segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Presente de casal padrinho

Temos, Melba e eu, um casal padrinho que muito amamos, Rosanna e Saulo Gorenstein, irmãos nossos em Abraão, Isaque e Jacó, ela sempre atenta aos dois “n” do seu nome. Mensalmente almoçamos juntos, quando a conversa fica em dia, as novidades postas na mesa e os cotidianos recifenses devidamente assimilados. De preferência, os temas menos sisudos, diante das azias causadas pelos assuntos “sérios”, daqueles tratados no Congresso Nacional.
No nosso último encontro, a conversa girou sobre dois livros, escritos despertadores destinados aos que ainda possuem tesão existencial sem fricotes nem salamaleques. Páginas que deixam a gente de bem com a vida, embora sempre à mercê da Misericórdia Divina.
O primeiro deles, Enciclopédia do Humor Judaico – Dos Tempos Bíblicos à Era Moderna, escrito por Henry D. Spalding, editora Sêfer. Estruturada por temas – Ateístas, Agnósticos e Convertidos; Casamento e Divórcio; Anti-semitas; Fumar, Beber e Jogar; Médicos e Pacientes; e Sinais dos Tempos são alguns dos 39 capítulos – e magnificamente bem encadernada, a coletânea, segundo o autor, “espelha a história do povo judeu. É um reflexo das suas alegrias e angústias, anseios e desalentos, e daqueles períodos tão breves de bem-estar econômico e social”.
Ao longo das suas páginas, a Enciclopédia destila quarenta séculos de história, que remontam desde os tempos bíblicos até a era atômica, a ressaltar o excepcional senso de humor do povo hebreu.
Findo o almoço, escolhemos cinco “causos” do livro, para provocar a sua leitura integral:
1. – Papai, pergunta o filho de dez anos à mesa também com a mamãe, qual a diferença entre marido e solteiro?
- Filho amado, solteiro é um homem que chega ao trabalho todas as manhãs vindo de um lugar diferente.
2. Diante do falecimento súbito de amigo, o rabi mandou um emissário comunicar à esposa, pedindo muita cautela no tratar.
- A viúva Raquel mora aqui?, perguntou o mensageiro.
- Sou Raquel, mas não sou viúva.
- Quer apostar?, indagou o shames, funcionário que cuida da sinagoga.
3. A placa do restaurante do Jacó dizia: “Preparamos todo tipo de saduíche”.
- Traga-me um sanduíche de elefante,pediu um jovem metido a sabido.
- Sinto muito, meu jovem, mas não podemos gastar um elefante inteiro para fazer só um sanduíche.
4. Um rabino e um padre discutiam sobre como deveria ser o paraíso.
- Uma coisa é certa, disse o padre, teremos um bom descanso lá em cima. Nenhuma compra ou venda é efetuada no céu.
- Claro que não, rebateu o rabino. Não é para lá que os negócios terão ido.
5. Mãe para a filha:
- O que você quer ganhar no Chanucá (festa religiosa onde as crianças ganham presentes)
- Um espelho, mamãe.
- Que pedido inusitado!! Por que?
- Porque estou ficando grande demais para me maquiar usando o botão de metal da porta.
O segundo livro, Fomos Maus Alunos, editora Papirus, já em 9ª. edição, foi escrito por dois talentos brasileiros, Gilberto Dimenstein e Rubem Alves. O primeiro, jornalista e comunicador, é especialista em “fazer com que uma ideia tenha vida”. O outro, teólogo notavelmente capacitado na arte de bem entrosar o máximo da razão com o máximo da emoção, está sempre investindo contra o senso comum, a mesmice escolar e a pasmaceira pedagógica dos que ainda não perceberam as manifestações das “birutas” que indicam as direções dos saberes vários.
A construção do texto final, estruturado a partir de diálogos travados entre eles, relata a travessia educacional de cada um quando criança e adolescente. Ambos dotados de ampla curiosidade, muito acima das mediocridades escolares merecedoras da reflexão ferina de Roland Barthes: “Nas escolas os alunos são obrigados a fazer o que não querem fazer e a pensar o que não queriam pensar”.
Em Gilberto e Rubem, a convicção da certeza explicitada por Guimarães Rosa: “O que importa não é nem a partida, nem a chegada: é a travessia”. Com as rejeições sofridas, um por ser judeu, o outro por ser um interiorano de Minas Gerais no melhor colégio do Rio de Janeiro, e ainda mais pustestante (xingamento dos colegas católicos para os que eram, à época, evangélicos).
Ao casal-padrinho amado, Rosanna de cabelos muito bem cortados, expliquei a razão do livro do Gilberto Dimenstein e do Rubem Alves já se encontrar na nona edição. Para satisfazer a curiosidade sobre ele, indaguei sobre a causa do sucesso, via Internet, a uma amiga mineira ainda na ativa no sistema estadual de educação de lá. E a resposta me satisfez: o livro continua sendo muito debatido pelos responsáveis das quatro primeiras séries do Ensino Fundamental. Para evitar “a bolorência do agir pedagógico”, evitando-se “a chatice da escola”, sem as “visões prepotentes” dos medíocres.
No final do almoço, os elogios foram para o Gilberto Dimenstein: “A palavra pedagogo vem do grego. É o ‘escravo que conduz criança’. De alguma forma, isso voltou. Porque, pelo salário que o professor recebe, pelo pouco tempo de preparo de aula que tem, tem de voltar a ser o ‘escravo que conduz criança’”.
(Publicada, a partir de hoje, 21/09/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

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