Indo ministrar no campus da UFPE uma das minhas últimas aulas semestrais, dou carona a um oitentão careca, sorridente e cheio de vida, olhos buliçosos, que para lá também se destinava, na intenção de visitar a Biblioteca Central, tida e havida como abrigo de um dos mais atualizados acervos universitários do país.
Cumprimentos preliminares feitos, identificações à parte, principiamos a trocar figurinhas sobre mundos e fundos, daqui e d’além mar, percebendo eu, de bate-pronto, tratar-se de uma mente ostensivamente privilegiada, dessas capazes de fornecer umas boas “dicas” para quem está buscando continuar vivendo num mundo repleto de complexidades. O octogenário careca e sorridente não se fazia de rogado, refletindo serenamente a cada inquietação por mim explicitada, eu me postando tal e qual menino de pré-escolar diante de professora das letras primeiras.
A apresentação pessoal feita pelo “caroneado” era de uma simplicidade sem qualquer mesura: - Mineiro de Boa Esperança, cronista do cotidiano e contador de estórias, com alergia aos piruás. Percebendo meu espanto, esclareceu: - Piruá, lá nas Minas Gerais, é aquele milho que não deseja se tornar pipoca, se recusando a mudar por mais que o fogo esquente, tornando-se endurecido a vida inteira.
Caída a ficha, ousei perguntar ao simpático companheiro mais velho se ele gostava de ensinar. A sua resposta me sensibilizou: - Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como herança, a caixa onde guardam seus mapas e ferramentas, para que nunca se precise começar da estaca zero. Muito embora a sabedoria não seja ter, mas saber onde encontrar. Você sabia que o homem que inventou o alfabeto era um analfabeto?
Percebendo meu estado euforizante, advertiu: - Entretanto, todo cuidado é pouco com precipitações no ensinar. A Vida tem sua própria sabedoria. Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. Há certas coisas que têm de acontecer de dentro para fora. E concluiu, sem preocupações conclusivas: Há dois tipos de escolas, as que são gaiolas e as que são asas. Eu sempre me preocupei com aquilo que as escolas fazem com as crianças. Ultimamente ando me preocupando com aquilo que as escolas estão fazendo com os professores.
Cada vez mais embevecido com aquela mente privilegiada, logo percebi seu saber-viver encantador, filosofal sem pedanterias castradoras. E me manifestei entusiasmado: Esta carona que lhe estou dando foi uma benção recebida de Deus! Eu estava precisando conversar com alguém que soubesse rir. Quase encabulado, ele me respondeu: Já dizia Niebuhr, um especialista em religião, que o riso é o início da oração. Eu digo que a oração acontece no espírito do brinquedo, tendo Deus como companheiro. O demônio é sempre sério e nos puxa para baixo. Mas Deus é leve, menino, e nos convida a brincar. Experiência mística não é ver seres de um outro mundo. É ver este mundo iluminado pela beleza.
Uma segunda ficha caiu. Imaginei o careca sorridente como alguém de muitos mil quilômeros rodados de caminhada religiosa, talvez até missionária. Tive minha curiosidade satisfeita, com um arrazoado dele que me deixou sem poder tirar um pingo de alguns de seus ii: Um Deus que tenha uma câmara de torturas chamada inferno não merece o meu respeito e muito menos o meu amor. Somente os pássaros livres pensam no azul infinito. Um mar que se compreende não passa de um aquário. E eu não respeitaria um Deus que, havendo me dado asas, nos proibisse de voar. Deus criou os pássaros, as religiões criaram gaiolas. E as gaiolas criadas pelas religiões são feitas com palavras. Elas têm o nome de dogmas. Quero um santo que seja uma pessoa normal, exuberante, brincante. O Paraíso mora dentro de uma caixa de brinquedos.
Identificando-me como um alguém que respeitava todas as religiões, ouvi uma outra reflexão muito ratificadora: As religiões ocidentais, o cristianismo e o islamismo, se construíram com certezas. Sempre tiveram medo da dúvida. Sobre os que duvidaram, colocaram a ameaça das fogueiras ou do inferno. E isso deixou marcas tão profundas nas pessoas religiosas que, ainda hoje, elas têm medo de duvidar. O que significa que elas têm medo de pensar. E arrematou: Não tenho problemas com Deus. Mas tenho muitos problemas com aquilo que os homens pensam sobre Deus. Sou filho da tradição protestante. Não posso me livrar dela, nem quero. O que amo nessa tradição? A ousadia de pensar diferente, de andar na direção contrária; é o que mais amo. Não consigo viver sem dizer o que penso.
Na porta do Centro de Ciências Humanas, as despedidas habituais e os meus agradecimentos pelas lições recebidas. Com um sorrisão ainda mais livre, leve e solto, o oitentão arretado concluiu: Estou sempre correndo o risco de ver as coisas que digo com a seriedade do riso serem ignoradas como nada mais que uma brincadeira. A vida não suporta a mesmice. Aves engaioladas são banais e podem ser compradas em qualquer lugar. Nunca se esqueça que o riso é virtude filosófica. Aprendi que a melhor maneira de afugentar o ridículo é ser o primeiro a rir. Quem se leva a sério é, no fundo um inquisidor. Está só à espera de que a ocasião apareça. Distancie-se das pessoas muito sérias, posto que possuem problemas insolúveis. Recomende-me à sua amada esposa, e quando tiver a minha idade, perceba com saber e sabor que a velhice é quando o rio se prepara para converter-se em mar.
A terceira ficha caiu, ao ver o sábio oitentão preparando-se para deixar o carro: Rubem Alves!! Quando ele bateu a porta, o barulho do meu despertador de cabeceira anunciou que eu teria mais um dia de trabalho pela frente.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)
Cumprimentos preliminares feitos, identificações à parte, principiamos a trocar figurinhas sobre mundos e fundos, daqui e d’além mar, percebendo eu, de bate-pronto, tratar-se de uma mente ostensivamente privilegiada, dessas capazes de fornecer umas boas “dicas” para quem está buscando continuar vivendo num mundo repleto de complexidades. O octogenário careca e sorridente não se fazia de rogado, refletindo serenamente a cada inquietação por mim explicitada, eu me postando tal e qual menino de pré-escolar diante de professora das letras primeiras.
A apresentação pessoal feita pelo “caroneado” era de uma simplicidade sem qualquer mesura: - Mineiro de Boa Esperança, cronista do cotidiano e contador de estórias, com alergia aos piruás. Percebendo meu espanto, esclareceu: - Piruá, lá nas Minas Gerais, é aquele milho que não deseja se tornar pipoca, se recusando a mudar por mais que o fogo esquente, tornando-se endurecido a vida inteira.
Caída a ficha, ousei perguntar ao simpático companheiro mais velho se ele gostava de ensinar. A sua resposta me sensibilizou: - Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como herança, a caixa onde guardam seus mapas e ferramentas, para que nunca se precise começar da estaca zero. Muito embora a sabedoria não seja ter, mas saber onde encontrar. Você sabia que o homem que inventou o alfabeto era um analfabeto?
Percebendo meu estado euforizante, advertiu: - Entretanto, todo cuidado é pouco com precipitações no ensinar. A Vida tem sua própria sabedoria. Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. Há certas coisas que têm de acontecer de dentro para fora. E concluiu, sem preocupações conclusivas: Há dois tipos de escolas, as que são gaiolas e as que são asas. Eu sempre me preocupei com aquilo que as escolas fazem com as crianças. Ultimamente ando me preocupando com aquilo que as escolas estão fazendo com os professores.
Cada vez mais embevecido com aquela mente privilegiada, logo percebi seu saber-viver encantador, filosofal sem pedanterias castradoras. E me manifestei entusiasmado: Esta carona que lhe estou dando foi uma benção recebida de Deus! Eu estava precisando conversar com alguém que soubesse rir. Quase encabulado, ele me respondeu: Já dizia Niebuhr, um especialista em religião, que o riso é o início da oração. Eu digo que a oração acontece no espírito do brinquedo, tendo Deus como companheiro. O demônio é sempre sério e nos puxa para baixo. Mas Deus é leve, menino, e nos convida a brincar. Experiência mística não é ver seres de um outro mundo. É ver este mundo iluminado pela beleza.
Uma segunda ficha caiu. Imaginei o careca sorridente como alguém de muitos mil quilômeros rodados de caminhada religiosa, talvez até missionária. Tive minha curiosidade satisfeita, com um arrazoado dele que me deixou sem poder tirar um pingo de alguns de seus ii: Um Deus que tenha uma câmara de torturas chamada inferno não merece o meu respeito e muito menos o meu amor. Somente os pássaros livres pensam no azul infinito. Um mar que se compreende não passa de um aquário. E eu não respeitaria um Deus que, havendo me dado asas, nos proibisse de voar. Deus criou os pássaros, as religiões criaram gaiolas. E as gaiolas criadas pelas religiões são feitas com palavras. Elas têm o nome de dogmas. Quero um santo que seja uma pessoa normal, exuberante, brincante. O Paraíso mora dentro de uma caixa de brinquedos.
Identificando-me como um alguém que respeitava todas as religiões, ouvi uma outra reflexão muito ratificadora: As religiões ocidentais, o cristianismo e o islamismo, se construíram com certezas. Sempre tiveram medo da dúvida. Sobre os que duvidaram, colocaram a ameaça das fogueiras ou do inferno. E isso deixou marcas tão profundas nas pessoas religiosas que, ainda hoje, elas têm medo de duvidar. O que significa que elas têm medo de pensar. E arrematou: Não tenho problemas com Deus. Mas tenho muitos problemas com aquilo que os homens pensam sobre Deus. Sou filho da tradição protestante. Não posso me livrar dela, nem quero. O que amo nessa tradição? A ousadia de pensar diferente, de andar na direção contrária; é o que mais amo. Não consigo viver sem dizer o que penso.
Na porta do Centro de Ciências Humanas, as despedidas habituais e os meus agradecimentos pelas lições recebidas. Com um sorrisão ainda mais livre, leve e solto, o oitentão arretado concluiu: Estou sempre correndo o risco de ver as coisas que digo com a seriedade do riso serem ignoradas como nada mais que uma brincadeira. A vida não suporta a mesmice. Aves engaioladas são banais e podem ser compradas em qualquer lugar. Nunca se esqueça que o riso é virtude filosófica. Aprendi que a melhor maneira de afugentar o ridículo é ser o primeiro a rir. Quem se leva a sério é, no fundo um inquisidor. Está só à espera de que a ocasião apareça. Distancie-se das pessoas muito sérias, posto que possuem problemas insolúveis. Recomende-me à sua amada esposa, e quando tiver a minha idade, perceba com saber e sabor que a velhice é quando o rio se prepara para converter-se em mar.
A terceira ficha caiu, ao ver o sábio oitentão preparando-se para deixar o carro: Rubem Alves!! Quando ele bateu a porta, o barulho do meu despertador de cabeceira anunciou que eu teria mais um dia de trabalho pela frente.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

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