É lamentável que o presidente Inácio da Silva, com sua excelente intuição política, sinta azia quando principia a ler um livro, conforme declarou outro dia à revista Piauí, onde também asseverou que “leio menos que deveria”. Se a patologia orgânica e a deficiência de leituras do presidente inexistissem, interessante seria oferecer-lhe o livro recente do Paul Krugman, Nobel de Economia 2008, também vencedor do Prêmio Medalha Clark, destinado à época ao economista com menos de quarenta anos. Ele mantém bissemanal coluna no New York Times, possuindo um blog chamado The Conscience of a Liberal.
O livro do Krugman, lançamento Elsevier 2009 e intitulado A Crise de 2008 e a Economia da Depressão, carrega um prefácio de André Lara Resende, que dele foi colega no programa de doutorado do Massachussetts Instituto of Technology, um “ambiente intelectualmente estimulante”, com “a sensação de estar num dos centros de formulação da teoria econômica”, segundo o prefaciador.
Polêmico, extremamente crítico da política econômica e externa do ex-presidente George “Nero” Bush, Paul Krugman, por escrever descomplicadamente, é vítima dos olhares raivosos de alguns colegas que acreditam que ele “populariza” demais a teoria econômica, tornando-a palatável aos olhos dos não-iniciados. O que vem a se tornar um tremendo mérito para ele, hoje um dos intelectuais mais convidados do mundo, sendo considerado como o “melhor explicador” da atual crise financeira mundial, a mais grave crise desde a década de 1930, classificada de “marolinha” por alguns farofosos.
Se o presidente Inácio da Silva manuseasse o livro, logo encontraria a recomendação feita pelo Krugman, que foi premiado como Colunista do Ano pela revista Editor and Publisher : “a única maneira de conhecer qualquer sistema complexo, seja o clima mundial, seja a economia global, é trabalhar com modelos – representações simplificadas da realidade que ajudam a compreender seu funcionamento”. Através da leitura de simulações variadas, pode-se estabelecer as melhores alternativas para o equacionamento de um problema, tenha ele a complexidade que tiver.
Mas o presidente deveria tornar-se também atento diante de algumas gigantescas diferenciações. Por exemplo, simplificação não tem nada a ver com simploriedade, a primeira necessária para um enxergamento rápido da problemática, a outra oriunda de posturas mentalmente ananicadas, típicas dos que desejam levar vantagem em todas as conjunturas, esborrachando-se depois dos ilusionismos percebidos pela maioria.
O presidente Inácio necessita ser alertado por analista independente: todos possuem atitudes que precisam ser remodeladas continuadamente, ao longo da existência ou ao longo de um mandato consagrado por milhões de eleitores. Um clima inesperado pode resultar em vendavais inimagináveis para um país. Que precisa apreender a estória da mula de um proprietário rural. Que um dia caiu num poço seco. Imaginando-a perdida, pois era impossível a sua retirada, o agricultor resolveu enterrá-la, jogando pás de areia. Logo logo, aproveitando a acumulação da areia, a mula estava à beira do poço, fazendo um barulho dos diabos. Favorecendo uma notável lição: através de iniciativas aparentemente finalizadoras, ingênuas, imaginando-se a única, pode-se fazer sobreviver até uma mula.
As quatro verdades de toda crise são: decisão errada em hora errada, desastre; decisão errada em hora certa, erro; decisão certa em hora errada, inaceitável; decisão certa na hora certa, sucesso. Intuições com azias podem provocar água no barco. Intuições com puxa-sacos oportunistas, igualmente. Que o presidente Inácio entenda o pensar de João Guimarães Rosa: “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Afinal de contas, intuições bem explicitadas geram excelentes resultados, até eleger uma mulher presidente do Brasil.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 18.03.2009)
O livro do Krugman, lançamento Elsevier 2009 e intitulado A Crise de 2008 e a Economia da Depressão, carrega um prefácio de André Lara Resende, que dele foi colega no programa de doutorado do Massachussetts Instituto of Technology, um “ambiente intelectualmente estimulante”, com “a sensação de estar num dos centros de formulação da teoria econômica”, segundo o prefaciador.
Polêmico, extremamente crítico da política econômica e externa do ex-presidente George “Nero” Bush, Paul Krugman, por escrever descomplicadamente, é vítima dos olhares raivosos de alguns colegas que acreditam que ele “populariza” demais a teoria econômica, tornando-a palatável aos olhos dos não-iniciados. O que vem a se tornar um tremendo mérito para ele, hoje um dos intelectuais mais convidados do mundo, sendo considerado como o “melhor explicador” da atual crise financeira mundial, a mais grave crise desde a década de 1930, classificada de “marolinha” por alguns farofosos.
Se o presidente Inácio da Silva manuseasse o livro, logo encontraria a recomendação feita pelo Krugman, que foi premiado como Colunista do Ano pela revista Editor and Publisher : “a única maneira de conhecer qualquer sistema complexo, seja o clima mundial, seja a economia global, é trabalhar com modelos – representações simplificadas da realidade que ajudam a compreender seu funcionamento”. Através da leitura de simulações variadas, pode-se estabelecer as melhores alternativas para o equacionamento de um problema, tenha ele a complexidade que tiver.
Mas o presidente deveria tornar-se também atento diante de algumas gigantescas diferenciações. Por exemplo, simplificação não tem nada a ver com simploriedade, a primeira necessária para um enxergamento rápido da problemática, a outra oriunda de posturas mentalmente ananicadas, típicas dos que desejam levar vantagem em todas as conjunturas, esborrachando-se depois dos ilusionismos percebidos pela maioria.
O presidente Inácio necessita ser alertado por analista independente: todos possuem atitudes que precisam ser remodeladas continuadamente, ao longo da existência ou ao longo de um mandato consagrado por milhões de eleitores. Um clima inesperado pode resultar em vendavais inimagináveis para um país. Que precisa apreender a estória da mula de um proprietário rural. Que um dia caiu num poço seco. Imaginando-a perdida, pois era impossível a sua retirada, o agricultor resolveu enterrá-la, jogando pás de areia. Logo logo, aproveitando a acumulação da areia, a mula estava à beira do poço, fazendo um barulho dos diabos. Favorecendo uma notável lição: através de iniciativas aparentemente finalizadoras, ingênuas, imaginando-se a única, pode-se fazer sobreviver até uma mula.
As quatro verdades de toda crise são: decisão errada em hora errada, desastre; decisão errada em hora certa, erro; decisão certa em hora errada, inaceitável; decisão certa na hora certa, sucesso. Intuições com azias podem provocar água no barco. Intuições com puxa-sacos oportunistas, igualmente. Que o presidente Inácio entenda o pensar de João Guimarães Rosa: “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Afinal de contas, intuições bem explicitadas geram excelentes resultados, até eleger uma mulher presidente do Brasil.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 18.03.2009)

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