segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Crise bem explicada

A atual crise financeira americana, que está deixando o mundo todo arrepiado, dando baita dor de barriga nos especuladores de ejaculação precoce e um medo arretado de 1929 em dose estupradora, necessita ser melhor explicada para os que nada entendem de economês, nem de financês, nem do embromation system de Wall Street, que ensejou tsumânico estrupício no sistema imobiliário do Tio Sam.
Na companhia da Mônica Barguil, uma prima talentosa muito querida que mora em São Paulo, o João Silvino da Conceição resolveu explicar, para um grupo de nordestinos, a atual crise americana, utilizando-se de uma linguagem bem compreensível. E ofereceu, como ilustração, um fato acontecido recentemente em terras mineiras, onde um Quintão boa pinta pode derrubar o caneco das mãos de quem não sabe bem pontuar, apesar dos padrinhos.
A historinha do João Silvino fez um sucesso tão da gota serena que eu mesmo a ele pedi licença para reproduzi-la nesta coluna do Portal da Globo Nordeste, um site pra lá de porreta, também conhecido como Portal do Duda, em homenagem a uma pessoa estimada pra caramba, gente ouro de lei, de quem sou admirador de carteirinha.
A história contada pelo João Silvino é a seguinte: o “seu” Biu tinha um bar meio peba na Vila Corgo, Bandeira do Sul, MG. Um dia, ele decidiu vender cachaça "na caderneta" aos seus mais assíduos fregueses, todos bebuns cinco estrelas, de extraordinárias lapadas, a maioria desempregada. E ao decidir vender a crédito, ele aumentou um pouco o preço da dose (a diferença sendo o sobre preço que os pinguços pagariam pelo crédito).
O gerente do banco de “seu” Biu, um jovem metido a ousado administrador, concluinte de um emibiêi por correspondência, de pronto intuiu que as cadernetas do bar constituíam um ativo recebível ou, melhor dizendo, um papagaio recuperável. E de bate-pronto começou a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o pindura dos pinguços do “seu” Biu como garantia das boas.
Uns outros zécutivos de bancos, colegas de afoiteza do gerente do banco do “seu” Biu, foram bem mais além. Deram sustança de mesmo aos papagaios recebíveis, transformando-os num monte de papéis com apelido, CDBs, CDOs, CCDs, UTIs, OVNIs, SOSs, PQPs, entre outros bem mais difíceis de soletrar, que pintosos pós-graduados lap-topados qualificavam de acrônimo, ainda que ninguém soubesse ao certo o real significado deles. Tal e qual os papéis da MERBOSA, tornados públicos lá pelos idos do 34/18 da Sudene, tempos depois, para orgasmo dos gozadores, revelados títulos de araque, a sigla apenas retratando uma empresa de mentirinha, a Merda Bosta S/A, que quase pontuou no mercado de ações da época. Um papel fedido, além do mais.
Logo logo, uma agência regional reguladora, dessas que, se não existissem, ninguém notaria, afiançou todos os papéis, na perspectiva de vê-los impulsionando o mercado de capitais, favorecendo outras operações da BM&F, Bolsa de Mercado e Futuros, tudo a partir do lastro inicial, popularmente conhecido como “as cadernetas dos pinguços do 'seu’ Biu”.
Em pouco tempo, os Penduricalhos de Papagaios, na forma original ou transformados em Berloques, Plumas, Paetês, Lantejoulas, o escambau, começaram a ser negociados como se fossem títulos dotados de muita credibilidade, com garantias tidas como reais, nos mercados de 73 países, sendo inclusive vendidos para os aposentados da China, país campeão de velhicidade.
Até que um dia, e sempre tem um dia, alguém descobriu que os bebuns da Vila Corgo não tinham um puto para pagar as contas, a bodega do “seu” Biu encerrando as portas, por falta de “forgo” (fôlego) financeiro. E toda a cadeia que foi estruturada pelos “ispecialistas emibiêi” enlamerdou-se por inteiro, todos finalmente percebendo que “tudo de bêbado não tem dono”.
O final da historinha todos já sabem: os pebas “em sofrência” por um bocado de tempo, ninguém sendo trancafiado pelas maracutaias praticadas. Tampouco ninguém sendo responsabilizado pela falência da “fantasmática montagem financeira”, que apenas favoreceu os “ispertos” de sempre.
(Publicada no Portal da Globo Nordeste, Recife – Pernambuco)

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