Reli, às vésperas do carnaval, o pensador Allan Bloom, um dos mais comentados ensaistas norteamericanos, autor do muito debatido O Declínio da Cultura Ocidental, 1987, um best-seller que já vendeu mais de um milhão de exemplares até meses atrás. Seus ensaios sobre professores, livros e educação, escritos entre 1960 e 1990, ele os concentrou num outro instigante texto intitulado Gigantes e Anões. Algumas partes de releitura acontecida.
Segundo Bloom, "a essência da educação é a experiência da grandeza". Ele ressalta a perfeição da fórmula de Pascal - sabemos muito pouco para sermos dogmático e muito para sermos cético -, defendendo a vida téorica dos assaltos próprios de um século XXI que ainda não sabe valorizar como deveria a Filosofia, asfixiando as estratégias binoculizadoras, favorecendo táticas imediatistas, às vezes também fisiológicas, eleitoreiras até, nunca políticas, todas oportunistas, algumas desabridas. Públicas e empresariais.
Em seus escritos, o Bloom parece "estar enxergando" o atual quadro brasileiro: "A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder". A saída por ele oferecida deveria merecer uma respeitosa atenção: a descoberta das nossas próprias idéias.
Do livro se depreende lições sobre a atual ambiência nacional, às vésperas de acontecimentos pouco agradáveis, seqüelas de uma crise nunca marolinhática. Que pode induzir raivosos e impacientes clamores comunitários. A favorecer os autoritários de sempre, reacionários de plantão.
Algumas recomendações de Bloom merecem registro. São balizamentos que se contrapõem aos marasmos e às inércias de um todo que deseja ampliar, na mente dos mais responsáveis, a soberania pátria. Recomendações que poderiam sintetizar-se em dez mandamentos de um desenvolvimento econômico irmão siamês de um igualmente dinâmico desenvolvimento social. Ei-los:
1. Participamos de um único rincão, cada alma sendo reflexo desse mesmo rincão, nele também estando refletidas esperanças, conquistas e lições históricas;
2. Os acidentes da vida obrigam os seres humanos a adotar costumes que os levam a esquecer a parte total e imortal deles próprios, desconstruindo memórias e encaminhamentos;
3. Quem diz "eu prometo", sem ter base para cumprir a promessa, é um enganador;
4. Se aprendemos o que significa viver com livros, somos forçados a torná-los parte de nossa experiência e de nossa vida profissional e familiar;
5. Política significa o governo de seres humanos e isso só pode ser feito em posição de poder legítimo;
6. Se a democracia não pode tolerar a presença dos mais altos padrões de aprendizagem, então a própria democracia se tornará substantivamente questionável;
7. Cultura não deve ser usada para superar as preocupações instintivas com o país, colocando em seu lugar uma lealdade falsa e alimentando uma perigosa ausência de sensibilidade para com a política real;
8. Quem só possuir visão estritamente "econômica" não poderá, de forma consistente, acreditar na dignidade do ser humano ou no status especial da arte e da ciência;
9. Quando a luz inspiradoras dos grandes textos estiver para sempre obscurecida pelas chamas ardentes da interpretação fundamentalista, todas as janelas para o mundo estarão irremediavelmente fechadas;
10. Todos os talentos não passam de recursos disponíveis para a felicidade de todos, o individualismo sendo crime de lesa-humanidade.
Desenvolver uma cultura da cidadania urge depressa. Para erradicar os que apenas fingem ser, sem lastro cívico nem decência, somente aplaudidos em platéias de abobados.
Alexis de Tocqueville, magistrado francês que escreveu A Democracia na América, de primeiro volume publicado em 1835, já dizia que a noção de cidadania requer um mínimo de igualdade social. Que a partir de 2009, sejamos mais solidários e associativos. Mais criativos, jamais miméticos. Universais, ainda que brasileiros acima de tudo.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com, Coluna BATE & REBATE)
Segundo Bloom, "a essência da educação é a experiência da grandeza". Ele ressalta a perfeição da fórmula de Pascal - sabemos muito pouco para sermos dogmático e muito para sermos cético -, defendendo a vida téorica dos assaltos próprios de um século XXI que ainda não sabe valorizar como deveria a Filosofia, asfixiando as estratégias binoculizadoras, favorecendo táticas imediatistas, às vezes também fisiológicas, eleitoreiras até, nunca políticas, todas oportunistas, algumas desabridas. Públicas e empresariais.
Em seus escritos, o Bloom parece "estar enxergando" o atual quadro brasileiro: "A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder". A saída por ele oferecida deveria merecer uma respeitosa atenção: a descoberta das nossas próprias idéias.
Do livro se depreende lições sobre a atual ambiência nacional, às vésperas de acontecimentos pouco agradáveis, seqüelas de uma crise nunca marolinhática. Que pode induzir raivosos e impacientes clamores comunitários. A favorecer os autoritários de sempre, reacionários de plantão.
Algumas recomendações de Bloom merecem registro. São balizamentos que se contrapõem aos marasmos e às inércias de um todo que deseja ampliar, na mente dos mais responsáveis, a soberania pátria. Recomendações que poderiam sintetizar-se em dez mandamentos de um desenvolvimento econômico irmão siamês de um igualmente dinâmico desenvolvimento social. Ei-los:
1. Participamos de um único rincão, cada alma sendo reflexo desse mesmo rincão, nele também estando refletidas esperanças, conquistas e lições históricas;
2. Os acidentes da vida obrigam os seres humanos a adotar costumes que os levam a esquecer a parte total e imortal deles próprios, desconstruindo memórias e encaminhamentos;
3. Quem diz "eu prometo", sem ter base para cumprir a promessa, é um enganador;
4. Se aprendemos o que significa viver com livros, somos forçados a torná-los parte de nossa experiência e de nossa vida profissional e familiar;
5. Política significa o governo de seres humanos e isso só pode ser feito em posição de poder legítimo;
6. Se a democracia não pode tolerar a presença dos mais altos padrões de aprendizagem, então a própria democracia se tornará substantivamente questionável;
7. Cultura não deve ser usada para superar as preocupações instintivas com o país, colocando em seu lugar uma lealdade falsa e alimentando uma perigosa ausência de sensibilidade para com a política real;
8. Quem só possuir visão estritamente "econômica" não poderá, de forma consistente, acreditar na dignidade do ser humano ou no status especial da arte e da ciência;
9. Quando a luz inspiradoras dos grandes textos estiver para sempre obscurecida pelas chamas ardentes da interpretação fundamentalista, todas as janelas para o mundo estarão irremediavelmente fechadas;
10. Todos os talentos não passam de recursos disponíveis para a felicidade de todos, o individualismo sendo crime de lesa-humanidade.
Desenvolver uma cultura da cidadania urge depressa. Para erradicar os que apenas fingem ser, sem lastro cívico nem decência, somente aplaudidos em platéias de abobados.
Alexis de Tocqueville, magistrado francês que escreveu A Democracia na América, de primeiro volume publicado em 1835, já dizia que a noção de cidadania requer um mínimo de igualdade social. Que a partir de 2009, sejamos mais solidários e associativos. Mais criativos, jamais miméticos. Universais, ainda que brasileiros acima de tudo.
(Publicada hoje no Portal da Globo Nordeste / Colunistas, http://pe360graus.globo.com, Coluna BATE & REBATE)

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