domingo, 16 de novembro de 2008

Por um novo modo de ser família

Muito recentemente, um talentoso executivo, Ênio Resende, lançou um texto que tem tudo a ver com os tempos ultra-velozes que estamos vivenciando. Intitulado As 4 Principais Lideranças da Sociedade e suas Competências, Editora Summus, é destinado a pais, educadores, gerentes e líderes comunitários. Quatro categorias radicalmente imbricadas, não ingenuamente principiadas pelo autor pela mais significativa liderança da pós-modernidade, os pais, hoje a necessitar de uma estratégia reestruturadora condizente com os amanhãs que já se encontram instalados entre nós, globalizadamente.
Com a responsabilidade de também serem educadores, gerentes e líderes comunitários, pois afinal de contas não estão situados isoladamente num pedaço do deserto, os pais, segundo Resende, devem ser possuidores de algumas qualidades: saber entender a psicologia de crianças e adolescentes; saber entender as atitudes rebeldes das crianças e jovens, mantendo a calma diante deles; empenhar-se no desenvolvimento de empatias com filhos e colegas deles; saber impor respeito pela firmeza e coerência de atitudes, sem autoritarismos nem hipocrisias; saber inspirar confiança; saber tratar de questões delicadas com os filhos; saber não ser paternalista; saber ser amigo, bem mais que autoridade; e saber como dar mais e melhor atenção. Acrescentaria algumas outras, também muito necessárias: perceber-se uma metamorfose ambulante, a la Raúl Seixas; possuir acurado senso crítico em relação ao IMI (Indicadores das Mutabilidades Internas) e ao IME (Indicadores das Mutabilidades Externas); combater sistematicamente a perversidade das nostalgias e dos saudosismos, sabendo saudavelmente envelhecer; reconhecer que a quase totalidade dos ontens não mais retornará; ampliar a auto-estima, nunca explicitando coitadismos, moralismos, puritanismos, vitimismos e dolorismos; sempre ter em mente que nada é casual, tudo é causal, bastando se olhar mais acuradamente para os ontens acontecidos; e apreender que “humildade demais não faz bem ao caráter de um cidadão decente”, como diz Luiz Berto, autor do muito aplaudido O Romance da Besta Fubana, principalmente quando a tal humildade apenas é fantasia escolhida para engabelar os desligadões dos derredores.
Quando constato pais aparentarem posturas recheadas de portentosos níveis de fingimento, fico a rememorar a Parábola da Solidariedade do Frei Beto: “Havia milhares e milhares de brasileiros formando uma grande roda em torno de imensa e fumegante montanha de feijão-com-arroz. Todos, portando enormes talheres, buscavam trazê-las à boca, nada conseguindo pela extensão do garfo. Era um inferno. Num outro contexto, milhares e milhares de outros brasileiros se amontoavam em torno de uma gigantesca porção de feijão-com-arroz. Com garfos enormes, maiores que os do primeiro contexto, alimentavam-se a contento, cada um levando o feijão-com-arroz à boca do outro”.
Vivemos atualmente, no Brasil inclusive, uma profunda crise ética. Uma crise umbilicalmente associada a uma gigantesca reestruturação econômica mundial. Agravada em nosso país pela fragilidade de uma educação cidadã, ministrada por pais e professores, que se encontram ainda distanciados de um assumir mais consequente, cada parte transferindo para a outra competências que lhe são inerentes. E essa ausência de um comprometimento ético efetivo com a transformação do hoje acarreta conformismos e desesperanças, ampliando individualismos mórbidos, fazendo o todo resvalar para um viver sem as “enxergâncias” dos amanhãs, a gerar ondas comportamentais predatórias, de consequências funestas.
Num contexto de radicais mudanças, a revitalização das funções dos pais, também como educadores, gerentes e líderes comunitários, torna-se uma questão de sobrevivência societária. Muitos furos acima da mera ampliação dos níveis de escolaridade, se está exigindo deles talento e sensibilidade, compromisso e compreensão, visão futura e o dever de jamais tornar rotina o que vem sofrendo alterações cenariais contínuas, a ninguém sendo permitido esconder-se por detrás de passados que não mais retornarão.
Não desejamos uma sociedade de consenso, tampouco de pensamento único, mas carecemos fazer um omelete quebrando o mínimo de ovos possível, os pais bem dotados de agilidade política e credibilidade moral, aliadas a uma convivialidade prazerosa, sem a qual estaremos nos remetendo para um não-futuro desagradável para todos.
Para todos os pais leitores desta revista, uma parábola judaica exemplifica bem como se pode sair do atual bulício familiar. Servirá para pais, e mães naturalmente, que se encontram tonteados, sem saberem por onde começar. Mais ou menos é essa a versão: um homem de classe média, profissional liberal, remediado, temente a Deus mais por covardia que por princípio, saiu para uma caminhada na floresta e nela se perdeu. Vagueou horas sem fio, tentando encontrar a saida para o seu sufoco . Para onde ia, nada encontrava. De repente, deparou-se com um outro ser humano. E perguntou de bate-pronto: "Você pode me mostrar o caminho de volta à cidade, pois tenho que efetivar algumas providências ?". A resposta do outro o intrigou: "Também estou perdido. Mas podemos juntos ajudar um ao outro". Diante do abismamento provocado, a conclusão recheada de muita esperança: "Vamos agir em conjunto. Cada um pode dizer ao outro os rumos que já tentou e que não deram certo. Certamente isto nos ajudará a encontrar o caminho correto".
Creio que a hora da sociedade civil voltar a travar o bom combate é chegada, voltando-se mais para as questões familiares. A erosão da credibilidade paterna não beneficiará ninguém, nem mesmo os mais conservadores e autoritários. O momento está a exigir grandezas. E renúncias. E novas apreensões culturais. E gestos não-machistas concretos. Democracia, discernimento e disciplina, eis o trio de qualquer soerguimento familiar.
Para todos os pais, analisar os novos horizontes é prova de fidelidade a um futuro que já se aboletou entre nós, tal fato somente não enxergando quem teima em continuar abulicamente vivendo na idade da pedra lascada, ainda que portando telefone celular e dirigindo motores importados. Tal e qual aqueles que nos remeteram, no filme-parábola, ao Planeta dos Macacos... E saber compreender as grandes lições de Peter Drucker, um homem de leituras amplas, recentemente eternizado, mestre em perguntas simples e devastadoras, daquelas que deixam os “ispecialistas”, aqueles que se imaginam notáveis, só com a cara e a coragem de continuar enxergando o “quase nada”. Uma das suas, parece até que voltada para todos os pais: Por que todo homem absorto nas rotinas cotidianas do seu serviço possúi uma mente confusa e obstruída por preconceitos e cavilações mentais?
Eu tenho um amigão, João Silvino da Conceição, um arretado PhD em coisas da vida, que costuma dizer que todo pangaré que fica sempre olhando para os seus problemas, será por eles derrubado. E cita não sei quem, alguém que ele leu e muito gostou: “Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”.
Saber ser antes de ter é postura sábia. Ter sem ser é guilhotina na certa.

(Artigo publicado na revista Programa Escola de Pais do Brasil, no IV Seminário Inter-regional Norte/Nordeste e II Seminário Regional Seccional Recife-PE, Recife, PE, lançada em 15 de novembro de 2008)

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