terça-feira, 17 de março de 2009

A Propósito de Bestas

Recebo telefonema da querida jornalista Rosália Lima, sempre atuando Brasil de norte a sul com todo gás intelectivo que é merecedor de aplausos múltiplos, inclusive os do João Silvino da Conceição e os meus, seu admirador de carteirinha.
Indagando sobre as novidades episcopais do Recife, ressaltei-lhe as historietas religiosas contadas por Rubem Alves em seu livro recente O Sapo Que Queria Ser Príncipe, Editora Planeta 2009. Ressaltando que algumas pareciam até ter acontecido no Recife de nossos dias, apreensões e decepções múltiplas nos mais diversos escaninhos denominacionais. Aguçada, a Rosália Lima não se fez de rogada, pedindo-me para sintetizar uma historinha de Rubem que se encaixava nos terrenos maurícios. E lhe narrei o seguinte fato do Rubem Alves, vivido quando dos seus tempos de pastor em municípios das Minas Gerais. Repasso para os leitores deste site da ALGOMAIS:
Lá pelas bandas territoriais que estavam sob a responsabilidade do então pastor Rubem Alves, hoje um dos mais notáveis intelectuais brasileiros, um presbítero chamado Malaquias acreditava piamente que a Bíblia tinha sido ditada por Deus, palavra por palavra, posto que Ele sabia hebraico como ninguém. E que tudo que nela estava narrado tinha acontecido de mesmo, na forma a mais literal possível, sem tirar nem uma virgulinha só, por mais desnecessária que fosse. O Malaquias vivia nos calcanhares do Rubem Alves porque o classificava como “pastor diferente”, desses que não falavam muito em inferno e fogo nos traseiros dos merecedores das abrasadas ferroadas do garfo tridentado do Capetão. Rubem Alves, novinho à época, tomava sua caipirinha e jogava seu baralho (buraco) de janelas fechadas, com receio de uma brechada do presbítero Malaquias, aquele que não bebia, não dançava, não fumava, não assobiava nem tinha filhos. Segundo Malaquias, fumar, jogar baralho e tomar uma branquinha era ofensa pra ninguém botar defeito. Certa feita, o próprio Malaquias enviou uma queixa às “otoridades” da denominação, dedurando o Rubem Alves por ele ter tirado uma fotografia de um grupo de fiéis com um deles portando um cigarro acesso numa das mãos!!!
Visto a personalidade fundamentalista do Malaquias, eis que um dia, numa das aulas noturnas ministradas para trinta adultos, o Malaquias, que não perdia uma, desejando flagrar o Rubem Alves numa “heresia”, perguntou-lhe de sopetão, tão logo iniciada a preleção: - Reverendo, o senhor é um modernista?. Indagado sobre a razão do questionamento, retrucou com uma acusação: - O senhor não acredita em milagres ... Por exemplo, o senhor não acredita que a besta de Balaão falou...
Assegurando sob inspiração do Espírito Santo, a resposta de Rubem Alves deixou o Malaquias com o “catabiu” meio afolozado: - Senhor Malaquias. De todos, esse é o milagre mais comum. Porque até hoje há muitas bestas que falam...
Do outro lado da linha, a Rosália, inteligência transpirando por todos os poros, quase de urina de tanto rir: - É mesmo, Fernando, a gente poderia até enumerar as bestas pululantes em nosso meio recifense, que botaram a boca no trombone, imaginando-se em 1483, travestidas de Tomás de Torquemada, aquele inquisidor espanhol que celebrizou-se pela intolerância e rigor. E que só se permitia urinar através de uma pequena colher de metal que facilitava a sustentabilidade, na micção, do seu “engenho”.
A idiotia religiosa é virótica. E recordei ainda para Rosália a história daquela jovem senhora que fez cursilho feminino, foi recebida com salgadinhos e guaranás por familiares e amigos. Na hora de recolher-se, o marido abraçou-a, tocando-lhe o bico de um dos seios. Levou safanão com advertência: - Vá pra lá, Santanás!!!
O coitado passou algumas semanas com o seu “engenho” de licença sem vencimentos, quase tornado ateu ... Necessária uma conversa séria com um religioso de reconhecida idoneidade, para que tudo voltasse aos conformes, de dia e de noite, marido, mulher e bilau...
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

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