domingo, 5 de outubro de 2008

Pérolas de Sebo

A partir de recomendação do amigo-irmão Edmar Pimentel, reverendo da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, de uns tempos para cá me acostumei a visitar o endereço eletrônico www.estantevirtual.com.br, de excelente serventia para os que buscam textos já retirado das vitrines das livrarias. Um sítio que reune mais de mil sebos e livreiros do país, envolvendo 209 cidades brasileiras, inclusive o Recife, com seu famoso Sebo Brandão, também magnificamente bem instalado na rua Ruy Barbosa 15-B, Salvador, Bahia.
Através do endereço eletrônico consegui adquirir algumas preciosidades. Uma delas, recuperando uma perda causada por descaso de pretenso amigo, é uma edição Imago 1976 do livro Ser Cristão, de Hans Küng, o mais aplaudido teólogo vivo da atualidade. Um exemplar em perfeitas condições, que bem complementou cópia xerográfica enviada pela Sara Soares, bibliotecária do Seminário Teológico Anglicano de Porto Alegre. No livro, Küng destina as suas reflexões aos que não crêem, também se dirigindo aos que já tiveram fé, não mais se sentindo confortáveis com a sua descrença. E também oferece seu trabalho aos que se sentem inseguros, oscilando entre fé e descrença. E para “cristãos e ateus, gnósticos e agnósticos, pietistas e positivistas, católicos fervorosos e tíbios protestantes e ortodoxos”, que não pretendem ser adeptos de um cristianismo barato. Nem tampouco aceitam substituir o saudavelmente tradicional pelos “recursos de uma arte cosmética e conformista de adaptação”.
Uma das últimas pérolas recebidas foi um livro editado pela Papirus, em 1987, de autoria de Rubem Alves, a tradução da sua tese de doutoramento Towards a Theology of Liberation, tornada pública em Washington, 1969. Duas emoções sentidas. Uma, na orelha, lendo trecho do prefácio escrito por Harvey Cox, na edição inglesa: “Prestem bem atenção vocês, ideólogos, teólogos e teóricos do mundo rico, dito desenvolvido. O Terceiro Mundo, de pobreza, fome e impotência impostas, e crescente indignação, encontrou uma voz teológica que se ouve como um sino. ... Nas palavras de Rubem Alves, o Terceiro Mundo não é nem mudo e nem irreflexivo. Ele não permitirá que nem o seu destino político e nem sua definição teológica venham de nós”.
A outra alegria foi o prefácio escrito pelo próprio Rubem Alves à edição publicada pela Papirus e que tomou o título de Da Esperança. Um prefácio gostoso, assim por ele iniciado: “Peço desculpas por ter escrito um livro assim tão chato. ... Se escrevi desse jeito foi porque me obrigaram, em nome do rigor acadêmico. Eles pensam que a verdade é coisa fria e até inventaram um jeito engraçado de escrever, tudo sempre no impessoal, como se o escritor não existisse, e assim o texto parece que foi escrito por todos e por ninguém”. Uma tremenda cacetada no traseiro (para aqui não dizer bunda, um termo bem mais apropriado ao meio ambiente glúteo) daqueles que se imaginam muitos quilômetros acima do cotidiano da vida. Um prefácio ainda bem mais apetitoso de se ler, quando nele Rubem se mostra como ele realmente é, livre, leve e solto, contando a estória de um galo que dizia para seus companheiros de poleiro, antes do amanhecer, que iria cantar para fazer o sol nascer. Segundo Alves, há teólogos que se parecem com o galo, nunca percebendo que sabe inventar outros cantos, reconhecendo que o astro-rei nunca vai se zangar.
O prefácio de Da Esperança, do Rubem Alves, escrito pelo próprio, em 1987, deve ser lido e relido e mais umas vezes novamente lido. Para com balizamento diferenciar comportamentos dignos de aplausos daqueles que, pequenos, marginais e sem reconhecimento, através de uma situação de “caça às bruxas”, lambuzam-se todo, desejando participar da mesa do poder terrestre. Muito diferentemente daquele irmão em Cristo, que, sabendo das dificuldades do Rubem Alves, bateu-lhe à porta para oferecer ajuda. Sendo ele apenas um paramédico maçon, que detestava a política bajulatória dos travestidos de pastores...
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)

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