Um diferenciado avivamento cristão, agora de caráter planetário, parece se agigantar nos últimos tempos. Uma resposta rotunda, como dizem os gaúchos, a um pequeno documento, que anda percorrendo o mundo ortodoxo, intitulado Confissão de fé contra o ecumenismo. Assinado por seis metropolitas ortodoxos, da Grécia, da Sérvia, do Kosovo e dos Estados Unidos. Um texto bastante violento contra o diálogo entre religiões, sinistramente semelhante aos utilizados pelos tradicionalistas de todas as denominações.
Os signatários afirmam claramente: “como cristãos que acreditam na Santa Trindade, nós não temos o mesmo Deus de nenhuma outra religião, nem o das chamadas religiões monoteístas, Judaísmo e Maometanismo, que não acreditam na Santa Trindade". E realizam várias acusações: 1. Que desde o segundo milênio, as heresias se dividiram; 2. Herético é o cristianismo “papista, berço de todas as heresias e de todos os erros”, que começou mal na Idade Média e foi piorando, exagerando suas doutrinas eclesiológicas, mariológicas, chegando a corromper a liturgia; 3. Um cristianismo que inventou a “pan-religião” e reconheceu uma “vida espiritual” nas outras fés, protegeu os grupos carismáticos e a Nova Era, recebendo em troca a vergonha da corrupção; 4. Os protestantes sendo piores, pois perderam os sacramentos; 5. O único diálogo admissível com essa massa de hereges passa pelo batismo, posto que o que receberam não vale nada; 6. Que o Credo não é suficiente, carecendo de uma expansão, do tipo antiecumênico. E por aí vai. Segundo analistas especializados, o documento lembra muito de perto – pelo léxico e até pelos objetivos – o tradicionalismo católico, o integrismo luterano, o fundamentalismo congregacionalista e os exilados anglicanos.
Um avivamento cristão eminentemente ecumênico não se fez tardar. No último dia 15 de novembro, em Lisboa, representantes de várias confissões religiosas e não-crentes, lançaram uma Carta pela Compaixão, concretizando uma iniciativa lançada em fevereiro do ano passado por Karen Armstrong, uma ex-freira católica que se tem dedicado ao estudo das religiões monoteístas, autora de A Grande Transformação – o Mundo na Época de Buda, Confúcio e Jeremias, Companhia das Letras 2008, onde ela busca identificar a origem e o papel das religiões no mundo moderno.
Na Mesquita Central de Lisboa, onde estiveram presentes representantes da Comunidade Judaica, Igreja Católica e da Comunidade Islâmica, além de Mário Soares, ex-presidente de Portugal e atualmente Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, o padre Peter Stilwell, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, assim se pronunciou:
“A carta, cujo lançamento hoje nos reúne aqui, elege como referência a ‘compaixão’, emoção valorizada pelo menos nas principais tradições religiosas. É, como vários já testemunharam, uma palavra que não faz justiça a outras, mais antigas, cujo sentido se apagou ou distorceu com o tempo. Refiro-me à ‘hesed’ da tradição bíblica, o ‘amor das entranhas’ que os primeiros cristãos de língua grega traduziram por ágape e os de língua latina verteram no neologismo caritas, cuja raiz é a ‘charis’, ou graça, pedida de empréstimo aos gregos. Em suma, um amor marcado pela gratuidade, que encontra paralelos e convergências noutras tradições antigas. Trata-se de uma emoção delicada: um transbordar do coração perante as alegrias e sofrimentos dos outros. É um movimento profundo que arranca das raízes do nosso ser, antecedendo a reflexão da razão e a inclinação da vontade. Mais do que uma atracção ‘química’ pelo outro, ou sequer um sentimento psicológico de afinidade, é uma virtude ou força espiritual. Os cristãos lêem-na como brotando do próprio Deus, e por isso lhe chamam ‘virtude teologal’. Nesse sentido, antes de ser ação ela é atenção, vigilância. Dir-se-ia que é a condição do outro que abre em nós a fonte da nossa própria humanidade. Por isso, a compaixão se manifesta como resposta espontânea à grandeza ou miséria do outro: um excesso que transborda do coração de qualquer homem ou mulher, independentemente da sua filiação ideológica e religiosa, ou ausência dela, porque a todas antecede. Contudo, na sua delicadeza, a compaixão arrisca-se a ser perdida de vista por entre a multiplicidade de sentimentos e emoções que parecem mais relevantes para a vida quotidiana. Pode parecer uma emoção débil, sintoma de fraqueza perante a crueldade do real. Identificá-la e sublinhar a sua grandeza aos olhos do mundo, como o pretende fazer a rede que se tece em torno da Carta pela Compaixão, é por isso da maior importância. O cuidado atento pelo outro, próprio da compaixão, questiona o valor absoluto por vezes atribuído à afirmação da identidade e aos nossos direitos. Nisso se esconde um fermento de humanidade e mesmo uma proposta civilizacional”.
Eis, abaixo, a Carta pela Compaixão, um documento também apoiado pelo Dalai Lama, pelo brasileiro Cândido Mendes e pelo arcebispo Desmond Tutu, entre muitas outras lideranças significativas:
CARTA PELA COMPAIXÃO
“O princípio da compaixão é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, nos conclamando sempre a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão impele-nos a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de nos destronarmos do centro do nosso mundo e, no lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem excepção, com absoluta justiça, equidade e respeito.
É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, abstermo-nos, de forma consistente e empática, de infligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido a maldade, chauvinismo ou interesse próprio a fim de depauperar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhamos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.
Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião, a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo, a garantir que os jovens recebam informações exactas e respeitosas a respeito de outras tradições, religiões e culturas, a incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural e a cultivar uma empatia bem informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos
É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes numa determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica”.
A intenção primeira do documento é unificar, inspirar e levar de volta a compaixão ao coração da sociedade mundial, dado que a compaixão é considerada a Regra de Ouro das principais religiões do planeta.
Em vários locais do mundo, assegurada já em Nova York, Cairo, Londres, Ramallah, Melbourne e Buenos Aires, uma imensa placa de madeira será afixada. O texto pode ser visualizado no endereço: www.charterforcompassion.org.
Pessoas de todo o mundo contribuíram na estruturação desta Carta. Ela transcende diferenças religiosas, ideológicas e nacionais, tendo sido elaborada por pensadores de muitas tradições, com paixão, discernimento, convicção intelectual e esperança. A versão final da Carta foi lavrada por um Conselho da Consciência, formado por dezoito pensadores religiosos e líderes mundiais renomados.
A pira foi acessa. O caminhar vitorioso estará na dependência da nossa criatividade e da nossa coragem de radicalmente ser antes de apenas ter.
PS. Agradeço ao meu irmão anglicano Rev. Ivaldo Correia, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, pelas orientações primeiras sobre a Carta pela Compaixão.
Os signatários afirmam claramente: “como cristãos que acreditam na Santa Trindade, nós não temos o mesmo Deus de nenhuma outra religião, nem o das chamadas religiões monoteístas, Judaísmo e Maometanismo, que não acreditam na Santa Trindade". E realizam várias acusações: 1. Que desde o segundo milênio, as heresias se dividiram; 2. Herético é o cristianismo “papista, berço de todas as heresias e de todos os erros”, que começou mal na Idade Média e foi piorando, exagerando suas doutrinas eclesiológicas, mariológicas, chegando a corromper a liturgia; 3. Um cristianismo que inventou a “pan-religião” e reconheceu uma “vida espiritual” nas outras fés, protegeu os grupos carismáticos e a Nova Era, recebendo em troca a vergonha da corrupção; 4. Os protestantes sendo piores, pois perderam os sacramentos; 5. O único diálogo admissível com essa massa de hereges passa pelo batismo, posto que o que receberam não vale nada; 6. Que o Credo não é suficiente, carecendo de uma expansão, do tipo antiecumênico. E por aí vai. Segundo analistas especializados, o documento lembra muito de perto – pelo léxico e até pelos objetivos – o tradicionalismo católico, o integrismo luterano, o fundamentalismo congregacionalista e os exilados anglicanos.
Um avivamento cristão eminentemente ecumênico não se fez tardar. No último dia 15 de novembro, em Lisboa, representantes de várias confissões religiosas e não-crentes, lançaram uma Carta pela Compaixão, concretizando uma iniciativa lançada em fevereiro do ano passado por Karen Armstrong, uma ex-freira católica que se tem dedicado ao estudo das religiões monoteístas, autora de A Grande Transformação – o Mundo na Época de Buda, Confúcio e Jeremias, Companhia das Letras 2008, onde ela busca identificar a origem e o papel das religiões no mundo moderno.
Na Mesquita Central de Lisboa, onde estiveram presentes representantes da Comunidade Judaica, Igreja Católica e da Comunidade Islâmica, além de Mário Soares, ex-presidente de Portugal e atualmente Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, o padre Peter Stilwell, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, assim se pronunciou:
“A carta, cujo lançamento hoje nos reúne aqui, elege como referência a ‘compaixão’, emoção valorizada pelo menos nas principais tradições religiosas. É, como vários já testemunharam, uma palavra que não faz justiça a outras, mais antigas, cujo sentido se apagou ou distorceu com o tempo. Refiro-me à ‘hesed’ da tradição bíblica, o ‘amor das entranhas’ que os primeiros cristãos de língua grega traduziram por ágape e os de língua latina verteram no neologismo caritas, cuja raiz é a ‘charis’, ou graça, pedida de empréstimo aos gregos. Em suma, um amor marcado pela gratuidade, que encontra paralelos e convergências noutras tradições antigas. Trata-se de uma emoção delicada: um transbordar do coração perante as alegrias e sofrimentos dos outros. É um movimento profundo que arranca das raízes do nosso ser, antecedendo a reflexão da razão e a inclinação da vontade. Mais do que uma atracção ‘química’ pelo outro, ou sequer um sentimento psicológico de afinidade, é uma virtude ou força espiritual. Os cristãos lêem-na como brotando do próprio Deus, e por isso lhe chamam ‘virtude teologal’. Nesse sentido, antes de ser ação ela é atenção, vigilância. Dir-se-ia que é a condição do outro que abre em nós a fonte da nossa própria humanidade. Por isso, a compaixão se manifesta como resposta espontânea à grandeza ou miséria do outro: um excesso que transborda do coração de qualquer homem ou mulher, independentemente da sua filiação ideológica e religiosa, ou ausência dela, porque a todas antecede. Contudo, na sua delicadeza, a compaixão arrisca-se a ser perdida de vista por entre a multiplicidade de sentimentos e emoções que parecem mais relevantes para a vida quotidiana. Pode parecer uma emoção débil, sintoma de fraqueza perante a crueldade do real. Identificá-la e sublinhar a sua grandeza aos olhos do mundo, como o pretende fazer a rede que se tece em torno da Carta pela Compaixão, é por isso da maior importância. O cuidado atento pelo outro, próprio da compaixão, questiona o valor absoluto por vezes atribuído à afirmação da identidade e aos nossos direitos. Nisso se esconde um fermento de humanidade e mesmo uma proposta civilizacional”.
Eis, abaixo, a Carta pela Compaixão, um documento também apoiado pelo Dalai Lama, pelo brasileiro Cândido Mendes e pelo arcebispo Desmond Tutu, entre muitas outras lideranças significativas:
CARTA PELA COMPAIXÃO
“O princípio da compaixão é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, nos conclamando sempre a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão impele-nos a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de nos destronarmos do centro do nosso mundo e, no lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem excepção, com absoluta justiça, equidade e respeito.
É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, abstermo-nos, de forma consistente e empática, de infligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido a maldade, chauvinismo ou interesse próprio a fim de depauperar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhamos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.
Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião, a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo, a garantir que os jovens recebam informações exactas e respeitosas a respeito de outras tradições, religiões e culturas, a incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural e a cultivar uma empatia bem informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos
É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes numa determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica”.
A intenção primeira do documento é unificar, inspirar e levar de volta a compaixão ao coração da sociedade mundial, dado que a compaixão é considerada a Regra de Ouro das principais religiões do planeta.
Em vários locais do mundo, assegurada já em Nova York, Cairo, Londres, Ramallah, Melbourne e Buenos Aires, uma imensa placa de madeira será afixada. O texto pode ser visualizado no endereço: www.charterforcompassion.org.
Pessoas de todo o mundo contribuíram na estruturação desta Carta. Ela transcende diferenças religiosas, ideológicas e nacionais, tendo sido elaborada por pensadores de muitas tradições, com paixão, discernimento, convicção intelectual e esperança. A versão final da Carta foi lavrada por um Conselho da Consciência, formado por dezoito pensadores religiosos e líderes mundiais renomados.
A pira foi acessa. O caminhar vitorioso estará na dependência da nossa criatividade e da nossa coragem de radicalmente ser antes de apenas ter.
PS. Agradeço ao meu irmão anglicano Rev. Ivaldo Correia, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, pelas orientações primeiras sobre a Carta pela Compaixão.

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