terça-feira, 2 de setembro de 2008

Observatório do Recife

Com entusiasmo, li a entrevista da economista Kilsa Rocha na revista Algomais, aquela que o recifense lê cada vez mais gostando. E o tema foi o lançamento do Observatório do Recife, um movimento que congrega entidades da sociedade civil, tendo por finalidade monitorar a gestão municipal, oferecendo indicadores e propostas nas áreas de saúde, educação, segurança, saneamento, habitação, turismo, cultura, lazer, direitos do cidadão, meio ambiente, emprego e renda, criança e adolescente.
Segundo a economista, “o Observatório é uma resposta ao desejo da sociedade civil de participar da gestão do Recife”. Uma sociedade civil que há muito se distanciou das aspirações macro-sociais, imaginando-se auto-suficiente no trato do seu mundinho, tornando-se desatenta para o balizamento que ensina que “pouco adianta cuidar de um só boi, se a boiada, como um todo, está à beira do despenhadeiro”.
Em boa hora as entidades do Observatório do Recife, sem firulas nem fricotes, perseguirão uma auto-avaliação corajosa, descobrindo seus pontos fracos e suas comunicações deficientes. Para oferecimento de proposições capazes de catapultar o Recife para patamares mais reluzentes. Percebendo que a era pós-industrial libertou energias escondidas, aumentando lazeres e liberdades, enormes abismos se abrindo entre os que possuem quase tudo e os que não possuem quase nada, nem sequer esperança sadia. Quase já eliminando do nosso cotidiano maurício o vocábulo solidariedade.
A mentalidade da nossa sociedade civil, de um modo geral, ainda carece de uma visão menos autofágica. Fomos a última nação a abolir o regime escravocrata. Somos herdeiros de quatro séculos de escravidão e pouco mais de um século de libertação. Nos países capitalistas não-escravocratas, as elites empresariais perceberam que é por demais salutar para o dinamismo econômico que o trabalhador tenha renda para consumir, posto que isso amplia a economia de mercado, fortalecendo a convivência entre Trabalho e Capital. Sem jamais utilizar as pessoas como objetos, tampouco apenas valorizando-as por aquilo que elas podem beneficiar.
Nos países capitalistas não-escravocratas, o papel do Estado foi compreendido sob uma vertente não-tacanha, existindo dois tipos de Estados desenvolvimentistas: o conservador e o transformador. Os exemplos mais recentes de Estados transformadores: o Japão (disseminando o acesso à educação) e a Coréia (efetivando uma reforma agrária que serviu de base para o seu desenvolvimento industrial). Para não se falar da China, que há poucos dias nos deu uma Olímpiada de invejável organização e beleza ímpar.
Acredito firmemente que a economista Kilsa Rocha se baseará na orientação dada pelo evangelista Lucas 14,28: “Quem dentre vós, quando quer construir uma torre, não começa por se assentar para calcular a despesa e avaliar se tens com que ir até o fim?” Sua arguta inteligência já percebeu que toda crise torna-se saudável quando não se contenta em ser apenas uma crítica aos outros, mas quando se torna, muito oportunamente, um julgamento da própria crise. Por isso, urge desanestesiar o quanto antes a classe média pernambucana, ainda enebriada por um plano de estabilidade que deveria ser entendido como ponto de partida, jamais de chegada, essencialmente meio para se atingir um nível de maior dignidade para todos os segmentos sociais, mormente os menos favorecidos.
Um exercício de primeira hora, eu recomendaria aos integrantes do Observatório do Recife, que estarão pelejando pelo soerguimento da imagem empreendedora da capital: leituras reflexivas sobre provincianismo. E mais: sobre as artificialidades do apenas progresso e os arroubos grandiloqüentes de um já-fui-bom-nisso que apenas inspiram lamuriantes compadecimentos, sem nada de proveitoso.
Acredito no sucesso do Observatório do Recife, pois ponho fé na dinâmica estratégica da economista Kilsa Rocha, uma profissional de excelente perfil técnico. Gostaria apenas de oferecer duas pequenas sugestões. A construção de um site de cativante nível, a primeira delas. Um pensar mais distanciado de um 2015 que se encontra logo ali, a segunda. Talvez um 2020 seria uma boa meta, doze anos além do nosso hoje, três gestões municipais.
No mais, é recomendar para os componentes do Observatório do Recife a concentração das suas atenções iniciais nas quatro principais lideranças da sociedades contemporâneas: pais, educadores, gerentes (decisores) e líderes comunitários. Uma classificação feita pelo Enio Resende, no seu livro As 4 Principais Lideranças da Sociedade e Suas Competências, recentemente lançado pela Summus Editorial. Um texto sem eruditismo para um bom início de conversa.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife, Pernambuco)

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