segunda-feira, 13 de julho de 2009

Análise Despertadora

Confesso que muito me agradam as leituras propocionadas por textos bem estruturados, não-enrolocráticos, que ampliam a “enxergância”, através de “apreendências binoculizadoras” que “desabestalham e cidadanizam”, acelerando o caminhar de todo aprendiz de tudo na direção de uma melhor transitividade crítica, sendo esta última expressão da mente criativa do saudoso educador pernambucano Paulo Freire, um talento ainda muito pouco reverenciado neste Brasil ainda meninão e pouco cidadão.
Semanas atrás, no Dia dos Namorados, recebi da Melba, inspiração de longo percurso, um dos últimos textos de Gilles Lipovetsky, pesquisador e professor da Universidade de Grenoble, França, também filósofo de nomeada. Editado pela Companhia das Letras, A Felicidade Paradoxal é um muito oportuno ensaio sobre a atual sociedade do hiperconsumo, como se consumo em doses descomunais trouxesse felicidade ou proporcionasse bem-estar mental para seus aficionados de todos os naipes e rincões.
Com base no livro, neste último final de semana estive no Hotel Portal de Gravatá, conversando com os jovens que irão estagiar no exterior, integrantes de um fabuloso programa de intercâmbio patrocinado pelo Rotary International. Conheci um intercambista, o Júlio Carlos, de 15 anos, que mora no Coque e é violinista da Orquestra Cidadã Meninos do Coque. E que irá se aprimorar musicalmente na Polônia durante seis meses, através de uma bolsa integral concedida pelo Rotary. Aproveitei a ocasião e também bati um papo com o Rodolfo, um rapaz de 19 anos, de Campina Grande, já estudante universitário de Engenharia Elétrica, também intercambista, que recentemente regressou da Alemanha, onde aprendeu alemão no Goethe Institut. E abracei o Eduardo Mota, filho do poeta Mauro Mota, um dos incentivadores maiores da minha profissionalidade, cuja filha também estagiará no exterior. E enalteci para todos os presentes A Tecelã, um poema de Mauro Mota que muito sensibilizou o Papa de então.
Agradeço ao pessoal do RC 4500 a acolhida sempre fraternal. Fiquei feliz em rever Francisco Leando Araújo, hoje Governador do Distrito, sempre amplamente incentivado pela Zazá, sua inspiração existencial e também sua colaboradora profissional, sendo ambos médicos. E tornei-me admirador de carteirinha do também médico Rivaldo Mendes, cristão militante, obstetra nota máxima da Universidade de Pernambuco. Abracei ainda o Marcelo Casimiro, cujo filho Rafael, de onze meses, nos brindava sempre com uma alegria contagiante.
Aos jovens, ressaltei as posturas viróticas que estragam uma viagem de intercâmbio: as voltadas somente para o passado, enfatizando a reprodução e a memorização; as que valorizam a incompetência, a ignorância e a baixa-estima; as que menosprezam o autoconhecimento; as que abandonam sonhos e utopias.
Relembrei para todos os presentes, o filósofo Karl Popper: “Nós não temos a verdade. Só podemos dar pitacos”. E esclareci a diferença entre bussolar e disleriar. O primeiro verbo significando estar antenado consigo, com o seu derredor e com o meio-ambiente. O segundo verbo é inspirado nas reflexões do poetaço Jessier Quirino, cabendo a carapuça naqueles que sequer percebem a veloz mutabilidade dos hojes, nunca ouvindo falar em dromologia, acomodados sempre no seu mundinho de mediocridades, distanciados de uma contemporaneidade sadiamente lúcida, que sabe viver dignamente, muito distante dos que a qualquer custo querem aparecer.
Mostrei aos intercambistas que sabedoria nada tem a ver com diploma disso ou daquilo. E citei, a título de exemplo, dois pensares do Marcolino Revoredo da Silva, um auxiliar de farmácia de Toritama (PE), inteligente que só, que o notável médico-escritor José Nivaldo eternizou como personagem título de um dos seus aplaudidos livros. A primeira: “A doutor nunca cheguei, mas tangi com as leituras a escuridão da ignorância, fazendo aprendimento que sempre gostei”. A outra: “Ciência é ciência, aparência é o avesso que pode se descoser”.
Para terminar o papo, repeti para os adolescentes um balizamento do poeta Fernando Pessoa, o português mais arretado de inteligência que eu tenho notícia. Uma lição de muita valia, que deveria tornar-se porta-estandarte de uma esplendorosa caminhada deles, de agora em diante: “Para vencer – material e imaterialmente – três coisas definitivas são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades e criar relações”.
O resto, conclui para eles, com um orgulho danado de ser nordestino, é estrume metido a cavalo, corpo de Cadilac em alma de jipe, como classificava Dom Hélder Câmara, um Dom que muito amei.
PS. Ontem à tarde visitei meu irmão quase de mesmo Flávio José Cavalcanti Neves, rotariano dos ótimos, que está se recuperando de um AVC braboso. Inteligência tinindo, esperança com alegria incomum, sempre sob as bênçãos do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

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