Tenho amigo muito querido, o John Dubar, inteligência que respinga sinceridade e independência, que me enviou testemunhos de dois bispos extraordinários: Dom Aloísio Lorscheider e Dom Clemente Isnard, o primeiro sem mais atribulações terrestres, já na Casa do Pai. Os casos eu conto como eles se foram, recordando, com muita saudade, o meu amigo comunista Paulo Cavalcanti, uma das dignidades humanas conhecidas em minha caminhada.
O escrito de Dom Clemente Isnard vem acompanhado de uma denúncia de sorrateira proibição perpetrada pelo Núncio Apostólico Dom Lourenzo Baldisseri. Traz um prefácio do pe. José Comblin, que declara que “Dom Clemente expressa o que muitos bispos pensam mas não podem dizer”, muito embora “diante da excessiva concentração dos poderes em Roma, é bom que alguns bispos tenham a coragem de dizer o que pensam”.
Fatos são narrados nas páginas de Reflexões de um Bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais, editora Olho d’Água, 2008. Um deles: poucos sabem que, no século XIX, Roma efetivou um exame das ordenações anglicanas, tendo a comissão encarregada sido de opinião que naquela denominação se havia perdido a sucessão apostólica, devendo todos os bispos e presbíteros serem reordenados em caso de reconciliação das Igrejas. Outro: na igreja romana, um bispo, Ambrósio, foi eleito numa assembléia, sendo ele apenas um funcionário civil que ali se encontrava burocraticamente, nem batizado sendo. Ordenado, foi o grande pastor de Milão, final do século IV, tendo inclusive batizado Santo Agostinho.
Dom Clemente Isnard é favorável à ordenação de mulheres e também ao fim do celibato, sendo de opinião que “episcopado não é uma honraria e sim um serviço”. E mais sobre o livro não revelo, para não estragar o prazer de uma boa espiadinha.
O segundo livro, edição 2008 da Universidade Federal do Ceará, tem um título pra lá de cutucador: Mantenham as Lâmpadas Acessas – Revisitando o Caminho, Recriando a Caminhada. A iniciativa partiu de pessoas que desde 2002 se encontram para refletir a realidade. Intitulando-se de O Grupo, eles entrevistaram Dom Aloísio Lorscheider em manhãs de “diálogo fraterno”. Com o apoio da UFCE, O Grupo tornou pública a entrevista, subdividida em partes – A Pessoa, Os Últimos 40 anos da Igreja, e O Legado da Esperança – trazendo ainda valiosos testemunhos, um deles do pe. José Comblin, que afirma: “como presidente do CELAM teve coragem e paciência heróica para suportar o secretário-geral, Alfonso Lopez Trujillo. Só por isso já mereceria a beatificação, porque supõe realmente uma virtude heróica”. E disse mais: “como presidente da CNBB, Dom Aloísio conseguiu salvar o episcopado brasileiro da vergonha de ter apoiado o golpe militar”. E não faz por menos: “ficará na história o discurso pronunciado por Dom Aloísio no início da conferência de Puebla. Esse discurso pode ter sido o acontecimento mais significativo da carreira dele à frente do CELAM”. Um discurso feito após o pronunciamento de João Paulo II, que tinha sido “cochichado” por Lopez Trujillo, causando um desalento generalizado. Como declara Comblin, “foi como uma ducha fria capaz de apagar todos os entusiasmos”. E Dom Aloísio Lorscheider reagiu à altura, através de um pronunciamento que catapultou novamente os ânimos.
Dois testemunhos de dois bispões. Um, o de Dom Clemente Isnard, bem mais simples, embora não menos corajoso. O outro, papo gravado com Dom Aloísio Lorscheider, deveria ser lido e relido pelos seminaristas de todas as denominações cristãs. Para que apreendam adequadamente uma realidade que amplia empobrecimentos nestes primeiros anos de século. As reflexões de Dom Aloísio são as de um comprometido com a libertação integral do ser humano: “se não conseguirmos motivar os nossos seminaristas para a inserção, então, realmente, seria melhor fechar o seminário”... “um sínodo que não acrescenta nada ao que a tradição já dizia é, na minha opinião, uma perda de tempo”... “a motivação religiosa encontra-se muito mais próxima do medo e da insegurança do que da convicção e do compromisso”. As carapuças estão disponíveis...
Manter as lâmpadas acessas, sim, apesar de todos os pesares, inclusive eclesiásticos. Caminho revisitado, caminhada recriada, jamais confundindo salvação com igreja, como bem proclamava Ivan Illich, o notável de Cuernavaca, no México.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Recife, Pernambuco)
O escrito de Dom Clemente Isnard vem acompanhado de uma denúncia de sorrateira proibição perpetrada pelo Núncio Apostólico Dom Lourenzo Baldisseri. Traz um prefácio do pe. José Comblin, que declara que “Dom Clemente expressa o que muitos bispos pensam mas não podem dizer”, muito embora “diante da excessiva concentração dos poderes em Roma, é bom que alguns bispos tenham a coragem de dizer o que pensam”.
Fatos são narrados nas páginas de Reflexões de um Bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais, editora Olho d’Água, 2008. Um deles: poucos sabem que, no século XIX, Roma efetivou um exame das ordenações anglicanas, tendo a comissão encarregada sido de opinião que naquela denominação se havia perdido a sucessão apostólica, devendo todos os bispos e presbíteros serem reordenados em caso de reconciliação das Igrejas. Outro: na igreja romana, um bispo, Ambrósio, foi eleito numa assembléia, sendo ele apenas um funcionário civil que ali se encontrava burocraticamente, nem batizado sendo. Ordenado, foi o grande pastor de Milão, final do século IV, tendo inclusive batizado Santo Agostinho.
Dom Clemente Isnard é favorável à ordenação de mulheres e também ao fim do celibato, sendo de opinião que “episcopado não é uma honraria e sim um serviço”. E mais sobre o livro não revelo, para não estragar o prazer de uma boa espiadinha.
O segundo livro, edição 2008 da Universidade Federal do Ceará, tem um título pra lá de cutucador: Mantenham as Lâmpadas Acessas – Revisitando o Caminho, Recriando a Caminhada. A iniciativa partiu de pessoas que desde 2002 se encontram para refletir a realidade. Intitulando-se de O Grupo, eles entrevistaram Dom Aloísio Lorscheider em manhãs de “diálogo fraterno”. Com o apoio da UFCE, O Grupo tornou pública a entrevista, subdividida em partes – A Pessoa, Os Últimos 40 anos da Igreja, e O Legado da Esperança – trazendo ainda valiosos testemunhos, um deles do pe. José Comblin, que afirma: “como presidente do CELAM teve coragem e paciência heróica para suportar o secretário-geral, Alfonso Lopez Trujillo. Só por isso já mereceria a beatificação, porque supõe realmente uma virtude heróica”. E disse mais: “como presidente da CNBB, Dom Aloísio conseguiu salvar o episcopado brasileiro da vergonha de ter apoiado o golpe militar”. E não faz por menos: “ficará na história o discurso pronunciado por Dom Aloísio no início da conferência de Puebla. Esse discurso pode ter sido o acontecimento mais significativo da carreira dele à frente do CELAM”. Um discurso feito após o pronunciamento de João Paulo II, que tinha sido “cochichado” por Lopez Trujillo, causando um desalento generalizado. Como declara Comblin, “foi como uma ducha fria capaz de apagar todos os entusiasmos”. E Dom Aloísio Lorscheider reagiu à altura, através de um pronunciamento que catapultou novamente os ânimos.
Dois testemunhos de dois bispões. Um, o de Dom Clemente Isnard, bem mais simples, embora não menos corajoso. O outro, papo gravado com Dom Aloísio Lorscheider, deveria ser lido e relido pelos seminaristas de todas as denominações cristãs. Para que apreendam adequadamente uma realidade que amplia empobrecimentos nestes primeiros anos de século. As reflexões de Dom Aloísio são as de um comprometido com a libertação integral do ser humano: “se não conseguirmos motivar os nossos seminaristas para a inserção, então, realmente, seria melhor fechar o seminário”... “um sínodo que não acrescenta nada ao que a tradição já dizia é, na minha opinião, uma perda de tempo”... “a motivação religiosa encontra-se muito mais próxima do medo e da insegurança do que da convicção e do compromisso”. As carapuças estão disponíveis...
Manter as lâmpadas acessas, sim, apesar de todos os pesares, inclusive eclesiásticos. Caminho revisitado, caminhada recriada, jamais confundindo salvação com igreja, como bem proclamava Ivan Illich, o notável de Cuernavaca, no México.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste – Recife, Pernambuco)

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