Na revista Piauí, maio 2009, num ensaio do crítico de artes Bruno Moreschi – Abre alas que lá vem bolo-de-rolo -, a personalidade empreendedora de um pernambucano se encaixa no subtítulo do trabalho: Como o marchand Marcantonio Vilaça conseguiu elevar as cifras da arte brasileira contemporânea.
O texto é para ser lido devagar, tomando ciência da caminhada de um pernambucano nascido num agosto de 1962, filho de casal muito amado – Marcos Vinicios e Maria do Carmo -, do primeiro partindo a iniciativa de matricular o então pimpolho com a idade de dois anos na Escolinha de Arte do Recife, da família de Abelardo Rodrigues. “um dos maiores colecionadores de arte sacra do país”. Uma escola de muita credibilidade que fazia emergir as potencialidades artísticas da garotada da região. Se a memória não me trai, uma escolinha situada na rua do Cupim, nas Graças, bem pertinho do Palácio do Bispo e parede e meia com a casa de uma tia, a tia Lúcia, esposa de Nelson Quintas, um notável ambidestro, o único por mim conhecido até hoje.
E como entra o bolo-de-rodo na caminhada empreendedora do Marcantonio? Tudo aconteceu, segundo Bruno Marchesi, numa tarde quente de agosto de 1998, num vôo internacional. Tão logo instalado em uma das poltronas, leitura ainda focada nas manchetes da primeira página do New York Times, Marcantonio sentiu uma cutucada no ombro esquerdo, seguida da frase “this is my seat, sir!” (este é meu lugar, senhor!). Frase dita por uma mulher de mãos na cintura, sem um pingo de paciência, cabelos pretos e bochechas rosadas. Percebido o erro de assento, Marcantonio, fidalguia em pessoa, desculpou-se, indo para seu lugar, recebendo de troco “um suspiro de aborrecimento”.
Resolvida a questão, apreendida a imagem da mulher, passou Marcantonio a cascavilhar sua memória, fazendo fé na hipótese de que aquela madame não lhe era estranha. Poucos segundos depois, eis que o computador mental do Marcantonio fornece a identificação daquela senhora de ar abusado e sotaque nova-iorquino carregado: Barbara Gladstone, proprietária de uma galeria de arte que levava seu nome. Uma galeria de arte conhecida mundialmente.
Mais rápido que o vapt de vapt-vupt, Marcantonio percebeu que ali estava uma excepcional chance de se apresentar. Retirando da maleta de mão três volumes, dirigiu-se à madame Gladstone, se identificando como marchand brasileiro, pedindo licença para mostrar seus brindes. Antes que a senhora abrisse a boca para um não, o Marcantonio já lhe fazia entrega de um CD de Maria Bethânia, Pássaro Proibido, identicando-a como “a maior cantora do Brasil”.
Sem esperar reação da madame, ele lhe deu o segundo presente, “um embrulhinho cilíndrico de papel-alumínio”. Ao abri-lo, a senhora foi contemplada com um cheiro sedutor de goiaba. “It’s bolo-de-rolo”, esclareceu logo Marcantonio, sorrindo orgulhoso da sua pernambucanidade, posto que aquele bolo não era um bolo qualquer. Tratava-se de um bolo-de-rolo feito pela sua mãe, Maria do Carmo, para ele enviado com muito amor e carinho.
Usando as pontas dos dedos, a senhora Gladstone provou um naco razoável do bolo-de-rolo. E sentenciou: “God! This is marvelous” (Deus! Isto é maravilhoso!). Sentindo firmeza na sua escalada relacional, Marcantonio apresentou trabalho de uma artista brasileira, soletrando pausadamente seu nome: Be-a-triz Mi-lha-zes. Que recebeu para o seu trabalho uma adjetivação que deixou Marcantonio sem ânimo: Bullshit (Conversa fiada).
Talento não desanima, é impulsionado pelas pedras do caminho. Lá da eternidade, de braços cruzados como gostava de se posicionar por aqui por baixo, Marcantonio viu, maio de 2008, a tela O Mágico, de Beatriz Milhazes, ser arrematada por 1.049 milhão de dólares, em Nova York. Uma vitória espetacular da artista e do “farejador” da artista. Faro premonitório do Marcantonio era próprio dos talentosos que nem ele. Mesmo que não sendo acreditado, num primeiro instante, por quem achou maravilhoso, num vôo internacional, o bolo-de-rolo da Maria do Carmo, sua mãe.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)
O texto é para ser lido devagar, tomando ciência da caminhada de um pernambucano nascido num agosto de 1962, filho de casal muito amado – Marcos Vinicios e Maria do Carmo -, do primeiro partindo a iniciativa de matricular o então pimpolho com a idade de dois anos na Escolinha de Arte do Recife, da família de Abelardo Rodrigues. “um dos maiores colecionadores de arte sacra do país”. Uma escola de muita credibilidade que fazia emergir as potencialidades artísticas da garotada da região. Se a memória não me trai, uma escolinha situada na rua do Cupim, nas Graças, bem pertinho do Palácio do Bispo e parede e meia com a casa de uma tia, a tia Lúcia, esposa de Nelson Quintas, um notável ambidestro, o único por mim conhecido até hoje.
E como entra o bolo-de-rodo na caminhada empreendedora do Marcantonio? Tudo aconteceu, segundo Bruno Marchesi, numa tarde quente de agosto de 1998, num vôo internacional. Tão logo instalado em uma das poltronas, leitura ainda focada nas manchetes da primeira página do New York Times, Marcantonio sentiu uma cutucada no ombro esquerdo, seguida da frase “this is my seat, sir!” (este é meu lugar, senhor!). Frase dita por uma mulher de mãos na cintura, sem um pingo de paciência, cabelos pretos e bochechas rosadas. Percebido o erro de assento, Marcantonio, fidalguia em pessoa, desculpou-se, indo para seu lugar, recebendo de troco “um suspiro de aborrecimento”.
Resolvida a questão, apreendida a imagem da mulher, passou Marcantonio a cascavilhar sua memória, fazendo fé na hipótese de que aquela madame não lhe era estranha. Poucos segundos depois, eis que o computador mental do Marcantonio fornece a identificação daquela senhora de ar abusado e sotaque nova-iorquino carregado: Barbara Gladstone, proprietária de uma galeria de arte que levava seu nome. Uma galeria de arte conhecida mundialmente.
Mais rápido que o vapt de vapt-vupt, Marcantonio percebeu que ali estava uma excepcional chance de se apresentar. Retirando da maleta de mão três volumes, dirigiu-se à madame Gladstone, se identificando como marchand brasileiro, pedindo licença para mostrar seus brindes. Antes que a senhora abrisse a boca para um não, o Marcantonio já lhe fazia entrega de um CD de Maria Bethânia, Pássaro Proibido, identicando-a como “a maior cantora do Brasil”.
Sem esperar reação da madame, ele lhe deu o segundo presente, “um embrulhinho cilíndrico de papel-alumínio”. Ao abri-lo, a senhora foi contemplada com um cheiro sedutor de goiaba. “It’s bolo-de-rolo”, esclareceu logo Marcantonio, sorrindo orgulhoso da sua pernambucanidade, posto que aquele bolo não era um bolo qualquer. Tratava-se de um bolo-de-rolo feito pela sua mãe, Maria do Carmo, para ele enviado com muito amor e carinho.
Usando as pontas dos dedos, a senhora Gladstone provou um naco razoável do bolo-de-rolo. E sentenciou: “God! This is marvelous” (Deus! Isto é maravilhoso!). Sentindo firmeza na sua escalada relacional, Marcantonio apresentou trabalho de uma artista brasileira, soletrando pausadamente seu nome: Be-a-triz Mi-lha-zes. Que recebeu para o seu trabalho uma adjetivação que deixou Marcantonio sem ânimo: Bullshit (Conversa fiada).
Talento não desanima, é impulsionado pelas pedras do caminho. Lá da eternidade, de braços cruzados como gostava de se posicionar por aqui por baixo, Marcantonio viu, maio de 2008, a tela O Mágico, de Beatriz Milhazes, ser arrematada por 1.049 milhão de dólares, em Nova York. Uma vitória espetacular da artista e do “farejador” da artista. Faro premonitório do Marcantonio era próprio dos talentosos que nem ele. Mesmo que não sendo acreditado, num primeiro instante, por quem achou maravilhoso, num vôo internacional, o bolo-de-rolo da Maria do Carmo, sua mãe.
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

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