quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O português que muito amamos

Semana passada, numa madrugadora navegação internética, após envio de Reflexões de Caminhante para quase oitocentos endereços eletrônicos, Europa, França e Bahia, encontrei um blog, cuja autora assim se define: “mãe e avó coruja de gente bonita e realizada. Escritora, jornalista, distraída, pós-analisada, incoerente, cética (mas bato cabeça para Ogun e Oxun, meus pais), crítica, silenciosamente debochada (cansei de perder amigos) e indecisa. Mas sou feliz, faço o que gosto. Escrever é bom demais”.
Por desejar conviver com gente cuca-livre, descubro que a blogueira é autora de livros, um deles, já em edições consagradas, com um título por demais despertador. Um telefonema para o Cláudio Rocha, da Livraria Cultura do Recife, centro aplaudido de convivência mentalmente prazerosa, me proporcionou um acesso rápido ao texto editado pela Record, ano em curso.
Na orelha primeira do livro, Arthur Dapieve, que a editoa não o identifica, diz que a Angela Dutra de Menezes, em 2000, quando se comemorava 500 anos do trajeto cabralino Torre de Belém-Monte Pascoal, resolveu realizar a travessia ao contrário, para bem explicar Portugal através das páginas da primeira edição de O Português Que Nos Pariu. Segundo Dapieve, “Angela explica, é bom que se diga,sem as pompas e circunstâncias dos livros didáticos, paradidáticos ou que tais. Pois o seu olhar ‘índio’ consegue ser divertido e malicioso sem perder a ingenuidade e o espanto”. E diz que ela, sem dar pelotas para o politicamente correto, uma praga que anda deixando alguns textos com temperos bem comportados, nos fornece uma Receita de Português que sobremaneira nos encanta, deixando-nos com uma vontade de quero-mais da gota serena. Ainda que nos torne quase estonteados com uma revelação que poucos conhecem: a de que o verde e amarelo da nossa bandeira nacional não representam nossa mata e nosso ouro piroca nenhuma, sendo apenas e tão somente as cores herdadas da Casa de Bragança.
Após leitura e releitura repletas de anotações, senti ampliado meu amor pela terra natal de um ancestral que nasceu em Trás-os-Montes, Alto Douro, região que já foi província. Tendo sido possuidora do maior número de emigrantes, tornando-se a área que mais sofreu com o despovoamento. Inclusive o do meu tataravô Gonçalves, que se bandeou para o lado de cá já no século XIX, em busca de atividades promissoras no mundo brasileiro.
No livro O Português Que Nos Pariu, leitura que recomendo ao meu irmão xará Fernando Campozana, engenheiro, mestre-cuca e exímio menino-dançador, a autora faz um gigantesco alerta: Portugal não está botando a boca no trombone na divulgação dos seus feitos notáveis!!. Segundo ela, apenas Portugal, no século XV reunia condições tecnológicas para concretizar as portentosas viagens de descobrimento. E ela vai fundo, quando declara que a atual política de boca de siri lusa é decorrência do silêncio então estabelecido para preservação das terras descobertas, a exemplo do explicitado no mapa do padre Martin Waldseemuller, conhecido por Mapa de Waldseemuller, que “localiza, com erros mínimos de latitude e longitude, acidentes geográficos da costa ocidental das Américas”. E que assinala o cabo Horn, indicando com o brasão português de cinco quinas quem por ali teria navegado pela vez primeira. Um mapa rebatizado, em princípios de 2000, como Certidão de Nascimento da América, hoje integrando o acervo do Congresso dos EEUU, adquirido, em 2003, por “apenasmente” dez milhões de dólares.
Segundo a autora, de propósito ela não conta o milagre das fortificações portuguesas, como o Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, fronteira do Brasil com a Bolívia, inaugurado em 1783, localização tida como perfeita, em estudo aerofotográfico de 1980.
Mais que nunca, da parte de pai sou tataraneto de uma família portuguesa, com certeza. E de mesmo nome do notável poeta Pessoa, um também Fernando Antônio.
(Publicada hoje no Jornal do Commercio, 25.11.2009, Recife-Pernambuco)

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