segunda-feira, 4 de maio de 2009

Educação para a Cidadania

Aplaudi duas declarações do professor Mozart Neves Ramos, ex-reitor da UFPE e dinâmico ex-secretário de Educação de Pernambuco, prestadas recentemente ao Guia da Educação, parte integrante de uma revista semanal.
Com a responsabilidade de ser o executivo principal da ONG Todos pela Educação, ele afirmou: “A Educação é o único elemento vetor que consegue alinhar desenvolvimento social com desenvolvimento econômico. Os países que hoje atuam como protagonistas são aqueles que apostaram fortemente em Educação, como a Coréia e a China”. E disse mais: “A verdadeira independência só vai existir quando todos os brasileiros estiverem na escola”.
As declarações do Mozart Neves estão a exigir uma ação mais que reativa dos nossos dirigentes públicos. Apesar do presidente Inácio da Silva ter alardeado ser o mandatário que mais investiu em educação, estudos recentes não confirmam sua bravata. O INEP, instituto de pesquisas vinculado ao Ministério da Educação, lançou recentemente uma análise dos gastos em educação nas três esferas de governo – União, Estados e Municípios – entre 2000 e 2006. Segundo os dados apurados pela pesquisa, os gastos anuais com Educação no período analisado representaram apenas 0,7% do PIB, com exceção do ano de 2004, quando o percentual ficou em 0,6%. Na série histórica, o maior percentual aconteceu em 2001 – 0,8% - ainda no governo FHC.
A professora Maria Beatriz Moreira Luce oferece uma razão: “A explicação talvez seja que a prioridade à educação não foi proporcional ao crescimento da economia”. Se tal explicação for verdadeira, ela está indo no sentido oposto ao pensar do professor Mozart Neves Ramos, este com uma reflexão absolutamente correta.
Se alguém me perguntasse sobre a diferença existente entre um político brasileiro e um norteamericano, excluídas as bandalheiras que os mafiosos cometem, eu apontaria nos segundos uma atenção mais acentuada por análises e pesquisas. Dou um exemplo que se tornou conhecido. Em 2005, a jornalista Samanta Power, professora em Harvard recebeu um telefonema do então senador Barack Obama, convidando-a para ser sua assessora de política internacional no seu gabinete. Ele tinha lido o livro Genocídio: a retórica americana em questão, texto que a fez ganhadora do prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo político americano. Ela aceitou o convite, trabalhando como assessora do Obama por três anos, não sendo surpresa alguma se for convidada para outras missões.
Lamentavelmente, nossos parlamentares, cada vez mais fisiológicos em suas proposições e articulações, com as exceções que minguam a olhos vistos, ainda não perceberam a gravidade do momento financeiro internacional. Talvez acreditando na análise besteirológica cometida pelo nosso presidente, que disse que a “crise era assunto do Bush”, como se ele, tal e qual um ET, estivesse a salvo do charco global.
O sociólogo americano James Petras diz que “estamos entrando no olho do furacão, 2009 vai ser um dos piores anos desde 1929”. E um outro sociólogo, o alemão Ulrich Beck, opina: “O que há poucos anos teria sido impensável revela-se agora como uma possibilidade real: a férrea lei da globalização do livre mercado ameaça descompor-se e colapsar a ideologia correspondente”.
A confiança não será restaurada, tampouco ampliada, com arrotagens dos que nunca souberam de nada. E a educação fundamental deverá ser urgente e seriamente ampliada por nossa sociedade civil, favorecendo uma cidadania que consolide a soberania da nossa gente, para não deixar esvair os nossos ainda tênues eflúvios democráticos, dando vez a emersão de regimes ditatoriais de múltiplas brutalidades.
Saibamos bem aprontar planilhas alavancadoras. Mesmo que perdendo alguns dedos, mas preservando a capacidade de pensar e a coragem de saber construir, remetendo o país para patamares civilizatórios mais consolidados.
Publicado no Jornal do Commercio, Recife-PE, 29.04.2009)

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