Imagino a cara de horror dos puritanosos, aqueles que se utilizam de lenço de papel extra macio para urinar, evitando pegar “naquilo”, se lessem o ensaio da estupenda escritora Hannah Arendt sobre Ângelo Giuseppe Roncalli, o sempre recordado papa João XXIII (1958-1963), empreendedor do Concílio Vaticano II. O texto se encontra em Homens em Tempos Sombrios, Companhia de Bolso, 2008.
Depois do passamento de Pio XII, Angelo Roncalli foi, com grande surpresa para si, eleito papa em 28 de outubro de 1958, na 11ª votação, tomando o nome de João XXIII (Ioannes PP. XXIII, pela grafia latina). Homenageando São João Evangelista, a escolha causou uma enorme surpresa, dado o último pontífice a chamar-se João fora o francês Jacques D'Euse (João XXII), na Idade Média.
O serpentário do Vaticano tinha suscitado o nome de Roncalli, por imaginá-lo modesto, idoso e “bonzinho”, já bem próximo da saída terrestre. E porque não tinham chegado a um acordo. Escolheriam o gorducho Roncalli por ter ele as características de um candidato provisório e transitório, que não perturbaria os dissimulados conservadores entocados na Cúria. Antes disso, eles tinham até conseguido deslocar o arcebispo Giovanni Battista Montini para Milão, fazendo com que Pio XII não lhe concedesse o chapéu cardinalício, impossibilitando sua presença no conclave, tornando-o não elegível, mesmo indo de encontro às leis da igreja que possibilita a qualquer homem batizado e maior de idade ser o escolhido.
No Brasil, se diz com muita freqüência, que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Acredito que foi o que aconteceu com a eleição de Roncalli. E ouso dizer que a eleição de João XXIII foi uma “pegadinha” do Espírito de Deus, que “incutiu” na mente dos notáveis do Colégio dos Cardeais uma total ignorância sobre quem era Roncalli. Uma afirmação posta no Diário do próprio, depois de eleito, é prova substancial da “pegadinha” praticada: “eles dizem e crêem que sou um tolo. Talvez eu seja, mas meu orgulho não me permite pensar assim. Este é o lado engraçado em tudo isso. ... Esqueceram que ser manso e humilde não é a mesma coisa que ser fraco e complacente”.
A simplicidade de Roncalli lhe custou contrariedades, provocadas por tensões entre ele e o vespeiro romano. E tudo começou já em 1925, quando ele foi designado visitador apostólico na Bulgária, uma função classificada de “semi-obscuridade”, lá permanecendo por dez anos. Ele mesmo escreveu, vinte e cinco anos depois, sobre “a monotonia daquela vida, que era uma longa seqüência de alfinetadas e arranhões diários”. Em 1935, foi transferido para Istambul, onde permaneceu por mais dez anos, até ser núncio apostólico em Paris, em 1944, onde ele confessa “a diferença entre meu modo de ver as situações no local e certas formas de julgar as mesmas coisas em Roma fere-me consideravelmente; é a minha única cruz efetiva”.
Com Angelo Roncalli, segundo Hannah Arendt, simplicidade não significava abestalhamento nem ovelhicidade aparvalhada. Certa feita, foi abordado pelo embaixador Franz von Papen, que lhe encareceu uma “mãozinha” em Roma para obter o apoio do papa à Alemanha. Uma resposta exemplar foi dada: “E o que vou dizer sobre os milhões de judeus que seus conterrâneos estão assassinando na Polônia e na Alemanha?”. O fato aconteceu em 1941, quando a fúria assassina dos nazistas ainda tomava suas primeiras iniciativas.
Um outro lado da personalidade do papa João XXIII também é narrado pela consagrada escritora judia: “Haviam chegado encanadores para consertos no Vaticano. O papa ouviu um deles praguejar em nome de toda a Sagrada Família. Ele saiu e perguntou educadamente: - "Você tem de fazer isso? Não pode dizer merda! como nós?".
Todas as histórias acima, segundo Arendt, mostram um João XXIII com “um verdadeiro desapego às coisas do mundo, uma magnífica liberdade de preconceitos,... um senso quase voltaireano”.
Decididamente, João XXIII era um papa não moralista. Sem fricotagem alguma.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Recife, Pernambuco)
Depois do passamento de Pio XII, Angelo Roncalli foi, com grande surpresa para si, eleito papa em 28 de outubro de 1958, na 11ª votação, tomando o nome de João XXIII (Ioannes PP. XXIII, pela grafia latina). Homenageando São João Evangelista, a escolha causou uma enorme surpresa, dado o último pontífice a chamar-se João fora o francês Jacques D'Euse (João XXII), na Idade Média.
O serpentário do Vaticano tinha suscitado o nome de Roncalli, por imaginá-lo modesto, idoso e “bonzinho”, já bem próximo da saída terrestre. E porque não tinham chegado a um acordo. Escolheriam o gorducho Roncalli por ter ele as características de um candidato provisório e transitório, que não perturbaria os dissimulados conservadores entocados na Cúria. Antes disso, eles tinham até conseguido deslocar o arcebispo Giovanni Battista Montini para Milão, fazendo com que Pio XII não lhe concedesse o chapéu cardinalício, impossibilitando sua presença no conclave, tornando-o não elegível, mesmo indo de encontro às leis da igreja que possibilita a qualquer homem batizado e maior de idade ser o escolhido.
No Brasil, se diz com muita freqüência, que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Acredito que foi o que aconteceu com a eleição de Roncalli. E ouso dizer que a eleição de João XXIII foi uma “pegadinha” do Espírito de Deus, que “incutiu” na mente dos notáveis do Colégio dos Cardeais uma total ignorância sobre quem era Roncalli. Uma afirmação posta no Diário do próprio, depois de eleito, é prova substancial da “pegadinha” praticada: “eles dizem e crêem que sou um tolo. Talvez eu seja, mas meu orgulho não me permite pensar assim. Este é o lado engraçado em tudo isso. ... Esqueceram que ser manso e humilde não é a mesma coisa que ser fraco e complacente”.
A simplicidade de Roncalli lhe custou contrariedades, provocadas por tensões entre ele e o vespeiro romano. E tudo começou já em 1925, quando ele foi designado visitador apostólico na Bulgária, uma função classificada de “semi-obscuridade”, lá permanecendo por dez anos. Ele mesmo escreveu, vinte e cinco anos depois, sobre “a monotonia daquela vida, que era uma longa seqüência de alfinetadas e arranhões diários”. Em 1935, foi transferido para Istambul, onde permaneceu por mais dez anos, até ser núncio apostólico em Paris, em 1944, onde ele confessa “a diferença entre meu modo de ver as situações no local e certas formas de julgar as mesmas coisas em Roma fere-me consideravelmente; é a minha única cruz efetiva”.
Com Angelo Roncalli, segundo Hannah Arendt, simplicidade não significava abestalhamento nem ovelhicidade aparvalhada. Certa feita, foi abordado pelo embaixador Franz von Papen, que lhe encareceu uma “mãozinha” em Roma para obter o apoio do papa à Alemanha. Uma resposta exemplar foi dada: “E o que vou dizer sobre os milhões de judeus que seus conterrâneos estão assassinando na Polônia e na Alemanha?”. O fato aconteceu em 1941, quando a fúria assassina dos nazistas ainda tomava suas primeiras iniciativas.
Um outro lado da personalidade do papa João XXIII também é narrado pela consagrada escritora judia: “Haviam chegado encanadores para consertos no Vaticano. O papa ouviu um deles praguejar em nome de toda a Sagrada Família. Ele saiu e perguntou educadamente: - "Você tem de fazer isso? Não pode dizer merda! como nós?".
Todas as histórias acima, segundo Arendt, mostram um João XXIII com “um verdadeiro desapego às coisas do mundo, uma magnífica liberdade de preconceitos,... um senso quase voltaireano”.
Decididamente, João XXIII era um papa não moralista. Sem fricotagem alguma.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Recife, Pernambuco)

Um comentário:
Eu gosto muito de História! Esse relato sobre o Papa João XXIII é interessante, pois o comportamento adotado por ele é o oposto o de Pio XII. Ele, que foi papa de 1939 até 1958, viu durante o seu pontificado a eclosão da 2ª Guerra Mundial, ficou sabendo das atrocidades contra os judeus e nada fez...calado ficou!
Não sei se por medo, ou por interesses...mesmo assim, o "representante de Deus" na terra falhou no seu papel principal: proteger aqueles que mais necessitavam. Há dois relatos interessantes sobre Pio XII disponíveis: O livro, O PAPA DE HITLER, fala deste homem que durante a guerra, não falou "UM PIO" contra o holocausto e toda tragetória de vida dele. O outro é o Filme de Costa Gravas "AMÉM" onde embora haja mistura de realidade e ficção, mostra uma realidade cruel: uma Igreja Católica inoperante frente ao holocausto, administrada por um Papa quase (E SE NÃO FOR) anti-semita. São dois materias que considero importantes para entender esse período!
A transição do PIO para o JOÃO, considero quase igual aquele ditado popular:"depois da tempestade, vem a bonança" pois o sucessor tentou em seu curto pontificado corrigir os erros de seu antecessor, e esse talvez muito fez para recuperar a imagem da igreja frente aos fiéis e ao mundo...só pelo Concílio Vaticano, mostrou que foi um grande Papa capaz de levar a instituição a um novo tempo. Escrito por Rafael de Freitas
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