quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Origens das Patifarias Brasileiras

Ao telefone, o João Silvino da Conceição estava pra lá de apoplético: - Veja como anda a trambicagem na Câmara de Vereadores do Recife!! Não envergonha todos os recifenses que possuem decência?! Com exceção de uns bem poucos, a quase totalidade meteu os pés pelas mãos na fabricação de recibos falsos e outras molecagens. Só queria que o povo pernambucano desse um troco bem arretado nas eleições de outubro próximo, devolvendo para a sarjeta os que de lá jamais deveriam ter saído. Tá demais a esculhambação nacional!!! Parece até que razão integral tem a letra daquela música que diz “Tá tudo dominado...!”.
Procuro amenizar a ira do João, recomendando-lhe a leitura de um livro que já se encontra em sua terceira edição, editora José Olympio. Um texto elaborado pelo historiador Emanuel Araújo, um sergipano que trabalhou com Antônio Houaiss na Enciclopédia Mirador Internacional, também tendo sido Diretor da Editora Universidade de Brasília, presidindo posteriormente seu Conselho Editorial até 2000, quando eternizou-se. Intitulado O Teatro dos Vícios, nele estão contidas cenas deliciosas de peraltices as mais diversas, acontecidas em nossa sociedade urbana colonial, desde cópulas intermediadas por demônio, freiras namoradeiras, bispos que se esfregavam em parentes próximos, além de maridos de ceroulas e mulheres de bustos à mostra. E enriquecimentos rápidos, uso de recibos falsos, burocratas venais e nepotismo desenfreado de civis, militares e religiosos, praticados diante de uma comunidade que desconhecia sua cidadania, preferindo espelhar-se nas escabrosidades cometidas pelos maiorais de então.
Conta Emanuel Araújo que o padre Vieira, certa feita, diante dos despudorados nepotismos praticados escreveu: “vota o conselheiro no parente, porque é parente; vota no amigo, porque é amigo; vota no recomendado porque é recomendado; e os mais dignos e beneméritos, porque não têm amizade, nem parentesco, nem valia, ficam de fora. Acontece isto muitas vezes! Queira Deus que alguma vez deixe de ser assim.”
Fiquei a me lembrar de artigo publicado, há poucos dias, na Folha de São Paulo, por um deputado federal nordestino que, sem um menor pingo de pudor, defendia o nepotismo por ele praticado em seu gabinete, nele lotando dezenas de parentes. E me lembrei de umas outras lambanças praticadas por gente metida a moralista, puritanosa de carteirinha, na obtenção de auxílios financeiros beneficiadores de familiares muito próximos. Cujo processo foi enviado passando por cima de paus e pedras, sem a menor consideração pelas instâncias decisórias intermediárias.
Quantos empreendimentos, no passado, foram implementados “pra boi dormir”, ou “pra inglês ver”? O Banco do Brasil foi criado por Dom João VI para favorecer um pedido de empréstimo de alguns seus amigos. E a Universidade do Brasil foi instituída por decreto, sem uma sala de aula, para se conceder o Honoris Causa ao então rei da Bélgica. Por coisas como tais, um mercador inglês, Thomas Lindley, escreveu um dia: “prevalece a astúcia mesquinha e velhaca, principalmente quando efetuadas as transações com o estrangeiro, aos quais pedem o dobro do preço que acabarão aceitando por sua mercadoria, ao passo que procuram desvalorizar o que terão de obter em troca, utilizando-se de todos os artifícios ao seu alcance.”
João Silvino da Conceição saiu menos afogueado, ainda que bastante enraivecido pelas patacoadas últimas acontecidas em nosso território, em todos os setores, muitas delas praticadas pela certeza da impunidade. E muito apreciou os versos de Gregório de Matos, século XVII: “Mas todos nos alegramos / que isto somos e isto fomos, / que então alegres nos pomos / quanto mais nos enganamos.” E externou sem muita convicção: - Será que assim somos porque nunca tivemos uma guerra civil de verdade, tudo tendo acontecido por obra e graça de múltiplos jeitinhos e inúmeras safadezas?
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

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