sábado, 27 de setembro de 2008

História de um Vivente

Recebo de presente, pelo correio, mais uma louvável iniciativa da Editora Paulus: Jesus, a história de um vivente, do teólogo Edward Schillebeeckx, um dos responsáveis, na Holanda, por uma teologia que “denunciava, de maneira mais enérgica e por vezes mais ruidosa que os outros, o atraso, a incompreensibilidade, a ineficácia e a inatualidade das estruturas teológicas tradicionais, que já constituem mais uma arma em mãos do ateísmo do que um instrumento a serviço do Evangelho”, na análise feita por Battista Mondin, em Os Grandes Teólogos do Século Vinte, Teológica 2003. Uma coletânea bastante demandada pelos que observam um dos mais espetaculares fenômenos dos últimos tempos: o despertar dos leigos de todas as igrejas, cristãs e não-cristãs, pelas questões religiosas e teológicas.
Como ainda não me debrucei sobre o livro editado pela Paulus, tomei conhecimento do teólogo Schillebeeckx através de exposições didáticas do meu caríssimo irmão anglicano Gustavo Oliveira, quando dele fui aluno nos ainda bons tempos de Seminário, em Boa Vagem. Segundo Gustavo, Schillebeeckx é belga, nascido em Amberes em 1914, tendo estudado Filosofia e Teologia em Lovaina, ingressando na Ordem Dominicana em 1934. Doutorou-se em 1951, tendo participado dos trabalhos do Concílio Vaticano II, juntamente com o teólogo Hans Küng. Os dois, com mais alguns outros, inclusive Dom Hélder Câmara, vistos como “observadores comunistas” pelos integristas do conclave.
Segundo pesquisa feita na Internet, “depois do Concílio Schillebeeckx foi sujeito a investigação por parte do Vaticano por conta de suas escandalosas opiniões heterodoxas concernentes ao nascimento da Virgem, da instituição da Eucaristia, da Ressurreição e do fundamento da Igreja”. Ele até foi chamado de “maldito perito conciliar”, entre outros mimos. Até o Cardeal Suenens levou sua lamborada: “Da lista negra, ele (Suenens) foi promotor dos carismáticos heréticos – declarou que a o Concílio Vaticano II foi a Revolução francesa dentro da Igreja. Este cardeal Suenens é um dos nomeados por Nossa Senhora das Rosas, e que receberá um grande castigo pela sua participação na destruição da Igreja”, segundo padre Kramer em seu livro, onde não criticou o perito Joseph Ratzinger, por razões hoje plenamente conhecidas de todo mundo. Revela ainda a pesquisa que, desde 1968, Schillebeeckx é objeto de observação e de críticas por parte da atual Congregação para a Doutrina da Fé. Em 1979 foi chamado a Roma para depor diante dela.
Segundo o pensar de Schillebeeckx, “os dogmas têm um sentido dentro de uma perspectiva histórica determinada e utilizam noções tomadas de uma cultura particular.” Essa historicidade leva-o a reinterpretar os dogmas, levando em conta as condições da existência dos homens. Por isso, a ortodoxia só é plenamente possível sobre a base de uma “ortopráxis”: é na prática efetiva da Igreja que se realiza uma nova compreensão da mensagem da fé.
A unidade de uma mesma fé e de uma mesma confissão só é reconhecível na “pluralidade de opiniões teológicas”. E o “que é verdade para o teólogo, o é também para cada crente”. Num mundo secularizado, “Deus manifesta-se normalmente sob a forma de ausência”. Ao abordar os problemas do ponto de vista histórico, aplica-os também Schillebeeckx à figura de Jesus, cujo estudo tem lhe valido duras críticas.
Abaixo, alguns pensamentos de Edward Schillebeeckx, um dos responsáveis pela renovação teológica holandesa e um dos idealizadores do à época controvertido Catecismo Holandês.
"A proximidade de Deus aos seres humanos e seu amor vivificante podem tornar-se realidade na Igreja quando esta se realiza no mundo"; "O passado demonstrou que, muito antes de a Igreja ter analisado os problemas sociais, já houve pessoas que através de seu compromisso pessoal e de um diálogo pré-analítico com o mundo chegaram à decisão moral de que mudanças fundamentais eram necessárias”; "O mundo e a história dos homens, em que Deus quer realizar a salvação, são a base de toda realidade salvífica: é aí que primordialmente se realiza a salvação... ou se recusa e se realiza a não-salvação. Neste sentido, vale 'extra mundum nulla salus', fora do mundo dos homens não há salvação”; “Há mais verdade (religiosa) em todas as religiões no seu conjunto do que numa única religião, o que também vale para o cristianismo"; “Maria é o braço que une a humanidade santa e salvadora de Cristo à nossa humanidade”; "Jesus é Deus em linguagem humana"; "É preferível não reconhecer a Deus, não acreditar na vida eterna do que acreditar num Deus que em nome da outra vida despreza, oprime e humilha o ser humano nesta vida"; "O Reino de Deus está essencialmente ligado à pessoa de Jesus de Nazaré”.
A fé cristã deve ser uma busca sempre renovada, como ensinou Martinho Lutero, o principal da Reforma. Também levando em consideração os horizontes planetários que se avizinham, depois do início histórico do século XXI, neste mês de setembro de 2008.

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