Se houvesse indicações sobre as mais significativas personalidades brasileiras, para um dos primeiros lugares votaria sem titubear no rabino Nilton Bonder, líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil. Seu livro último, Ter ou Não Ter, Eis a Questão - Campus 2006 – deveria servir de mote para as denominações que interpretam a busca da posse como uma “malignidade espiritual”, posto que, segundo o próprio Bonder, “não é possível ser sem ter”. Segundo ele, deve-se destruir as barreiras de uma hipocrisia religiosa estabelecida entre os conceitos de “ser” e “ter”, para se reconstruir as linhas mestras de uma Economia do Desejo capaz de revelar valores substantivos.
Bonder analisa um tipo de posse que, além de não ter características pecaminosas, se torna alicerce indispensável à própria existência. E se lança na contra-mão do senso comum da moral e da espiritualidade abobada: “toda vez que o ‘ter’ for originado numa necessidade, se fará instrumento e nutriente do ‘ser’, ou seja, reforçará a medida e a limitação que configuram nossa experiência de ‘ser’. Toda vez que o ‘ter’ se apropriar de algo que foge à limitação real do ‘ser’, que prescindir de uma necessidade real que o justifique, diminuirá o tônus e tornará flácida a experiência do ‘ser’”.
O questionamento principal do Bonder – Como foi que o mundo ficou assim: medido pela capacidade aquisitiva, com sonhos que se traduzem em consumos, sentidos e tendências que são originárias do mercado? – aponta para duas vertentes elucidativas: responsabilizar a ignorância para evitar defrontar-se com outras “inteligências” é a primeira; a segunda, a busca da imprescindibilidade da posse, em vez de tratá-la como mera patologia.
Nilton Bonder ratifica o pensar de Abraham Joshua Heschel, falecido em 1972, um dos mais importantes teólogos judeus contemporâneos: “Existem conceitos mortos e conceitos vivos. Um conceito morto já foi comparado a uma pedra que se planta na terra. Um conceito vivo é como uma semente” ... “A religião não nos é concedida, de uma vez por todas, como algo que possamos guardar num cofre. Ela precisa ser recriada o tempo inteiro”.
O livro do Bonder não deve ser lido bruscamente, como se lê uma revista semanal de superficialidades fuxicosas, atualmente em evolutivas vendas nas bancas de revistas, sintoma preocupante do desenvolvimento mental da classe média brasileira. Suas constatações merecem reflexões de causalidade, aquelas que buscam os porquês, pois nada é casual.
Algumas das boas cutucações do rabino Bonder, engenheiro pela Universidade de Colúmbia, PhD em Literatura Hebraica pelo Jewish Theological Seminary, induzem instantes de reflexão amadurecida: “Tenho encontrado tanto Reis buscando os segredos dos sapateiros como sapateiros infelizes porque não conseguem ser Reis”; “O erro mais comum de nossa civilização é acreditar que a posse é uma realidade, de que coisas possam ser tomadas por outras coisas e que isso não seja uma forma de acoplar medidas”; “Quem rouba tem menos ‘Eu’, menos posse de si”; “A velhice repleta de desejos de posse reflete uma inócua tentativa de conter a morte e resistir às novas demandas do organismo”; “Há magnatas que ao construir sua vida e sua fortuna interagem profundamente com o mundo e muito possuem. Há pobres que se protegem do risco e do esforço e pouco possuem. Há magnatas que nada ou pouco levarão deste mundo, e despojados com invejáveis bagagens de posse e que deste mundo muito levarão”.
Vale a pena ler o texto do Nilton Bonder. Que em seus livros aponta para a dinâmica das pausas em nossas existências. Pausas que, nas crises, favorecem a recuperação do sentido da caminhada, onde a realidade da Verdade beija a do Amor. A ratificar Leonardo Boff, outro arretado do espaço religioso: “O sub-aproveitamento do potencial da vida humana é a mais terrível das experiências humanas, o desperdício de vida constitui a pior miséria humana”.
Bonder analisa um tipo de posse que, além de não ter características pecaminosas, se torna alicerce indispensável à própria existência. E se lança na contra-mão do senso comum da moral e da espiritualidade abobada: “toda vez que o ‘ter’ for originado numa necessidade, se fará instrumento e nutriente do ‘ser’, ou seja, reforçará a medida e a limitação que configuram nossa experiência de ‘ser’. Toda vez que o ‘ter’ se apropriar de algo que foge à limitação real do ‘ser’, que prescindir de uma necessidade real que o justifique, diminuirá o tônus e tornará flácida a experiência do ‘ser’”.
O questionamento principal do Bonder – Como foi que o mundo ficou assim: medido pela capacidade aquisitiva, com sonhos que se traduzem em consumos, sentidos e tendências que são originárias do mercado? – aponta para duas vertentes elucidativas: responsabilizar a ignorância para evitar defrontar-se com outras “inteligências” é a primeira; a segunda, a busca da imprescindibilidade da posse, em vez de tratá-la como mera patologia.
Nilton Bonder ratifica o pensar de Abraham Joshua Heschel, falecido em 1972, um dos mais importantes teólogos judeus contemporâneos: “Existem conceitos mortos e conceitos vivos. Um conceito morto já foi comparado a uma pedra que se planta na terra. Um conceito vivo é como uma semente” ... “A religião não nos é concedida, de uma vez por todas, como algo que possamos guardar num cofre. Ela precisa ser recriada o tempo inteiro”.
O livro do Bonder não deve ser lido bruscamente, como se lê uma revista semanal de superficialidades fuxicosas, atualmente em evolutivas vendas nas bancas de revistas, sintoma preocupante do desenvolvimento mental da classe média brasileira. Suas constatações merecem reflexões de causalidade, aquelas que buscam os porquês, pois nada é casual.
Algumas das boas cutucações do rabino Bonder, engenheiro pela Universidade de Colúmbia, PhD em Literatura Hebraica pelo Jewish Theological Seminary, induzem instantes de reflexão amadurecida: “Tenho encontrado tanto Reis buscando os segredos dos sapateiros como sapateiros infelizes porque não conseguem ser Reis”; “O erro mais comum de nossa civilização é acreditar que a posse é uma realidade, de que coisas possam ser tomadas por outras coisas e que isso não seja uma forma de acoplar medidas”; “Quem rouba tem menos ‘Eu’, menos posse de si”; “A velhice repleta de desejos de posse reflete uma inócua tentativa de conter a morte e resistir às novas demandas do organismo”; “Há magnatas que ao construir sua vida e sua fortuna interagem profundamente com o mundo e muito possuem. Há pobres que se protegem do risco e do esforço e pouco possuem. Há magnatas que nada ou pouco levarão deste mundo, e despojados com invejáveis bagagens de posse e que deste mundo muito levarão”.
Vale a pena ler o texto do Nilton Bonder. Que em seus livros aponta para a dinâmica das pausas em nossas existências. Pausas que, nas crises, favorecem a recuperação do sentido da caminhada, onde a realidade da Verdade beija a do Amor. A ratificar Leonardo Boff, outro arretado do espaço religioso: “O sub-aproveitamento do potencial da vida humana é a mais terrível das experiências humanas, o desperdício de vida constitui a pior miséria humana”.

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