento da capacidade geral do pensamento e julgamento independentes deve ser sempre colocado em primeiro plano, e não a aquisição de conhecimentos específicos. Quando uma pessoa domina os fundamentos de sua disciplina e aprendeu a pensar e trabalhar independentemente, por certo haverá de encontrar seu caminho e, além disso, será mais capaz de se adaptar ao progresso e às mudanças do que outra cujo aprendizado tenha consistido sobretudo na aquisição de conhecimentos detalhados”. Antecipação também explicitada, muitos anos atrás, pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre: “Não há futuro sem presente, como não há presente sem passado. (...) O que é preciso, para termos um sentido assim total e assim dinâmico, quer de tempo, quer de cultura, é que não nos deixemos seduzir, como é a tendência de alguns, por um lado, pelo que é transitoriamente moderno como se fosse um estado definitivo de tempo ou de cultura; por outro lado, pelo já consolidado em valor erudito, como valor clássico, valor alfabético, como valores que constituíssem outro estado definitivo ou único de tempo e de cultura”.
Para bem compreender as duas reflexões acima, torna-se indispensável perceber a existência de dois tipos de linguagens: código restrito e código elaborado. Do primeiro se utilizam os que partilham as mesmas pressuposições. Usa-se o segundo para se falar de sujeitos a respeito dos quais não partilhamos as mesmas análises. O discurso técnico fica com o primeiro dos códigos, interessado apenas em colocar em ordem o derredor, para controlá-lo. O código elaborado vincula-se ao interesse interpretatório para emitir uma opinião, resultando a reflexão crítica, aquela que tem por objetivo maior renovar mentalidades.
Numa entrevista, o filósofo Gaston Bachelard declarou para o seu interlocutor: - O senhor, manifestamente, vive em um apartamento e não numa casa. E explicou: - Uma casa possui, além da zona de habitação, um sótão e um porão, e nela sempre estamos subindo ao sótão e descendo ao porão. Quis ele dizer que há pessoas que vivem apenas do hoje, sem atentar para as lições dos ontens, desatentas para as ilações que estruturarão futuros.
Em 1947, Einstein voltava a declarar: "Nós, cientistas, acreditamos que o que nós e nossos semelhantes fizermos ou deixarmos de fazer nos próximos anos irá determinar o destino de nossa civilização. E consideramos nosso dever explicar incansavelmente esta verdade, ajudar as pessoas a perceberem tudo que está em jogo e trabalharem não por um apaziguamento, mas por uma compreensão e um entendimento definitivo entre os povos e nações de concepções diferentes".
Dois personagens históricos, já eternizados, legaram-nos ponderações inesquecíveis, que muito bem se ajustam às ponderações acima. O escritor Albert Camus aconselhava: "Para as grandes coisas são necessários princípios; para as pequenas, basta a misericórdia". Já o jesuíta Teilhard de Chardin, ainda muito temido por um cristianismo acomodado e de cócoras, nos ensinava a sua missão terrestre: "Quanto mais os anos passam, mais fico achando que minha função terá sido simplesmente ser, à imagem bem reduzida do Batista, aquele que anunciava e chamava o que havia de vir".
Estamos numa fase brasileira encruzilhadamente desafiadora. Um tempo de alavancagem evolucional ou de consolidação como nação subalterna. Na Educação, transferimos para o Segundo Grau grande parte do ministrado nos anos primários. E para a pós-graduação o indispensável que deveria ser ministrado na graduação, ficando esta abarrotada de complementações dos anos secundários. Tornamos “ginasializado” o ensino superior, gerando uma enorme acriticidade, desejada apenas pelos menos conscientes, futura sucata de um mundo cada vez mais evolucionário.

Nenhum comentário: