Durante a semana pré-carnavalesca recebi visita de casal sulista. Que veio assistir ao desfile do Galo pós-Enéas, acontecido no sábado de Zé Pereira. E testemunhar a descaracterização que o está vitimando, desrespeitando a memória do seu fundador. Sinal evidente de um carnaval, o recifense, que vem sofrendo de enfermidade conhecida nos meios especializados: acomodatus virus. Ausência de criatividade foliônica, traduzindo em bom português, eis o que está contaminando o tríduo momesco da capital, inclusive as transmissões televisivas. Virus que já deve estar inoculado no Bloco mais famoso do Brasil, titular no Guinness Book, aquele livro dos arretados.
Depois do desfile, saboreando uma feijoada, o amigo comentou: - Quando se deseja só ganhar dinheiro, relegando-se a criatividade, abandona-se a inteligência, repete-se os ontens e os ante-ontens. E ressente-se de uma pensação trabalhada, como a que foi definida pelo poeta Marcos André Carvalho Lins, em seu poema Pensação. Que diz: “Penso que apenas podem ser as coisas enquanto são... / Penso que o derradeiro momento enquanto sentimento é comunhão.../ Penso que disparates enquanto arte nascem dos nossos cérebros mas florescem nas nossas mãos.../ Penso que a vida enquanto reposta não é sim nem tampouco não... / Penso que as coisas são bonitas enquanto partes do universo em constante translação... / Penso que o pensamento enquanto cimento dos sonhos humanos é mudança e transformação.”
Reproduzindo um alerta de Voltaire – Ouse pensar, amigo! – foi ainda comentado o lançamento recente do Dicionário Filosófico, de Voltaire, editora Escala. Uma mini-enciclopédia que “abrange de uma forma ampla tudo que uma ciência da filosofia e uma filosofia da vida e da história, em suas múltiplas manifestações, podem oferecer”.
Voltaire põe à disposição dos desligadões um instrumento capaz de desmistificar tabus e preconceitos, abrindo mentes e corações para o espírito crítico, tornando a reflexão ajustada a uma contemporaneidade sem receio da própria razão.
Recorrendo a um exemplar do vizinho, incorporado ao papo quando o cafezinho estava sendo servido, atentou-se para o vocábulo “entusiasmo” comentado por Voltaire, que foi aluno brilhante do colégio jesuíta de Clermont e “hóspede” da Bastilha por mais de uma vez. O vocábulo faz entender melhor os “porquês” dos declives dos eventos sempre considerados os maiores e os melhores do mundo.
Entusiasmo é palavra de origem grega que significa “emoção das entranhas, agitação interior”. Voltaire enumera alguns sintomas, inclusive perturbação, arrebatamento, demência, furor e raiva, entre outros. Segundo ele, “o entusiasmo é especialmente a herança da devoção mal compreendida”. E prognostica: “pode excitar tanto tumulto nos vasos sanguíneos e tão violentas vibrações nos nervos que a razão fica totalmente destruída”.
Um jornalista inglês, Joseph Addison, em seu “Onze ensaios sobre a imaginação”, já dizia que “o sentido da vista é o único que fornece idéias à imaginação”. Principalmente à imaginação ativa, “aquela que une a reflexão e a combinação à memória”.
O carnaval recifense tem uma boa memória, conservada pelos pesquisadores especializados. Que perceberam de há muito que “uma memória bem nutrida e exercitada é a fonte de toda imaginação”. E que “as pessoas muito ocupadas com cálculos e com negócios espinhosos têm geralmente a imaginação estéril”.
No pós-cafezinho, uma unânime conclusão: o carnaval recifense, com seu Galo à frente, deve ter como nutriente maior não as propagandas bem boladas, mas uma pernambucanidade criativa transmitida com sadio entusiasmo no sistema de ensino de primeiro e segundo graus. Somente ela, condimentada de muito conhecimento histórico poderá alavancar todo o Estado, inclusive a capital e o próprio Carnaval.
PS. De parabéns Olinda pelo seu Carnaval de beleza 10!
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)
Depois do desfile, saboreando uma feijoada, o amigo comentou: - Quando se deseja só ganhar dinheiro, relegando-se a criatividade, abandona-se a inteligência, repete-se os ontens e os ante-ontens. E ressente-se de uma pensação trabalhada, como a que foi definida pelo poeta Marcos André Carvalho Lins, em seu poema Pensação. Que diz: “Penso que apenas podem ser as coisas enquanto são... / Penso que o derradeiro momento enquanto sentimento é comunhão.../ Penso que disparates enquanto arte nascem dos nossos cérebros mas florescem nas nossas mãos.../ Penso que a vida enquanto reposta não é sim nem tampouco não... / Penso que as coisas são bonitas enquanto partes do universo em constante translação... / Penso que o pensamento enquanto cimento dos sonhos humanos é mudança e transformação.”
Reproduzindo um alerta de Voltaire – Ouse pensar, amigo! – foi ainda comentado o lançamento recente do Dicionário Filosófico, de Voltaire, editora Escala. Uma mini-enciclopédia que “abrange de uma forma ampla tudo que uma ciência da filosofia e uma filosofia da vida e da história, em suas múltiplas manifestações, podem oferecer”.
Voltaire põe à disposição dos desligadões um instrumento capaz de desmistificar tabus e preconceitos, abrindo mentes e corações para o espírito crítico, tornando a reflexão ajustada a uma contemporaneidade sem receio da própria razão.
Recorrendo a um exemplar do vizinho, incorporado ao papo quando o cafezinho estava sendo servido, atentou-se para o vocábulo “entusiasmo” comentado por Voltaire, que foi aluno brilhante do colégio jesuíta de Clermont e “hóspede” da Bastilha por mais de uma vez. O vocábulo faz entender melhor os “porquês” dos declives dos eventos sempre considerados os maiores e os melhores do mundo.
Entusiasmo é palavra de origem grega que significa “emoção das entranhas, agitação interior”. Voltaire enumera alguns sintomas, inclusive perturbação, arrebatamento, demência, furor e raiva, entre outros. Segundo ele, “o entusiasmo é especialmente a herança da devoção mal compreendida”. E prognostica: “pode excitar tanto tumulto nos vasos sanguíneos e tão violentas vibrações nos nervos que a razão fica totalmente destruída”.
Um jornalista inglês, Joseph Addison, em seu “Onze ensaios sobre a imaginação”, já dizia que “o sentido da vista é o único que fornece idéias à imaginação”. Principalmente à imaginação ativa, “aquela que une a reflexão e a combinação à memória”.
O carnaval recifense tem uma boa memória, conservada pelos pesquisadores especializados. Que perceberam de há muito que “uma memória bem nutrida e exercitada é a fonte de toda imaginação”. E que “as pessoas muito ocupadas com cálculos e com negócios espinhosos têm geralmente a imaginação estéril”.
No pós-cafezinho, uma unânime conclusão: o carnaval recifense, com seu Galo à frente, deve ter como nutriente maior não as propagandas bem boladas, mas uma pernambucanidade criativa transmitida com sadio entusiasmo no sistema de ensino de primeiro e segundo graus. Somente ela, condimentada de muito conhecimento histórico poderá alavancar todo o Estado, inclusive a capital e o próprio Carnaval.
PS. De parabéns Olinda pelo seu Carnaval de beleza 10!
(Publicada no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

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