Recife, 18 de março de 2007
Reverendíssimo Dom:
Sempre agradecendo a Deus pela sua passagem terrestre, finda em 24 de março de 1980 quando do seu brutal assassinato, e jamais esquecendo sua bravura e o seu nunca acovardamente na defesa dos menos favorecidos, envio-lhe alguns escritos de pessoas que muito o amavam, todos relacionados com a tentativa de guilhotinamento intelectual do Jon Sobrino, aquele teólogo jesuíta de família vasca, que nasceu em 1938 em Barcelona e que chegou a El Salvador, para exercer inclusive a docência na Universidad Centroamericana José Simeón Cañas, a partir de 1957. E que colaborava bastante com o senhor, tendo escapado de morrer, por estar viajando, quando dos assassinatos de seis colegas jesuítas dele, em novembro de 1989.
Lembra-se que ele era considerado um dos colaboradores mais notáveis nas áreas da Cristologia, da Eclesiologia e da Espiritualidade da Teologia da Libertação? E que o senhor gostava de recomendar dois dos seus livros, Jesus, o Libertador, e Fé em Jesus Cristo, trabalhos que ainda fomentam a fé e a coragem de dezenas de milhares de latinos, inclusive os de língua portuguesa, que adquiriram as edições da Vozes?
Lamentavelmente, amado bispo, dias atrás deste mês de março, a Congregação para a Doutrina da Fé, antigamente chamada de Santo Ofício, pródiga em nada criar e de intensa vocação condenatória, de passado nada recomendável, emitiu um documento cala-a-boca, muito semelhante àquele emitido contra o Leonardo Boff, impondo ao teólogo Jon Sobrino um silêncio definitivo.
A condenação do Santo Ofício causou perplexidade nos que buscam a libertação do homem todo e de todos os homens, tornando libertos inclusive os que se imaginam fiscais do pensar alheio. A imposição do teólogo Jon Sobrino dá continuidade às ameaças sofridas pelos também teólogos Hans Küng (1975 e 1980), Jacques Pohier (1979), Schillebeeckx (1980, 1984 e 1986), Charles Curran (1986), Tissa Balasurya (1997), Anthony de Mello (1998), Reinhard Messner (2000), Jacques Dupuis e Mariano Vidal (2001) e Roger Haight (2004). Para aqui não falar das inúmeras vítimas dos castradores de segunda classe, que tentaram abater, no Nordeste Brasileiros tomado aqui como exemplo, mentes privilegiadas como a da teóloga Ivonne Gebara e a do escritor e também sacerdote Aloysio Fragoso.
A punição de Jon Sobrino, um dos teólogos contemporâneos mais sérios, indignou os de boa cepa reflexológica, os nunca-ovelhados, os pensantes da contemporaneidade, os paulinos sempre renovados pelo Espírito, os que não seguem acabrestados os ditames do poder maior. E o sofrimento entre nós, brasileiros, ampliou-se diante da proximidade da visita do pontífice ao Brasil, quando canonizará o Galvão, aquele cara bem bonzinho que distribuía umas pilulazinhas cura-tudo, da cabeça ao dedão do pé. Antenando ainda os militantes cristãos mais conscientes para a presença, entre nós, de quem deseja propagar fundamentalismos tridentinos, na ânsia de abocanhar os fiéis de regiões ainda sub-desenvolvidas.
Observe, Dom Romero, os testemunhos abaixo. São todos eles belíssimas bandeiras de lutas contra a perversão praticada por quem busca com ardor, embora inútil, arrancar da História as trilhas fincadas pelo Concílio Vaticano II:
Frei Betto: “O papa Bento XVI, às vésperas de sua primeira viagem à América Latina, faz um gesto que imprime um gosto amargo às boas-vindas: condena o teólogo jesuíta Jon Sobrino. ... O parecer condenatório da comissão da Congregação parte de preconceitos. A leitura das obras de Sobrino revela que, em nenhum momento, ele nega a divindade de Jesus. Nega é o docetismo, heresia já condenada pela Igreja nos primeiros séculos da era cristã, baseada na idéia de que Jesus , de humano, só tinha a aparência, em tudo mais era divino. ... O que está por trás da censura a Sobrino é a visão latino-americana de um Jesus que não é branco nem tem olhos azuis. Um Jesus indígena, negro, moreno, migrante; Jesus mulher, marginalizado, excluído. Aquele Jesus descrito no capítulo 25 de Mateus: faminto, sedento, maltrapilho, enfermo, peregrino. Jesus que se identifica com os condenados da Terra e dirá a todos que, frente a tanta miséria, se portam como o bom samaritano: ‘O que vocês fizeram a um dos menores de meus irmãos, a mim o fizeram (Mt 25,40)’”.
Roberto Zwetsch: “De certa forma, Sobrino passa a ser agora, involuntariamente, o símbolo de um recado do Vaticano aos que ainda guardam boa lembrança do Vaticano II (1962-1965) e dos encontro dos bispos em Medellin (1968) e Puebla (1979). ... É isto que estará em jogo nos bastidores da V CELAM e certamente terá repercussões também no âmbito ecumênico entre as demais igrejas cristãs”.
Eduardo Hoonaert: “Mais um capítulo numa dolorosa história que já vai longe: a ‘penitência perpétua’ imposta a Jon Sobrino. ... A questão de fundo, que aparece na condenação de Jon Sobrino, está na teimosia que caracteriza grandes instituições. Resistindo a qualquer tentativa de reformulação de suas fórmulas (sempre passageiras), elas se precipitam para a morte. A história já comprovou suficientemente que grandes impérios se destroem a si mesmos, por um processo que o historiador inglês Toynbee chamou de híbris (autoconfiança exagerada, falta de percepção da realidade, prepotência). Foi o que aconteceu sucessivamente com o império babilônico, o império persa, o império romano e recentemente o império soviético. A prepotência do Vaticano fica patente nas palavras usadas para afastar Jon Sobrino do ensino eclesiástico.”
Jung Mo-Sung – “O que está por detrás da punição de Jon Sobrino e também de uma boa parte das disputas que ocorrerá na V CELAM é a compreensão do papel da Igreja Católica no mundo e da sua relação com o Reino de Deus. ... Se a Igreja pretende criar um novo sentido para a palavra pobre para se ver como a instituição mais importante no mundo, poderá escrever documentos e notificações, mas o mundo não lhe ouvirá, pois nem conseguirá entender o que ela quer dizer”.
Ivanise Bombonatto – “Ao resgatar a densidade teológica do seguimento de Jesus, Jon Sobrino traz relevante contribuição para o cenário da reflexão cristológica. Colabora para a reaproximação da categoria da história, reforça o caráter soterológico da cristologia e a relacionalidade do conhecimento teológico, redescobre o valor do testemunho martirial. A cristologia de Jon Sobrino é uma cristologia eclesial, situada no reino da vida em contante confronto com o reino da morte, dialogante a aberto ao futuro.”
Leonardo Boff – “O espanhol Jon Sobrino é um dos teólogos mais sérios, mais evangélicos, diria até que é um dos teólogos mais santos que temos. Por isso, sua condenação tem uma gravidade especial”.
Acredito piamente, Dom Oscar Romero, que a condenação praticada pela antiga Santa Inquisição, devidamente endossada pelo seu ex-Comissário, seguramente fará despertar em cada cristão, num contexto que se transmuda muito velozmente e que se conscientiza cosmicamente, a sua capacidade de proclamar com efetividade a Boa Nova, sem temor censorial algum, atentando para o aprimoramento contínuo de uma autoconsciência elevada, compreendendo cada um seus pontos fortes e fracos diante da Mensagem do Homão de Nazaré, separando bem o joio do trigo. E com o hábito de encarecer ao seu derredor avaliações periódicas e construtivas, que possibilitarão a descoberta das potencialidades ainda ocultas por preconceito, frágil ousadia ou não-enxergância. Nunca arrefecendo uma sede de aprender e apreender, para multiplicar a criatividade na efetivação de novas oportunidades missionárias, sempre dotado de um sólido respeito pelas diferenças, transcendendo bairrismos, ideologias e maniqueísmos ultrapassados, próprios dos que não se conformam com o desenvolvimento da cultura contemporânea.
Tudo faz crer, amadíssimo Dom Romero, que alguns patrões mundiais ainda não perceberam as emergências citadas no parágrafo anterior. Entre os que desejam ser mais notados, o presidente Bush e o papa Bento XVI. Ambos com um portentoso viés: o de se imaginarem salvadores do mundo através da imposição de um pensamento único, desconhecendo a mutabilidade crescente dos cinco continentes.
Espero ver o Jon Sobrino firme e forte. Minha avó dizia que “quem muito se abaixa o bernardino aparece”. Uma lição que guardo até hoje bem dentro do meu coração. Há necessidade de Jon Sobrino permanecer na atual Igreja dele? Se afirmativo, qual a disposição dos seus irmãos mentalmente mais abertos de, intelectual e pastoralmente, enfrentar os inquisitoriais de plantão?
Gosto dos que mantêm a cabeça erguida, sem enodoar a altivez, quando cônscio dos deveres cumpridos. Sabendo travar o bom combate, mesmo quando as farpas parecem querer cantar de galo, ainda que desatreladas da verdade dos fatos relacionados com os autênticos procedimentos evangelizadores que favorecem e aceleram a construção do Reino.
Cada vez mais convencido estou: quem crucifica cotidianamente o Senhor da História são aqueles que, intra-eclesialmente, se postam como donos da verdade, sem atentar para a tarefa mais indispensável, a da libertação de todos, sonho acalentado por muitos milhões de excluídos.
Todo cuidado é pouco, já advertia o Senhor nas suas pregações, com as orações sem ações concretas. Um cristão que se esconde do mundo, covardemente, sem ampliar sua capacidade de agir construindo mais, muito se distancia da mensagem do Nazareno.
Na minha modésta opinião, a punição do Jon Sobrino, além dos fatores acima citados, relaciona-se com a ideologia do III Reich. E é exprimida por uma certa náusea de se perceber evoluindo, há muitos milhões de anos, a partir de um núcleo primata, quando o desejado, pelos olhos verdes e ares de superioridade mal disfarçada, seria a de ser um ente diretamente advindo de raça pura. Como se o Homão de Nazaré fosse um nascido de uma mãe ariana.
Vou ficando por aqui. Recomende-me sempre ao Pai, para que eu possa continuar sendo agraciado com os Ventos do Alto. Que me são indispensáveis na minha caminhada terrestre, como um obstinado aprendiz de tudo.
Com muita saudade da sua presença,
Rev. Fernando Antônio Gonçalves
Reverendíssimo Dom:
Sempre agradecendo a Deus pela sua passagem terrestre, finda em 24 de março de 1980 quando do seu brutal assassinato, e jamais esquecendo sua bravura e o seu nunca acovardamente na defesa dos menos favorecidos, envio-lhe alguns escritos de pessoas que muito o amavam, todos relacionados com a tentativa de guilhotinamento intelectual do Jon Sobrino, aquele teólogo jesuíta de família vasca, que nasceu em 1938 em Barcelona e que chegou a El Salvador, para exercer inclusive a docência na Universidad Centroamericana José Simeón Cañas, a partir de 1957. E que colaborava bastante com o senhor, tendo escapado de morrer, por estar viajando, quando dos assassinatos de seis colegas jesuítas dele, em novembro de 1989.
Lembra-se que ele era considerado um dos colaboradores mais notáveis nas áreas da Cristologia, da Eclesiologia e da Espiritualidade da Teologia da Libertação? E que o senhor gostava de recomendar dois dos seus livros, Jesus, o Libertador, e Fé em Jesus Cristo, trabalhos que ainda fomentam a fé e a coragem de dezenas de milhares de latinos, inclusive os de língua portuguesa, que adquiriram as edições da Vozes?
Lamentavelmente, amado bispo, dias atrás deste mês de março, a Congregação para a Doutrina da Fé, antigamente chamada de Santo Ofício, pródiga em nada criar e de intensa vocação condenatória, de passado nada recomendável, emitiu um documento cala-a-boca, muito semelhante àquele emitido contra o Leonardo Boff, impondo ao teólogo Jon Sobrino um silêncio definitivo.
A condenação do Santo Ofício causou perplexidade nos que buscam a libertação do homem todo e de todos os homens, tornando libertos inclusive os que se imaginam fiscais do pensar alheio. A imposição do teólogo Jon Sobrino dá continuidade às ameaças sofridas pelos também teólogos Hans Küng (1975 e 1980), Jacques Pohier (1979), Schillebeeckx (1980, 1984 e 1986), Charles Curran (1986), Tissa Balasurya (1997), Anthony de Mello (1998), Reinhard Messner (2000), Jacques Dupuis e Mariano Vidal (2001) e Roger Haight (2004). Para aqui não falar das inúmeras vítimas dos castradores de segunda classe, que tentaram abater, no Nordeste Brasileiros tomado aqui como exemplo, mentes privilegiadas como a da teóloga Ivonne Gebara e a do escritor e também sacerdote Aloysio Fragoso.
A punição de Jon Sobrino, um dos teólogos contemporâneos mais sérios, indignou os de boa cepa reflexológica, os nunca-ovelhados, os pensantes da contemporaneidade, os paulinos sempre renovados pelo Espírito, os que não seguem acabrestados os ditames do poder maior. E o sofrimento entre nós, brasileiros, ampliou-se diante da proximidade da visita do pontífice ao Brasil, quando canonizará o Galvão, aquele cara bem bonzinho que distribuía umas pilulazinhas cura-tudo, da cabeça ao dedão do pé. Antenando ainda os militantes cristãos mais conscientes para a presença, entre nós, de quem deseja propagar fundamentalismos tridentinos, na ânsia de abocanhar os fiéis de regiões ainda sub-desenvolvidas.
Observe, Dom Romero, os testemunhos abaixo. São todos eles belíssimas bandeiras de lutas contra a perversão praticada por quem busca com ardor, embora inútil, arrancar da História as trilhas fincadas pelo Concílio Vaticano II:
Frei Betto: “O papa Bento XVI, às vésperas de sua primeira viagem à América Latina, faz um gesto que imprime um gosto amargo às boas-vindas: condena o teólogo jesuíta Jon Sobrino. ... O parecer condenatório da comissão da Congregação parte de preconceitos. A leitura das obras de Sobrino revela que, em nenhum momento, ele nega a divindade de Jesus. Nega é o docetismo, heresia já condenada pela Igreja nos primeiros séculos da era cristã, baseada na idéia de que Jesus , de humano, só tinha a aparência, em tudo mais era divino. ... O que está por trás da censura a Sobrino é a visão latino-americana de um Jesus que não é branco nem tem olhos azuis. Um Jesus indígena, negro, moreno, migrante; Jesus mulher, marginalizado, excluído. Aquele Jesus descrito no capítulo 25 de Mateus: faminto, sedento, maltrapilho, enfermo, peregrino. Jesus que se identifica com os condenados da Terra e dirá a todos que, frente a tanta miséria, se portam como o bom samaritano: ‘O que vocês fizeram a um dos menores de meus irmãos, a mim o fizeram (Mt 25,40)’”.
Roberto Zwetsch: “De certa forma, Sobrino passa a ser agora, involuntariamente, o símbolo de um recado do Vaticano aos que ainda guardam boa lembrança do Vaticano II (1962-1965) e dos encontro dos bispos em Medellin (1968) e Puebla (1979). ... É isto que estará em jogo nos bastidores da V CELAM e certamente terá repercussões também no âmbito ecumênico entre as demais igrejas cristãs”.
Eduardo Hoonaert: “Mais um capítulo numa dolorosa história que já vai longe: a ‘penitência perpétua’ imposta a Jon Sobrino. ... A questão de fundo, que aparece na condenação de Jon Sobrino, está na teimosia que caracteriza grandes instituições. Resistindo a qualquer tentativa de reformulação de suas fórmulas (sempre passageiras), elas se precipitam para a morte. A história já comprovou suficientemente que grandes impérios se destroem a si mesmos, por um processo que o historiador inglês Toynbee chamou de híbris (autoconfiança exagerada, falta de percepção da realidade, prepotência). Foi o que aconteceu sucessivamente com o império babilônico, o império persa, o império romano e recentemente o império soviético. A prepotência do Vaticano fica patente nas palavras usadas para afastar Jon Sobrino do ensino eclesiástico.”
Jung Mo-Sung – “O que está por detrás da punição de Jon Sobrino e também de uma boa parte das disputas que ocorrerá na V CELAM é a compreensão do papel da Igreja Católica no mundo e da sua relação com o Reino de Deus. ... Se a Igreja pretende criar um novo sentido para a palavra pobre para se ver como a instituição mais importante no mundo, poderá escrever documentos e notificações, mas o mundo não lhe ouvirá, pois nem conseguirá entender o que ela quer dizer”.
Ivanise Bombonatto – “Ao resgatar a densidade teológica do seguimento de Jesus, Jon Sobrino traz relevante contribuição para o cenário da reflexão cristológica. Colabora para a reaproximação da categoria da história, reforça o caráter soterológico da cristologia e a relacionalidade do conhecimento teológico, redescobre o valor do testemunho martirial. A cristologia de Jon Sobrino é uma cristologia eclesial, situada no reino da vida em contante confronto com o reino da morte, dialogante a aberto ao futuro.”
Leonardo Boff – “O espanhol Jon Sobrino é um dos teólogos mais sérios, mais evangélicos, diria até que é um dos teólogos mais santos que temos. Por isso, sua condenação tem uma gravidade especial”.
Acredito piamente, Dom Oscar Romero, que a condenação praticada pela antiga Santa Inquisição, devidamente endossada pelo seu ex-Comissário, seguramente fará despertar em cada cristão, num contexto que se transmuda muito velozmente e que se conscientiza cosmicamente, a sua capacidade de proclamar com efetividade a Boa Nova, sem temor censorial algum, atentando para o aprimoramento contínuo de uma autoconsciência elevada, compreendendo cada um seus pontos fortes e fracos diante da Mensagem do Homão de Nazaré, separando bem o joio do trigo. E com o hábito de encarecer ao seu derredor avaliações periódicas e construtivas, que possibilitarão a descoberta das potencialidades ainda ocultas por preconceito, frágil ousadia ou não-enxergância. Nunca arrefecendo uma sede de aprender e apreender, para multiplicar a criatividade na efetivação de novas oportunidades missionárias, sempre dotado de um sólido respeito pelas diferenças, transcendendo bairrismos, ideologias e maniqueísmos ultrapassados, próprios dos que não se conformam com o desenvolvimento da cultura contemporânea.
Tudo faz crer, amadíssimo Dom Romero, que alguns patrões mundiais ainda não perceberam as emergências citadas no parágrafo anterior. Entre os que desejam ser mais notados, o presidente Bush e o papa Bento XVI. Ambos com um portentoso viés: o de se imaginarem salvadores do mundo através da imposição de um pensamento único, desconhecendo a mutabilidade crescente dos cinco continentes.
Espero ver o Jon Sobrino firme e forte. Minha avó dizia que “quem muito se abaixa o bernardino aparece”. Uma lição que guardo até hoje bem dentro do meu coração. Há necessidade de Jon Sobrino permanecer na atual Igreja dele? Se afirmativo, qual a disposição dos seus irmãos mentalmente mais abertos de, intelectual e pastoralmente, enfrentar os inquisitoriais de plantão?
Gosto dos que mantêm a cabeça erguida, sem enodoar a altivez, quando cônscio dos deveres cumpridos. Sabendo travar o bom combate, mesmo quando as farpas parecem querer cantar de galo, ainda que desatreladas da verdade dos fatos relacionados com os autênticos procedimentos evangelizadores que favorecem e aceleram a construção do Reino.
Cada vez mais convencido estou: quem crucifica cotidianamente o Senhor da História são aqueles que, intra-eclesialmente, se postam como donos da verdade, sem atentar para a tarefa mais indispensável, a da libertação de todos, sonho acalentado por muitos milhões de excluídos.
Todo cuidado é pouco, já advertia o Senhor nas suas pregações, com as orações sem ações concretas. Um cristão que se esconde do mundo, covardemente, sem ampliar sua capacidade de agir construindo mais, muito se distancia da mensagem do Nazareno.
Na minha modésta opinião, a punição do Jon Sobrino, além dos fatores acima citados, relaciona-se com a ideologia do III Reich. E é exprimida por uma certa náusea de se perceber evoluindo, há muitos milhões de anos, a partir de um núcleo primata, quando o desejado, pelos olhos verdes e ares de superioridade mal disfarçada, seria a de ser um ente diretamente advindo de raça pura. Como se o Homão de Nazaré fosse um nascido de uma mãe ariana.
Vou ficando por aqui. Recomende-me sempre ao Pai, para que eu possa continuar sendo agraciado com os Ventos do Alto. Que me são indispensáveis na minha caminhada terrestre, como um obstinado aprendiz de tudo.
Com muita saudade da sua presença,
Rev. Fernando Antônio Gonçalves

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