sábado, 10 de novembro de 2007

Por um consistente despertar

O lançamento recente, no Brasil, de dois livros impactantes – Deus não é grande, de Christopher Hitchens; e Deus, um delírio, de Richard Dawkins , o primeiro bem mais estruturado que o segundo – pode acarretar um efeito altamente positivo: o de alertar as religiões para a urgência de uma maior compreensão das últimas descobertas científicas, assim propiciando uma aproximação com os mais jovens, principalmente com os mais questionadores.
A juventude, mormente a dos países mais cidadanizados, de há muito já assimilou a famosa advertência de Ivan Illich, o célebre monsenhor católico romano de Cuernavaca, México: “Nunca confundir salvação com igreja”. E muito se identifica também com o canto do poeta menestrel Oswaldo Montenegro: “Que o espelho reflita em meu rosto / Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância / Pois metade de mim é lembrança do que fui / A outra metade não sei”. Duas reflexões, distanciadas décadas um da outra, que balizam uma espiritualidade planetária crescente dissociada das organizações religiosas que não mais sabem refletir uma fé madura, contemporaneamente alicerçada nos saberes últimos.
As expressões acima apenas ratificam, na exploração mental dos mais débeis, o “ópio do povo” de Karl Marx, caracterizado no absurdo dito por uma professora de Hitchens, autor de um dos livros acima citados: “Talvez vocês não vejam sentido em toda essa fé, hoje, mas verão um dia, quando começarem a perder entes queridos”. Uma estupidez de densidade equivalente àquela pronunciada por um religioso, numa celebração datada poucos dias após a grande cheia de 1975, no Recife: “Sabem por que o Recife teve essa cheia tão violenta? Porque Recife está pecando demais!!” Uma bobajada paquidérmica que tornou agnóstico jovem estudante de geologia sentado na assistência, que bem sabia as causas da inundação que tanto fez sofrer a capital pernambucana.
Lamentavelmente, as instituições religiosas século XXI ainda não se desapartaram inteiramente dos procedimentos hipnotizadores que tanto mal fez à humanidade, favorecendo sectarismos múltiplos, fundamentalismos contagiantes, arrecadações milionárias, nepotismos desagregadores, fingimentos e hipocrisias quilômetros distanciados do dito por Dietrich Bonhoeffer, enforcado pelas forças nazistas, aquelas mesmas que receberam à época apoio explícito de inúmeras denominações religiosas alemãs: “Nossa maturidade nos conduz a um verdadeiro reconhecimento de nossa situação diante de Deus. Deus quer que saibamos que devemos viver como quem administra sua vida sem ele.” Bonhoffer advogava um cristianismo à parte da religião, como Paul Tillich insistiu na tese de um Deus que não poderia ser definido de maneira pessoal, como um ser, mas de forma impessoal, como Base de Toda Existência.
Lamentavelmente, há líderes religiosos que se assentaram sobre seus estudos passados, por conivência ou conveniência. Por conivência, por perceberem que as ministrações anestésicas ainda são do agrado dos adeptos de uma ignorância antiintelectual. E por conivência, proclamando que Deus é igual a qualquer percepção que se tenha dele, favorecendo o parar de crescer dos seus próprios derredores.
A religiões necessitam urgentemente de clínicas oftalmológicas. Para uma “enxergância” maior dos seus evangelizadores hojes e amanhãs. Que a devoção seja um meio para agigantar nossas tarefas de co-criadores do Reino. Com um batismo livre de toda negatividade, apenas focado na maravilhosa e na esperança de um viver sem os horrores e decrepitudes do cotidiano, todos sendo contemplados, sem violações do livre arbítrio, aos acessos à maravilha do divino. Onde a figura do Homão de Nazaré continuará sendo o ícone central, o porta-estandarte que oferecemos ao mundo, sem jamais relevar a advertência feita pelo jesuíta Roger Haight, em seu esclarecedor Jesus, Símbolo de Deus, Paulinas, 2003: “Inculturação não significa acomodar a mensagem evangélica à cultura humana, e sim permitir que a substância do evangelho assuma a forma de uma cultura local”. Ser pós-moderno é radicalmente diferenciado de ser pós-modernoso. O primeiro é estar-se contemporaneamente no mundo. O segundo apenas é malabarismo sobrevivencial, as práticas apenas favorecendo o ambulatorial que procrastina, jamais o hospitalar que acama para ultrapassagens duradouras.
Se a igreja, em suas variadas vertentes, foram profundamente responsáveis por múltiplas ondas de negatividade, ignorância, alienação e opressão, a hora da virada é chegada, seja qual for o nosso medo de mudar, de perder poder, de desepiscopalizar-se, abandonando uma hostilidade defensiva, reflexo de uma imaturidade ou de uma ataxia pastoral, a incompreender, por razões que a própria razão desconhece, que ”a eclésia resultante será baseada na experiência das pessoas, não nos desejos da hierarquia”.
Como também externou John Shelby Spong, bispo aposentado anglicano, espero que meus filhos e netos, um dia, possam proclamar sem medo algum de serem felizes: “Deus é real para mim, e Jesus é minha porta de entrada para essa realidade”.

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