quarta-feira, 10 de junho de 2009

Orfandade de ideias

Algumas semanas atrás, assistindo palestra num evento de natureza social, tive a oportunidade de tecer alguns minutos de prosa com a psicóloga-pesquisadora Maria do Carmo Camarotti, a palestante, que ressaltou em seu papo uma preocupação significativa: a atual orfandade de ideias em nosso país. E eu concordei plenamente com o seu pensar.
Uma questão há muito tempo deveria estar presente nas esferas dos setores públicos, privados e eclesiásticos brasileiros: por que a Índia, que detém índices sociais mais desconfortáveis que o Brasil, possui níveis de criminalidade bem menores que os nossos? Será que, por aqui, a sociedade se encontra preocupada mais em fortalecer um punhado de “doutores”, ao invés de edificar uma comunidade de cidadãos, onde cada um compreenda seus deveres e direitos? Será que a postura cada vez mais individualista da nossa gente não consolidou uma cultura de fingimento, que transformou as manifestações tidas e havidas por solidárias em ardilosos procedimentos de como alavancar vantagens financeiras? Será que os vergonhosos quantitativos da nossa indigência social não favorecem apenas iniciativas assistencialistas, gritinhos histéricos de “vem, Senhor Jesus!” ou teses acadêmicas, estas resvalando para os fundos das estantes das bibliotecas, lá mofando sem intenção de qualquer operacionalidade? Será que famílias destroçadas somente são aquelas situadas abaixo de um determinado nível de renda, quando milhões de famílias das classes médias e altas de há muito também não sabem ser família, por hedonismo autofágico, insuficiência cultural, boçalidade técnica e espiritualidade de faz-de-conta, colocando num mesmo saco um dolorismo da boca pra fora, uma emocionalidade debilóide e um como-deus-quis que agride os principais ensinamentos das grandes religiões do planeta?
No evento, me chamou atenção um pronunciamento de um oficial reformado, da Marinha se não me falha a memória. Segundo ele, o mundo, hoje, estaria mais preocupado com o ter do que com o ser, pouco se lixando, tal e qual aquele deputado bandido do nosso quase putrefato Congresso Nacional, para os comentários emitidos no Ter ou Ser, livro de Erich Fromm, editado em 1977.
Tem plena razão aquele participante: hoje, efetivando-se o revelado em documento de 1848 – “tudo o que era sólido desmancha no ar, tudo que era sagrado é profanado ...” - está valendo tudo para se ganhar dinheiro, mesmo destruindo milhares de inocentes no Iraque, mesmo pinotando pelada em frente às câmeras de TV, mesmo esterilizando os próprios ideais do passado para não prejudicar os resultados eleitorais de 2010, próximo ano eleitoral.
Embora não-marxista nem estatizante, defendo um Estado Nacional soberano, onde determinadas funções constitucionais deveriam ser por ele executadas, entre elas Educação, Saúde e Segurança Pública, todas solidamente consubstanciadoras de uma Cidadania que não diferenciasse sobrenomes, escolaridades, religiões, gêneros, etnias, preferências sexuais e áreas geográficas. Uma Cidadania que libertasse sem libertinagens, que democratizasse sem xenofobismos, que se solidarizasse com os menos favorecidos sem torná-los dependentes, educando-os sem as bobajadas do pegajoso tratamento de “tio” e “tia”, como bem denunciou Paulo Freire, em Professor, Sim, Tia, Não!
Seria interessante, sugestão apenas, que alguns eventos sociais dedicassem uma das suas sessões ao tema Construção da Cidadania Brasileira, tendo como ponto referencial o conto O Nascimento do Cidadão, de Moacyr Scliar, incluído na História da Cidadania, uma coletânea da Editora Contexto, integralmente elaborada por especialistas brasileiros.
A cidadanidade é um processo contínuo e nunca intermitente. Que teve princípios mas jamais terá fim. Um amálgama composto de História, Filosofia, Sociologia, Política, Ética, Comunicação e Direito, com uma baita pitada de solidariedade para com os menos favorecidos, cujo destino será o destino de todos nós. Se quisermos chegar, em nossa travessia terrestre, a um algum porto menos inseguro.

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