terça-feira, 11 de novembro de 2008

Frases para todos os gostos

No Komida Kaseira, encontrei o João Silvino da Conceição saboreando um pernil de cordeiro, depois de umas preliminares de caldinho e arrumadinho de carne, adentradas ao ritmo de algumas lapadas geladíssimas de “refrigerante” de cor bem branquinha.
Serelepe como nunca e bem humorado que só, o João Silvino mostrava a todo mundo seu laptop, adquirido em dezoito prestações, chique todo, antes da crise braba que se alastra mundo a fora. Muito embora o terremoto financeiro tenha sido interpretado como simples marolinha pelo Lula, um presidente que nunca sabe direito sobre o que está acontecendo pelos seus derredores, tudo explicado rapidamente por qualquer “boa idéia”.
O João Silvino tinha, como página principal do laptop, o sítio http://www.frasear.com, onde se podia ler mais de um milhar de frases, algumas de gente famosa, outras de alguns paspalhões da política, complementando a parte folclórica do endereço eletrônico.
Uma das frases mais aplaudidas foi a de Abraham Lincoln, versando sobre a mediocridade. Dizia: “Deus deve amar os homens medíocres. Fez muito deles.” Um prato cheio para tempos de agora, favorecendo o bate-boca dos presentes, os risos se multiplicando através das “estórias” extraídas do Guia Eleitoral. O salão do restaurante explodindo em vivas quando alguém descobriu, lendo bem alto, uma frase de Theodore Roosevelt: “Quando respondem à chamada no Congresso, os parlamentares não sabem se respondem ‘presente’ ou ‘inocente’”. Lá como cá, safadões há.
Uma citação promoveu uma especulação danada, todo mundo querendo dar seu pitaco. A frase é do antigo mandão político da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, temido ACM: “Todos sabem que não sou prostituta, mas todos sabem que ele é ladrão”. Os palpites sobre o nome do salafrário variavam de A a Z, passando por Jaboatão dos Guararapes e a candidatura de Paulo Maluf, em São Paulo, entre os de maior citação.
A algazarra só serenou quando um senhor de cabelos grisalhos, fartos bigodes, afrodescendente, manifestou o desejo de mostrar aos presentes um livro que adquirira na véspera e que o induzira a uma leitura de varar noite, tamanha as sabedorias nele contidas. Diante da curiosidade da maioria, alguns analfabetos políticos brechtianos ficando nas deles, O Livro das Citações foi retirado de uma bolsa de couro de tira comprida, das que pós-graduados logo se identificam. Utilizando-se de um subtítulo, Um breviário de idéias replicantes, Eduardo Gianetti, mineiro que também escreveu o oportuníssimo Vícios privados, benefícios públicos, expõe reflexões de notáveis, classificando-as em quatro grandes blocos. Cada citação traz o nome do autor, as notas situadas no final da coletânea contendo a identificação integral da fonte pesquisada.
Uma frase lida pelo proprietário do livro o deixou ainda mais admirado pelos presentes. De Karl Popper, a reflexão citada: “Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença entre nós no que diz respeito aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância”. Com o sorriso próprio dos bons espadachins da réplica e tréplica, leu um pensamento de Montaigne, que desalentou visivelmente os poucos disleriados que fingiam entender o que estava se passando no salão do restaurante: “a obstinação e a convicção exagerada são a prova mais cabal da estupidez. Haverá algo mais enfático, resoluto, desdenhoso, contemplativo, grave e sério do que um burro?
Os aplausos aconteceram com uma espontaneidade estusiasmante. E reduplicaram, quando o afrodescendente de cabelos brancos, óculos de grau e bigodes fartos, leu a última reflexão, atribuída a Confúcio: “Se um país é regido pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria são objeto de vergonha. Se um país é regido pelos princípios da razão, a riqueza e as honras são objeto de vergonha”.
A tarde, para muitos, foi de intensa reflexão sobre o ocorrido no restaurante bom demais.
(Publicada, hoje, no Portal da Globo Nordeste, Recife – PE, http://pe360graus.globo.com)

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