Numa escola bíblica, área metropolitana de capital nordestina, a catequista ensinava que Deus tinha criado todas as coisas. - Tudo mesmo?, indagou um garoto de olhos binoculares, desse que não deixa passar nem um traque ilógico. – Tudo, mas tudo mesmo foi Deus quem criou, meu filho!, enfatizou, olhinhos revirados pro alto, a jovem que tinha pouca experiência no relacionamento com gente de QI esperto, estando mais acostumada com os quietosos, aqueles que pouco pensam, nada reclaman, sempre suspirando pela chegada da hora do lanche. E a pergunta questionadora veio de sopetão: - Até o Diabo?
A orientadora engasgou-se, tossiu que só, terminando por pedir para ir ao toalete se recompor. Ela ignorava o que os pesquisadores de cuca menos hermética chamam hoje de “auxiliar de Deus incumbido da tarefa de pôr em teste a devoção dos homens”. Erradicando definitivamente, para a pós-modernidade, a figura do Danadão Chifrudo, de rabo e tridente, de focinho parecido com ... deixa pra lá.
Conversando com um rabino de nomeada, ele me mostrou pesquisa de um professor emérito da Universidade da Califórnia, publicada no Brasil. Sob título Satã: uma biografia, Editora Globo, 2008, lá está escrito com todas as letras que “a figura de um demônio assustador não existe em nenhuma passagem das Escrituras”. E que “a identificação da serpente do Gênesis com o Diabo, assim como a imagem de um anjo caído que aprisiona e tortura almas no inferno, só surgiram muito posteriormente, durante os primeiros séculos da Igreja”.
Afoitamente, pedi o livro emprestado por quinze dias. Logo me arrependendo, não por ter medo do chifrudo, mas por um vício que me acompanha desde os tempos da UNICAP, onde me graduei: o de sempre sublinhar as partes mais interessantes do livro, não sendo possível tal proceder nos textos que são de propriedade alheia. Adquiri um exemplar na Livraria Cultura, onde sempre sou muito bem atendido pelo Cláudio, um relações-públicas-vendedor para ninguém botar defeito, que encontra o seu livro, sugerindo mais três ou quatro, todos de muito boa qualidade.
Segundo Henry Ansgar Kelly, autor do livro e também diretor do Centro de Estudos Medievais e Renascentistas da universidade acima citada, no Novo Testamento retirou-se de Satã as funções de um simples e detestável funcionário do Governo Divino, transformando-o no Danadão Chifrudo.
O livro é bastante esclarecedor sobre o Capeta, em suas várias características ao longo dos séculos. O autor explicita uma honestidade ímpar: “O perigo em todo escrito histórico é o impulso de fazer leituras atualizadas de acontecimentos passados tendo como base teorias atuais, ou seja, interpretar o passado à luz de conhecimentos mais recentes”. Uma reflexão que amplia o respeito pelo livro.
A pesquisa do Ansgar é apresentada em cinco partes. A primeira trata de saída dos livros datados a partir do século VI a.C., Números, Jó e Zacarias. Analisa depois a Bíblia Septuaginta, os Intertestamentários de Henoc e Jubileus e os Manuscritos do Mar Morto. Na segunda parte, dedicada ao Novo Testamento, são analisados os escritos autênticos de Paulo, os quatro Evangelhos, as cartas de Paulo não escritas por ele, onde Satã aparece como um funcionário do Governo Divino. A parte terceira analisa os Pais da Igreja, relacionados seus ditos com os de Maomé no Alcorão, enquanto a parte quatro apresenta a tese da Origem de Alexandria (254 d.C), quando o Danadão peca por orgulho. A parte última identifica a crença em Satã tal como praticada nos tempos modernos. O livro é concluído com pesquisa sobre as crenças e não-crenças da história do Diabo.
Os cristadelfianos não acreditam que o diabo seja um anjo caído, mas sim uma personificação do pecado manifesto em indivíduos, associações/governos civis, militares e eclesiásticos. Não acreditam num anjo caído porque todos os anjos, segundo o que entendem por Verdade Bíblica, não pecam. Mas isso é assunto para uma outra oportunidade.
(Publicado no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)
A orientadora engasgou-se, tossiu que só, terminando por pedir para ir ao toalete se recompor. Ela ignorava o que os pesquisadores de cuca menos hermética chamam hoje de “auxiliar de Deus incumbido da tarefa de pôr em teste a devoção dos homens”. Erradicando definitivamente, para a pós-modernidade, a figura do Danadão Chifrudo, de rabo e tridente, de focinho parecido com ... deixa pra lá.
Conversando com um rabino de nomeada, ele me mostrou pesquisa de um professor emérito da Universidade da Califórnia, publicada no Brasil. Sob título Satã: uma biografia, Editora Globo, 2008, lá está escrito com todas as letras que “a figura de um demônio assustador não existe em nenhuma passagem das Escrituras”. E que “a identificação da serpente do Gênesis com o Diabo, assim como a imagem de um anjo caído que aprisiona e tortura almas no inferno, só surgiram muito posteriormente, durante os primeiros séculos da Igreja”.
Afoitamente, pedi o livro emprestado por quinze dias. Logo me arrependendo, não por ter medo do chifrudo, mas por um vício que me acompanha desde os tempos da UNICAP, onde me graduei: o de sempre sublinhar as partes mais interessantes do livro, não sendo possível tal proceder nos textos que são de propriedade alheia. Adquiri um exemplar na Livraria Cultura, onde sempre sou muito bem atendido pelo Cláudio, um relações-públicas-vendedor para ninguém botar defeito, que encontra o seu livro, sugerindo mais três ou quatro, todos de muito boa qualidade.
Segundo Henry Ansgar Kelly, autor do livro e também diretor do Centro de Estudos Medievais e Renascentistas da universidade acima citada, no Novo Testamento retirou-se de Satã as funções de um simples e detestável funcionário do Governo Divino, transformando-o no Danadão Chifrudo.
O livro é bastante esclarecedor sobre o Capeta, em suas várias características ao longo dos séculos. O autor explicita uma honestidade ímpar: “O perigo em todo escrito histórico é o impulso de fazer leituras atualizadas de acontecimentos passados tendo como base teorias atuais, ou seja, interpretar o passado à luz de conhecimentos mais recentes”. Uma reflexão que amplia o respeito pelo livro.
A pesquisa do Ansgar é apresentada em cinco partes. A primeira trata de saída dos livros datados a partir do século VI a.C., Números, Jó e Zacarias. Analisa depois a Bíblia Septuaginta, os Intertestamentários de Henoc e Jubileus e os Manuscritos do Mar Morto. Na segunda parte, dedicada ao Novo Testamento, são analisados os escritos autênticos de Paulo, os quatro Evangelhos, as cartas de Paulo não escritas por ele, onde Satã aparece como um funcionário do Governo Divino. A parte terceira analisa os Pais da Igreja, relacionados seus ditos com os de Maomé no Alcorão, enquanto a parte quatro apresenta a tese da Origem de Alexandria (254 d.C), quando o Danadão peca por orgulho. A parte última identifica a crença em Satã tal como praticada nos tempos modernos. O livro é concluído com pesquisa sobre as crenças e não-crenças da história do Diabo.
Os cristadelfianos não acreditam que o diabo seja um anjo caído, mas sim uma personificação do pecado manifesto em indivíduos, associações/governos civis, militares e eclesiásticos. Não acreditam num anjo caído porque todos os anjos, segundo o que entendem por Verdade Bíblica, não pecam. Mas isso é assunto para uma outra oportunidade.
(Publicado no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife, Pernambuco, www.revistaalgomais.com.br)

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