sábado, 18 de julho de 2009

Carta do Ali

Em minha Caixa Postal, recolho correspondência que está a merecer, aqui, transcrição integral. Ei-la:
Prezado Senhor: Muito tripudiado em minha imagem, tido e havido por milhões como um bandido que liderava um grupo de 40 salafrários, encontro-me bastante deprimido. Os últimos informes jornalísticos me dão ciência de uma população, a brasileira, desprovida de indignação diante das esculhambações múltiplas praticadas por inescrupulosos representantes do Povo Brasileiro. Alguns até, anós atrás, guerreiros ferozes e fanáticos contra a corrução e o desrespeito praticado com as contas públicas.
Para que haja um julgamento equilibrado sobre a minha pessoa, permito-me contar um pouco do meu caminhar. Me chamo Ali Baba e era um pobre lenhador, até me deparar com um tesouro, escondido por quarenta ladrões, numa floresta perto de onde eu morava. O tesouro dos ladrões estava depositado em uma caverna, que abria e fechava mediante uma senha. Estando por perto, ouvi perfeitamente as referidas senhas serem pronunciadas: Abre-te, Sésamo! e Fecha-te, Sésamo!, dependendo da ocasião. Consegui na caverna entrar, aproveitando uma saída da quadrilha, levando comigo algumas preciosidades.
Chegando em casa, fui pressionado pelo meu irmão mais velho, Latrocin, que também se dirigiu à gruta, no dia seguinte, de lá buscando retirar um bocado de coisas. Ganancioso por derradeiro, na hora da saída se esqueceu da senha, sendo descoberto pelos ladrões e por eles assassinado. Noite alta, na ausência dos bandidos, lá entrei e retirei o corpo do meu irmão, promovendo um sepultamento digno na tarde do dia seguinte.
A partir do sepultamento do meu irmão, começaram as minhas dificuldades. Os ladrões, não mais encontrando o corpo dele na gruta, perceberam que, além deles, alguém também conhecia a senha. Certo dia, um dos ladrões, fingindo-se de comerciante de óleo, pediu-me hospitalidade. Trazia consigo trinta e oito jarros de óleo em quase uma vintena de mulas. Dos jarros, apenas um continha óleo, os demais escondiam trinta e sete ladrões que queriam se aproveitar da minha hospitalidade. Depois do acolhimento, noite alta, descobri a maracutaia, vertendo óleo quente em cada jarro. Manhã cedinho, o meu hóspede percebendo tudo, fugiu em carreira desabalada.
Tempos depois, o ladrão-corredor, de barba e turbante, se estabelece na cidade como comerciante amigo do meu filho, sendo por ele convidado para cear em nossa casa. Sendo reconhecido por um dos nossos serviçais, é apunhalado mortalmente por um deles.
Receoso de morrer nas mãos dos bandidos restantes, resolvi migrar para um país distante, onde me associei a um grupo de políticos que teoricamente representavam todos os habitantes. Foi a minha desgraceira. Com muita lábia, iludiram-me dos pés à cabeça. Arrebentaram-me financeiramente de cabo a rabo, deixando-me sem um real para as despesas de pronto pagamento, estando eu a sobreviver, hoje, de uma bolsa-família arranjada por um companheiro também pedinte, que me ensinou os procedimentos da solicitação.
E qual é a minha revolta? É a de ver o nome Ali-Babá sendo relacionado com toda e qualquer bandalheira financeira, às mordomias escandalosas, aos salários aprovados que em muito ultrapassavam os limites estabelecidos em lei, aos arrumadinhos pra lá de safadosos mantidos entre os políticos que me enganaram, também ludibriando milhões de outras pessoas, para não falar, aqui, dos decretos secretos e dos cinismos descarados.. Tudo escancaradamente, sem medo algum de levar tapas de indignação.
Daí meu apelo: que não mais se considere Ali Babá como sinônimo de ladravaz. A língua portuguesa é muito rica e certamente encontrará outras denominações mais apropriadas. Peço-lhe ajuda, mesmo porque o que roubei, diante dos descalabros praticados ultimamente no Congresso Nacional, é fichinha pura. Uma merreca que não paga nem uma diária de hotel meia-estrela na Capital Federal.
Uma pergunta final lhe faço, amigo: Congressista bandido não é também culpa da imbecilidade dos que o elegeram?

Guardei a correspondência do Ali Babá, ladrão-fichinha nos tempos de agora.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

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