quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ensino na Encruzilhada

Outro dia vi uma manchete num jornal de grande circulação nacional: Até teólogo e bibliotecário dão aulas de física. Trazia um subtítulo: Levantamento mostra descompasso entre a formação do professor e o que ele tem de ensinar, em todas as disciplinas. Segundo aquele periódico, 27% dos docentes do país de 1ª. a 4ª. série não possuem habilitação mínima exigida. E mais: 15.982 é o total de professores, dos 1,8 milhão, que só estudaram até o nível fundamental e que, portanto, não possuem condições adequadas para estruturação do saber infantil, mormente em tempos de velozes mutabilidades sociais, que deixam atordoados até os mais qualificados para a função magisterial.
Uma pergunta se instala entre os que acompanham o desempenho da educação brasileira depois da nossa constituição última, apelidada de cidadã: por que as pesquisas comparativas mostram que alunos igualmente pobres se saem melhor em colégios particulares do que em unidades públicas?
Muito embora a renda familiar não seja fator único a influenciar os resultados escolares (localização geográfica, escolaridade dos pais, entre outros, também são levados em conta), as escolas particulares se saem melhores que as públicas, para as mesmas faixas de renda familiar. Por que o denominado “efeito escola” (desempenho da unidade) é maior entre as unidades de ensino particular do que as públicas? Pesquisa feita pela economista Ana Maria Franco com base no SAEB (exame do MEC que avalia a educação básica) mostra que o “efeito escola” é de 24% a 33% nas unidades de ensino privado, enquanto na rede pública tal efeito varia entre 21% a 27%.
A explicação é dada pelo pesquisador Naércio Menezes Filho, autor de recente estudo sobre desempenho escolar: “Na particular, um professor pode ser demitido se faltar demais e outro pode ser promovido quando se destacar”.
O depoimento de um operador de máquina, em São Paulo, que leva a filha de 8 anos diariamente e de bicicleta para uma escola particular de pequeno porte, revela que embora a escola não seja das melhores, sua filha seguramente terá um desempenho melhor do que se estivesse frequentando uma unidade pública estadual. E completa: “Tenho sobrinhos que estudam em escola pública e a gente ouve muitas histórias de professores agredidos, vê na TV casos de morte dentro da sala de aula. Na escola particular estão seguros e têm um estudo melhor”.
Em livro da editora Contraponto intitulado A Economia Política do Governo Lula, os seus dois autores, economistas Luiz Filgueiras e Reinaldo Gonçalves, manifestam-se profundamente preocupados com a formação das futuras gerações brasileiras, considerando da maior relevância as avaliações feitas sobre as evoluções acontecidas nos últimos anos. Dizem eles: “a questão da escolarização é fundamental para o desenvolvimento social, político e econômico”. E denunciam, com base nos levantamentos feitos pelo IBGE/PNAD: “em 2004-2005, aumentou a proporção de jovens entre 15 e 17 anos fora da escola, comparativamente a 2003”.
A consequência dos dados acima é compreensível por qualquer pessoa sã: “Considerando as mortes de jovens por armas de fogo, o Brasil tem o mais elevado índice em um painel de 65 países”. Índices elevados também gerados pelas taxas de desemprego entre os jovens de 10 a 17 anos: de 11,5% em 1995 para 21,5% em 2005. E pelo aumento do consumo de tabaco, bebidas alcoólicas, maconha, solventes e cocaína. Somente entre os jovens de 12 a 17 anos, a proporção de jovens que consomem bebidas alcoólicas aumentou de 48,3% (2001) para 54,3% (2005).
Entre as conclusões apresentadas pelos economistas Filgueiras e Gonçalves, duas estão refletidas nos indicadores acima. A primeira diz respeito à distribuição de renda: o governo Lula não apresenta desempenho superior ao governo FHC. A segunda: a oposição não consegue constituir alternativas políticas relevantes.
Consequência muito temerária: uma cultura de fingimento exteriorizada por gregos e troianos e a bandidagem correndo solta até no Congresso Nacional.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com, Blog BATE & REBATE)

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