Numa livraria internética paulista, um título lançado em 2008 pela Paulinas rememorou militâncias de vida, JEC e JUC, CJP, botinadas e torturas, anseios libertários por um mundo menos asfixiante: Bartolomeu de Las Casas – Espiritualidade Contemplativa e Militante. E o seu autor, Frei Carlos Josaphat, dominicano, teólogo, jornalista, escritor e professor emérito da Universidade de Friburgo, Suíça, uma personalidade conhecida pelas destemidas posições assumidas no campo social na década de 60, tendo sido “convidado” a abandonar o país após o golpe militar de 1964. Uma expulsão que redundou num Doutorado em Teologia em Paris, com uma tese sobre Ética da Comunicação Social. Retornando ao Brasil, “tem-se empenhado, especialmente, no confronto do cristianismo com a civilização técnico-científica e nos problemas de justiça social”.
Será que os cristãos de hoje, olhinhos revirados e bracinhos levantados, sabem quem foi o espanhol Bartolomé de Las Casas (1474-1566), tornado Bartolomeu em língua nossa, bispo de Chiapas (México) aos 70 anos de idade e um defensor intransigente dos índios, considerado o primeiro sacerdote ordenado na América? Perceberiam eles, os que fizeram cursilhos, baratilhos e outros tantos “ilhos”, como conjugar uma espiritualidade contemplativa com uma militância libertadora a favor dos menos favorecidos? Principalmente na conjuntura planetária atual, onde trilhões de dólares são destinados para salvar os que mais se locupletaram dos menos favorecidos, onde até se constatou, dias passados, que um dos executivos das instituições falidas por ganância tresloucada de levar vantagem em tudo usufruía um ordenado de apenas dezessete mil dólares por hora? Saberiam eles que a luta de Las Casas a favor dos índios não era bem vista pelos engomadinhos purpurados de então, dada sua indignação contra as destruições e devastações que ocasionavam misérias patrocinadas inclusive pelos devotos?
O livro do frei Carlos Josaphat tem um oferecimento pra lá de evangelizador. Intitulado Dedicatória Crespucular, ele está vazado nos seguintes termos: “Aos meus irmãos dominicanos que, na aurora deste milênio fizeram de frei Bartolomeu de las Casas o estandarte de seus sonhos e de suas lutas e escolheram por divisa: ‘A Verdade Libertará’. A todos os companheiros e companheiras que apostam da utopia urgente de uma ética mundial e militam por uma nova ordem bem globalizada, em que se promovam e defendam todos os direitos para todos e para todas, neste entardecer da vida, de leve clareado pela esperança do amanhecer de um Novo Céu e de uma Nova Terra, livres e limpos da ruindade e dos entulhos dos imperialismos sem alma. A vocês dedico este livro sobre Las Casas, o apaixonado pelo direito e pela liberdade, o Doutor, o Santo Padre, o verdadeiro descobridor da América”.
A coragem de Las Casas deverá balizar a caminhada dos cristãos libertos de todos os “ismos”. Duas reflexões apenas - “a melhor qualidade de um governo consiste em ter sido constituído para o bem comum dos súditos e não para utilidade e glória do governante” e “o governante não pode fazer doações sem o consentimento livre dos seus súditos, nem sequer à Igreja ou a lugares de piedade” – bem revelam a antipatia que poderosos, inclusive eclesiásticos, sentiam pelo bispo de Chiapas.
Numa época onde se estuda o reconhecimento de uma Educação Indígena para o Estado de Pernambuco, o livro de Las Casas poderá fornecer sabedorias múltiplas, mesmo para aqueles que estão distanciados de qualquer religiosidade. E frei Carlos Josaphat, em seu livro sobre Bartolomeu de Las Casas, em muito pode subsidiar a luta daqueles que desejam povos e nações indígenas colaboradores na estruturação de uma nova sociedade, mais sedimentada nos Direitos Humanos. Que devem ser entendidos como acesso de todos aos instrumentos de uma libertação verdadeiramente integral e integralizadora.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 04.03.2009)
Será que os cristãos de hoje, olhinhos revirados e bracinhos levantados, sabem quem foi o espanhol Bartolomé de Las Casas (1474-1566), tornado Bartolomeu em língua nossa, bispo de Chiapas (México) aos 70 anos de idade e um defensor intransigente dos índios, considerado o primeiro sacerdote ordenado na América? Perceberiam eles, os que fizeram cursilhos, baratilhos e outros tantos “ilhos”, como conjugar uma espiritualidade contemplativa com uma militância libertadora a favor dos menos favorecidos? Principalmente na conjuntura planetária atual, onde trilhões de dólares são destinados para salvar os que mais se locupletaram dos menos favorecidos, onde até se constatou, dias passados, que um dos executivos das instituições falidas por ganância tresloucada de levar vantagem em tudo usufruía um ordenado de apenas dezessete mil dólares por hora? Saberiam eles que a luta de Las Casas a favor dos índios não era bem vista pelos engomadinhos purpurados de então, dada sua indignação contra as destruições e devastações que ocasionavam misérias patrocinadas inclusive pelos devotos?
O livro do frei Carlos Josaphat tem um oferecimento pra lá de evangelizador. Intitulado Dedicatória Crespucular, ele está vazado nos seguintes termos: “Aos meus irmãos dominicanos que, na aurora deste milênio fizeram de frei Bartolomeu de las Casas o estandarte de seus sonhos e de suas lutas e escolheram por divisa: ‘A Verdade Libertará’. A todos os companheiros e companheiras que apostam da utopia urgente de uma ética mundial e militam por uma nova ordem bem globalizada, em que se promovam e defendam todos os direitos para todos e para todas, neste entardecer da vida, de leve clareado pela esperança do amanhecer de um Novo Céu e de uma Nova Terra, livres e limpos da ruindade e dos entulhos dos imperialismos sem alma. A vocês dedico este livro sobre Las Casas, o apaixonado pelo direito e pela liberdade, o Doutor, o Santo Padre, o verdadeiro descobridor da América”.
A coragem de Las Casas deverá balizar a caminhada dos cristãos libertos de todos os “ismos”. Duas reflexões apenas - “a melhor qualidade de um governo consiste em ter sido constituído para o bem comum dos súditos e não para utilidade e glória do governante” e “o governante não pode fazer doações sem o consentimento livre dos seus súditos, nem sequer à Igreja ou a lugares de piedade” – bem revelam a antipatia que poderosos, inclusive eclesiásticos, sentiam pelo bispo de Chiapas.
Numa época onde se estuda o reconhecimento de uma Educação Indígena para o Estado de Pernambuco, o livro de Las Casas poderá fornecer sabedorias múltiplas, mesmo para aqueles que estão distanciados de qualquer religiosidade. E frei Carlos Josaphat, em seu livro sobre Bartolomeu de Las Casas, em muito pode subsidiar a luta daqueles que desejam povos e nações indígenas colaboradores na estruturação de uma nova sociedade, mais sedimentada nos Direitos Humanos. Que devem ser entendidos como acesso de todos aos instrumentos de uma libertação verdadeiramente integral e integralizadora.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 04.03.2009)

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