segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Hora e vez da criatividade

Por alguns economistas brasileiros nutro admiração acima da média. Celso Furtado sobrepairando sobre todos. Um deles, entretanto, me faz recordar os tempos de Unicap, quando Introdução à Economia, constitui livro básico do primeiro ano. Carlos Lessa, um dos autores, Antônio Castro foi o outro, formou-se em Ciências Econômicas pela Universidade do Brasil, 1959, efetivando mestrado pelo Conselho Nacional de Economia, 1960, seu doutoramento acontecendo na Universidade de Campinas, 1976.
Em 2003, foi convidado pelo presidente Inácio da Silva para assumir o BNDES, sendo empossado a 17 de janeiro. Por defender um desenvolvimentismo criativo e um papel mais ativo do setor governamental na área econômica foi afastado em novembro do mesmo ano.
Em entrevista à revista Caros Amigos, declarou:
Eu fui descobrir a miséria quando, trabalhando para Arraes, no plano diretor de Recife, vi a favela da Boa Viagem e do Pina. Isso gerou pra mim um impacto brutal, quer dizer, se uma sociedade deixa pessoas ficarem nessas condições, essa sociedade está errada. Durante muito tempo não conseguia chegar a Recife sem ficar empacado emocionalmente.
O economista vê a atual crise crise financeira como uma inevitável oportunidade de reformulação do capitalismo: “Acho que o mundo vai caminhar para uma sociedade bem mais convivial”. E mais disse: “Não haverá mais, provavelmente, este festival chamado globalização financeira. Não haverá mais este espetáculo de uma riqueza financeira que não guarda nenhuma relação com a riqueza real”. E deu um exemplo estarrecedor: “Existe uma instituição, que é uma instituição insuspeita, chamada Bank for International Settlements, que é uma espécie de banco central dos bancos centrais. Ele estima que a produção, o PIB, de todos os países do mundo somados seja alguma coisa na ordem de 60 trilhões de dólares. Um ano de atividade econômica são 60 trilhões de dólares. Agora, ativos financeiros são as dívidas das famílias, das empresas e dos governos. Dá um total de 130 trilhões. Em relação aos derivativos, o International Settlements não sabe, porém estima conservadoramente em 640 trilhões de dólares. Tudo isso está no terreno da fantasia porque o que corresponde ao processo da economia real são os 60 trilhões de produção e os 130 trilhões de ativos financeiros, que são as compras a prazo feitas pelas famílias de eletrodomésticos, imóveis etc. São os créditos de que as empresas lançam mão para produzir ou ampliar a produção e são os financiamentos que o governo assume para realizar políticas sociais, às vezes para comprar armamentos (risos), às vezes para fazer estrada. Isso é a parte sadia do lucro. A parte que pertence à efervescência são os 640 trilhões, que ninguém sabe quanto são. Nos EUA, já têm analistas que dizem que é um quatrilhão”.
Afirma convictamente: “Todos os que diagnosticaram o fim do capitalismo perderam o emprego. Porque as crises vêm e o capitalismo as supera e aparece com outra configuração. Acho que muito provavelmente o que vai acontecer é uma política dos países preocupada em organizar, regular, evitar comportamentos especulativos. E provavelmente vai surgir também uma cooperação internacional para tentar enfrentar alguns problemas do tipo poluição, degradação das fontes de água, etc...” E vaticina: “A economia mundial seguirá pautada pelo petróleo por muito tempo. Os EUA bebem 25% do petróleo do mundo. Não têm reserva para nem cinco anos, dependem do petróleo de fora. Não vão sair do Iraque de maneira nenhuma”. E alfinetou: “O que o Brasil está fazendo até agora é tentar tapar o sol com a peneira. Ao invés de criar salvaguardas, estamos tentando tampar buraquinhos”.
Enxergâncias solucionatórias”, eis uma missão. Para se ir além dos dogmas e das doutrinas que já não voltam mais como eram. O momento exige a “viabilização do impossível”, situado bem além da simples “implementação do viável”. Ou do apenas eleitoreiro.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com, Coluna BATE E REBATE)

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