sábado, 26 de setembro de 2009

Biblioteca Celso Furtado

O BNDES está de parabéns pela inauguração, semana passada, da Biblioteca Celso Furtado, no Centro Internacional de Políticas para o Desenvolvimento, que funciona no seu edifício-sede, no centro do Rio de Janeiro. Congregando 7.542 livros, os livros estavam espalhados em vários endereços: no Quartier Latin, em Paris; em Copacabana e no Alto da Boa Vista, na Cidade Maravilhosa, onde o fundador da SUDENE eternizou-se em 2004.
Segundo Liana Melo, jornalista do jornal O GLOBO, em reportagem datada de 24 de setembro de 2009, “bibliófilo, Furtado nunca se caracterizou por colecionar livros raros, mas sua coleção reúne clássicos autografados pelo keynesiano John Kenneth Galbraith, o revolucionário cubano Fidel Castro, o economista brasileiro Eugenio Gudin e o argentino Raul Prebisch, da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), além do historiador francês Fernand Braudel”. E disse mais: “A biblioteca de Furtado tem obras sobre o Brasil, a América Latina e os estudos do desenvolvimento. Também é possível encontrar livros de Filosofia (num total de 424), História (chegam a 1.570) e até títulos pouco identificados com a vida e obra do autor, como história da moda (um total de cinco), psicanálise (38), culinária (nove) e até história em quadrinhos (quatro)”.
Segundo a viúva do economista Celso Furtado, Rosa Freire d’Aguiar, “o sonho de Celso sempre foi disponibilizar para o público sua biblioteca particular, porque ele tinha uma enorme gratidão por ter estudado em escola pública, na Paraíba. O maior temor dele era ver sua biblioteca ser vendida para terceiros”. E dá um testemunho valioso: “Celso era um rato de livrarias e sebos. Vivia comprando livros. Para Celso, os três maiores gênios brasileiros seriam Aleijadinho, Machado de Assis e Villa-Lobos, porque foram, segundo ele, ‘profundamente brasileiros’”.
Eternizado aos 84 anos vítima de um colapso cardíaco, a obra mais importante de Celso Furtado, “Formação econômica do Brasil”, sua primeira edição completa este ano 50 anos, vai ganhar uma edição comemorativa, que deverá chegar às livrarias nos próximos primeiros dias de outubro.
Para os que desejam tomar mais intimidade com o pensamento de Celso Furtado, tudo está explicitado no site do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, Centro criado a partir de uma proposta apresentada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sessão de abertura da UNCTAD XI – Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento, acontecida em São Paulo, junho de 2004. Um Centro que pudesse congregar as inteligências comprometidas com o desenvolvimento, uma idéia que de imediato foi endossada por pesquisadores e cientistas sociais do mundo inteiro. Uma visita ao site do Centro - www.centrocelsofurtado.org.br – ratificará o mérito da proposta do presidente Lula.
O Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento é uma associação civil de direito privado, de interesse público, sem fins lucrativos e sem vinculação político-partidária ou religiosa. Segundo os fundadores do Centro, sua vocação precípua é a de “promover atividades acadêmicas nas áreas de interesse previstas em seus estatutos, tendo como linha-mestra o estudo do desenvolvimento em suas múltiplas facetas econômica, social, regional e urbana, infra-estrutural, ambiental, internacional, os cursos e seminários, de caráter formativo, são dirigidos a estudantes e aos interessados nos problemas do desenvolvimento”. Os demais objetivos do Centro Celso Furtado são: a. conceder prêmios e bolsas de estudos a pesquisadores na área de desenvolvimento econômico e social; b. propor e avaliar políticas de desenvolvimento; c. publicar e divulgar os resultados dos trabalhos realizados; d. preservar e dar acesso público à Biblioteca e aos arquivos de Celso Furtado, quando concluídas sua classificação e organização.
Do Cadernos do Desenvolvimento n° 1, reproduzo, abaixo, artigo da viúva Rosa Freire d’Aguiar, Presidente Cultural do Centro. Uma aula de sabedoria e saudade intitulada A Memória do Futuro. Ei-la na íntegra:

“Quero registrar hoje, aqui, uma idéia que há tempo venhoacariciando: escrever uma História da Civilização Brasileira”. 20 de agosto de 1937. Celso Furtado

Vem de longe, das páginas de um diário adolescente, o primeiro acorde do que se tornaria o tema poderoso e abrangente, harmônico e variado de uma sinfonia que se confunde com a própria vida de Celso: entender o Brasil, a história, os homens. A imagem musical se detém na outra paixão daquele jovem de 17 anos: a música, aprendida na Paraíba, discutida em acaloradas conversas na praia de Tambaú com os amigos do Liceu Paraibano. Mais tarde, já no Rio, a música alimentaria o sonho de ser crítico musical, o desassombro nas conversas com Villa-Lobos, o fervor de assistir a um concerto de Toscanini. Mais tarde ainda, a música seria refúgio das horas claras ou turvas, das alegrias e dos trancos, das retomadas enriquecidas pela dor da experiência.
O desejo obstinado de entender o Brasil pressupôs entender por que o país era subdesenvolvido, e, corolário, a mecânica do subdesenvolvimento. Essa a marca primordial de sua trajetória, que ganhará a um só tempo amplidão e profundidade para se desdobrar em muitas outras na construção do Brasil e de seu destino. Autor de cerca de trinta títulos, alguns definitivos para a história do pensamento econômico moderno, do Brasil e América Latina, o intelectual não se satisfez em apontar caminhos, foi buscar na realidade o interlocutor passível de conduzir o país ao pleno desenvolvimento, dando às idéias a musculatura da esperança em ação.
Se a vida pudesse ser desfiada em acelerado, eu lembraria que Celso foi jornalista aos 19 anos, funcionário público aos 23, advogado aos 24, doutor em economia aos 28; foi segundo tenente da FEB aos 24, pioneiro da Cepal aos 29, criador e superintendente da Sudene aos 39, ministro do Planejamento aos 42; foi professor de grandes universidades na Europa e nos Estados Unidos, embaixador e ministro da Cultura.
Lembraria o rigor do caráter. O indisfarçável orgulho de ter sido nada mais que um servidor da coisa pública, sempre e apenas em governos civis. O rigor do pensamento. Fosse na formulação teórica, fosse na frase clara, sem titubeios, elegante, literária. O rigor do intelectual. O atrevimento de pensar por conta própria, de estender à economia a necessária visão interdisciplinar e humana. O reconhecimento recebido como o teórico do subdesenvolvimento.
Lembraria os não-ditos: o peso do exílio que calou fundo, a tristeza de ter sido expelido de seu país, “que deixara de ser a pátria que protege para transformar-se em ameaça”. O acabrunhamento, ao ouvir os ecos da brutalidade do regime que o punira injustamente. Diria que Celso personificava a definição de jornalismo cunhada por Cláudio Abramo: o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter. Lembraria a gesticulação das mãos. A marca dos grandes maestros quando querem transmitir paixão à sua regência.
Lembraria tudo isso e muito mais. Mas, de certa forma, já foi lembrado. Por Celso, em seus três livros de memórias intelectuais. Pelos que crêem em suas idéias. E até pelo pequeno exercício que um dia fizemos a quatro mãos, a cronologia biográfica que, pelas artes e manhas da internet, ganhou vida própria e ressurge ora aqui ora acolá no emaranhado mundo virtual.
Esta página reservada a Celso num Centro que leva seu nome acrescenta, ordena e atualiza reflexões sobre as suas idéias e sua ação. Não fala ao passado, mas ao futuro, à juventude do seu país à qual ele se dirigiu tantas vezes. Esse é o propósito dos textos reunidos em Sobre Economistas. Esse também é o objetivo de se esboçar um “Celso por ele mesmo”, incluído aqui em seu perfil da Linha do Tempo. São comentários furtivos que permearam entrevistas, pequenas frases pinçadas de conversas que ele teve com a imprensa em seus últimos dez anos de vida. São grãos de areia, que, se olhados com lupa, singularizados, revelam uma pincelada até então encoberta, um sentimento refreado agora trazido à tona, uma impressão flagrada no fundo da memória. Facetas desabrochadas com o avanço da idade, quando receios e anseios cedem lugar à consciência de que chegou o momento de depurar, de decantar o secundário, de fixar-se no essencial. Arcos menos visíveis da grande ponte que sustenta sua permanência em nossa História.
É esse trabalho de decantação da memória como um pedaço do futuro a missão precípua da presidência cultural do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. A guiá-la está a certeza de que os testemunhos dessa vida dedicada ao Brasil e à luta pelo desenvolvimento, ou, como ele preferia formular, à superação do subdesenvolvimento, devem se incorporar ao patrimônio dos que pensam afinados com Celso Furtado, que um dia também escreveu: “nem sempre as idéias ficam obsoletas com o passar do tempo; por vezes, ganham em vigor”.
Rosa Freire d’Aguiar

PS. Esta Reflexões 500 foi escrita por quem teve o economista Celso Furtado como Nome da Turma Economistas 1966 da Universidade Católica de Pernambuco. Exilado por imposições militares, Celso Furtado marcou sua presença no IV Congresso Brasileiro de Economistas, promovido em 1981 pelo Conselho Regional de Economia – 3ª. Região, à época por nós presidido, proferindo a Conferência de Encerramento.

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