segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Aprimoramento de apupos

Uma boa recomendação em época de grandiosas indignações contra as degenerações que se acumulam no Senado Federal: um insulto pouco conhecido torna-se duplamente contundente. Além de qualificar negativamente o xingado, demonstra implicitamente sua ignorância, diante do desconhecimento do impropério proferido.
Hoje, quando a liberdade de expressão enseja críticas diferenciadas, classifica-se os insultos em várias categorias: construtivos, degenerativos, esculhambativos, demolidores e letais. Entretanto, para que um xingamento seja eficaz, urge um aprimoramento sobre os seus significados, favorecendo a ampliação da detonação proporcionada.
Em muito boa hora, um dicionário específico foi lançado recentemente pelo Ateliê Editoral, uma empresa paulista de bom calibre. O Dicionário Brasileiro de Insultos, de Altair Aranha, proporciona excelente nível de aperfeiçoamento em todos aqueles que desejam ampliar seus “apedrejamentos críticos” nos fatos e atos que mereçam atenção da Cidadania Brasileira.
O primeiro vocábulo do Dicionário é ababelado, “aquele que se mete em grandes empreendimentos sem conseguir levá-lo adiante porque atua de maneira confusa, desordenada”. Quando da leitura dessa primeira palavra, lembrei-me de um monte de gente, de passados remoto e recente, que se imaginavam tampas-de-foguete empreendedoras, mas que até a defenestração demissionária proporcionaram desastres irreversíveis ou de grandes proporções.
A última palavra do Dicionário é zuruó, vocábulo de mesma significação que zureta, aquele que é meio maluco, adoidado. Não sei porque cargas d’água, lembrei-me do atual ministro do Meio Ambiente, o Carlos Minc, aquele que entra e sai dos despachos presidenciais sem saber para onde direcionar seu planejamento estratégico, mesmo após algumas boas baforadas.
Os vocábulos do Dicionário oferecem identificações imediatas. Por exemplo, o vocábulo apelintrado, aquele que tem ares de pelintra, de espertalhão, não lembra um monte de senadores, principalmente aqueles agachados da base aliada do Governo na Comissão de Ética? E tararaca, significando desnorteado, não faz lembrar o senador Suplicy, de cartão vermelho levantado, imaginando-se juiz de final de Copa do Mundo? E onzenário, aquele que usufrui de ganhos ilícitos e escandalosos, não faz reavivar a figura daquele prefeito de São Paulo, que nunca se imagina proprietário de contas bancárias no exterior, muito embora sejam mais que evidentes as comprovações acumuladas pelo Ministério Público?
Com o Dicionário nas mãos, telefonei para o Edinho, um primo danado de inteligente, que conhece Deus e o mundo e mais alguns. E perguntei a ele se sabia o significado da palavra bunda, termo que arrepiava alguns mais sensíveis, que ficavam de olhinhos revirados para o alto, como se estivesse contemplando o próprio satanás de botas, chifres e rabo. O Edinho então soube explicar de maneira a mais convincente possível. Segundo ele, quando usado no masculino, serve para designar uma pessoa desqualificada, sem importância, ordinária. E que ainda havia os termos bunda-mole (homem destituído de coragem, fracote, moleirão), bunda-suja (homem que se borra de medo, de caráter fraco, ordinário) e bundão (que foge das responsabilidades, covarde). Observou ainda, o Edinho, que, psicanaliticamente, se associa bunda a covardia, sendo um insulto exclusivamente utilizado para homens, nunca para mulheres. Assim, bundona é uma bunda grande e bundão é um homem pau-mandado, frouxo, sem qualquer capacidade empreendedora.
Admirei-me da capacidade cultural do Edinho. Parabenizando-o, soube que ele tinha adquirido um exemplar do Dicionário Brasileiro de Insultos, do Altair Aranha. Que me foi emprestado, proporcionando-me a oportunidade de escrever esta crônica. Para todos os miquelinos do Brasil. Significado? Conferir no Dicionário, página 235.
PS Por favor, não gozem muito nos pernambucanos abilolados que torceram pela Argentina, no 3 X 1 de sábado passado e ainda apareceram na TV. Eles ignoram que, tecnicamente, Maradona e marafona são de perfis gêmeos.
(Publicada, a partir de hoje, 24/08/2009, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife - PE, www.revistaalgomais.com.br)

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