domingo, 16 de agosto de 2009

Por uma educação religiosa libertadora

No oportuno livro do teólogo Ed René Kivitz, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia, editora Mundo Cristão, há uma historinha por ele vivenciada que merece aqui ser divulgada. Certa feita, uma menininha perguntou-lhe como foi que Deus tinha feito o homem. E ele respondeu que Deus tinha pegado um monte de barro, fabricado um bonequinho, dado uma soprada no nariz do bonequinho e transformado o bonequinho num ser vivo caminhante.
Depois que a menininha foi embora, o Kivitz começou a matutar: “A minha resposta foi suficiente para ela, mas essa menininha vai crescer e um dia vai chegar na universidade. Até quando ela vai acreditar na historinha que lhe contei? O que ela vai pensar, quando descobrir que a terra tem mais de quatro bilhões de anos, enquanto a história narrada pela Bíblia Sagrada tem apenas seis mil anos? E o que irá acontecer com o seu pensar, quando ela se deparar com os avanços da ciência e da arqueologia, inevitavelmente questionando a historinha de Adão e Eva? Será que ela voltará a conversar comigo, ou me rejeitará como alguém que não possui qualquer capacidade evolucionária?
Daí a admiração que o Kivitz tem pelo Eclesiastes. Pois o livro bíblico continua relevante para todos nós, pois “ele não revela medo de olhar o mundo ao redor e dizer que não entendeu quase nada, e que a maioria das coisas que enxerga e vivencia não faz o menor sentido: vaidade, vaidade de vaidades, névoa de nada – absurdo”.
No seu texto, Ed René ressalta que confusão não é algo ruim. E conclui: “se nada nos confunde, provavelmente estamos aferrados a uma verdade insignificante”. Pois, afinal de contas, não faz sentido uma vida religiosa sem reflexão, ovelhisticamente, sem uma mínima enxergância, sem a menor atenção para uma advertência feita por John Stott – John Robert Walmsley Stott, uma liderança anglicana mundial evangélica, autor de Cristianismo Básico, mais de dois milhões de cópias vendidas em mais de 60 línguas, considerado por Billy Graham “o mais respeitável clérigo no mundo hoje”-, num dos seus livros: “Crer é também pensar”. Um excelente balizamento para os que ainda não perceberam que “a fé sem arestas é uma fé que se acomodou no confortável, isolou-se em um mundinho cor-de-rosa que inventou para si, é uma fé que já morreu mas ainda não foi enterrada”.
O autor de O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia, um texto provocador, desabestalhador por excelência, assevera com entusiasmo que “Deus não tem nenhum problema com esse negócio de pensar, duvidar e questionar”. E certamente acredita que os escritos evolucionistas do Richard Dawkins – a Grande História da Evolução, Companhia das Letras, 2009, é o mais significativo deles – nada mais são que provocações inspiradoras da inteligência humana advinda de uma Inteligência Criadora que jamais será decifrada pelos seres humanos, por mais geniais que eles possam vir a ser. E que também aplaude A Grande Transformação – o mundo na época de Buda, Confúcio e Jeremias, de Karen Armstrong, da citada editora, 2008. Como ex-freira durante sete anos, Armstrong analisa os séculos entre 900 e 200 a.C, que “viram nascer o confucionismo e o daoísmo na China, o hinduísmo e o budismo na Índia, o monoteísmo em Israel e o racionalismo filosófico na Grécia”. Sistemas que favoreceram as imbricações futuras entre filósofos, misticos e teólogos das mais variadas origens. Uma leitura fascinante, desmitificadora por derradeiro.
O livro do Ed René Kivitz é providencialmente alfinetador. Desabobalha, livra-nos dos cor-de-rosismos existenciais, faz-nos ingressar em dolorosos momentos reflexivos, verdadeiramente libertadores, apesar de todos os seus percalços. Que ratificam o que disse, num dos seus livros, o genial Carl Sagan: “Nós tornamos nosso mundo significativo pela coragem de nossas perguntas e pela profundidade de nossas respostas”. Um pensar que comprova com sabedoria incomum um comentário feito pelo ex-presidente norte-americano John Kennedy: “O maior inimigo da verdade muito frequentemente não é a mentira – deliberada, inventada e desonesta – mas o mito - persistente, persuasivo e pragmático. Muito frequentemente nos apegamos aos clichês de nossos antepassados”.
O convite do Senhor é mais que libertador: “Vamos discutir juntos?” (Is 1,18)

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