quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Lições de um Talento Lusitano

Da professora Edla Soares, um dos ícones da educação brasileira, admiração de muitos anos, recebo artigo do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, recentemente publicado. Intitulado Socialismo do Século 21, o texto do pesquisador luso deveria servir de mote para amplas discussões nas classes eclesiais, políticas e sindicais, favorecendo a emersão de novos ideários, de novas alternativas para a atual crise planetária, onde as desigualdades sociais se agigantam, a violência se intensifica e uma despolitização assustadora toma conta de uma mocidade cada vez mais voltada para os interesses pessoais.
O socialismo do século 21 necessita da concretização de fecundantes debates reconstrutores, onde os erros e fracassos dos passados recentes sejam esmiuçados, “para que seja credível a vontade de evitá-los”. Sem a violação massiva dos direitos humanos, tampouco qualquer cerceamento da liberdade de imprensa, com menos estatização e mais controle social comunitário.
Segundo Sousa Santos, algumas características para um socialismo 21 poderiam balizar os debates: complementaridade entre democracia representativa e democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões; produção menos assentada na propriedade estatal dos meios de produção que na associação de produtores; regime misto de propriedade, onde coexistam propriedade privada, estatal e coletiva (cooperativa); predominância, a longo prazo, da economia do altruísmo sobre a economia do egoísmo; respeito crescente para com a natureza e a justiça distributiva; transparência mais efetiva do Estado, favorecendo o seu controle público e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento da interculturalidade e da plurinacionalidade; radical combate à corrupção, aos privilégios e às discriminações raciais, sexuais e religiosas. E estratégias para implantação de socialismos de várias tonalidades em diferentes países, posto que torna-se cada vez menos viável a adoção de um modelo único, não multifacetado.
Ousaria revelar alguns norteamentos que ensejariam a consolidação de um socialismo 21 com dignidade para gregos e troianos, erradicando as ações marginais dos que apenas desejam levar vantagem em tudo: “A liberdade é uma responsabilidade e não um privilégio; Pessimismo é a ausência de angústia, quando não compensada pela presença da Esperança; O germe mais maléfico da nossa crise política é o do faz-de-conta; Entre revolta e resignação, a tarefa principal do ser humano deverá ser a de compreender/explicar para transformar; Uma geração que amesquinha a geração que a precedeu, que não consegue reconhecer as grandezas nem o seu significado necessário, é uma geração que mostra ser minúscula, que não tem confiança em si mesma, ainda que assuma pose de gladiador e exiba mania de grandeza”. Reflexões de autores diversos, que facilitariam caminhadas, ampliariam compreensões e despertariam cidadanias, criatividades e competências. Com estratégias e táticas bem definidas e amplamente discutidas, além de intransigente postura dialogal para um ver melhor o derredor.
Nossa atual crise de valores, que também se incorpora a uma crise mundial, é muito profunda. E a ausência de uma profissionalidade cidadã comprometida com a transformação do hoje está levando inúmeros à adoção de uma das alternativas desastrosas: a de se ser hipercrítico em relação a tudo aquilo que desagrada, por não sair do seu grupelho; ou a de ser subcrítico, acomodando-se cordeiramente diante de qualquer proposta.
A reflexão de Wilfred Cantwell, estudioso das religiões, é procedente: “Necessitamos, caso quisermos resolver satisfatoriamente os problemas humanos que afligem o mundo moderno, de uma compreensão mais adequada de religião, tanto da religião de outras pessoas quanto da nossa, do que aquela de que dispussemos em geral até o momento”.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, PE, em 21.11.2007, Página Opinião)

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