Foi boa demais a reunião virtual acontecida no almoço oferecido pela Carminha Costa, comemorando seus 6.0 de vida bonita, sorrisão à disposição do mundo. Gente de excelente nível convivencial, os comes e bebes transcorrendo numa descontração exemplar, a aniversariante com o filhão a tiracolo, ele chegado recentemente da Alemanha, profissional quase pronto.
Depois do primeiro prato, para o lado de fora fui chamado e apresentado a três pessoas, uma das quais eu me relaciono desde recém nascido, o João Silvino da Conceição. Ele estava ciceroneando Rubem Alves e Jonas Rezende. Duas personalidades bastante conhecidas, de sofrimentos infantis causados por apertos financeiros familiares. O pai de Rubem indo à falência, Jonas pedindo à mãe, como presente de aniversário, um prato de batatas fritas para aliviar o estômago. Ambos evangélicos-cabritos, jamais ovelhas abiloladas. Os dois sendo madeira de lei, aquela que cupim não rói.
Silvino e eu logo aguçamos nossas orelhas, quando Rubem Alves declarou que as religiões criaram gaiolas, a história do Cristianismo estando cheia de gaiolas. E disse mais: “Deus nos deu pensamento. O pensamento são as asas que Deus nos deu. Sou um filho da tradição protestante. Não posso me livrar dela nem quero. O que amo nesta tradição? A ousadia de pensar diferente, de andar na direção contrária: é o que mais amo. Eu prefiro o canto solitário dos sabiás ao canto gregário das maritacas, todas repetindo a mesma coisa”.
Em concordância, Jonas Rezende, que também foi considerado herético pela sua denominação religiosa, manifestou-se: “as instituições religiosas tendem, como qualquer instituição, para o conservadorismo e possui um cacoete histórico de excluir os divergentes”. E disse mais: “A própria palavra herege significa ‘aquele que escolhe’, razão tendo Robert Aron ao proclamar que toda nova fé começa por uma heresia”. E esclareceu: “Acredito que a Reforma do século XVI foi modéstia demais. E eu desejo superar a inércia como quem deseja mais do que antigas conquistas requentadas. Penso como os teólogos Romano Guardini e Paul Tillich: tanto a idade moderna quanto a era protestante estão próximas do esgotamento total. Basta ler o livro profético de Roger Garaudy intitulado O Ocidente é um Acidente. Na minha opinião, Lutero estava tão comprometido com questões eclesiásticas, que não percebeu os ventos renovadores da revolução renascentista”.
Todo metido a entendido, o João Silvino resolveu dar o seu pitaco para as duas celebridades presentes virtualmente na festa da Carminha: “Fico a imaginar a irritação dos inteligentes de outrora diante das discussões acerca dos sexos dos anjos, a temperatura do inferno, o que aconteceria se um rato roesse uma hóstia ou quantos anjos caberiam numa cabeça de alfinete. Convicto estou, como o professor Jonas, que cabe à Teologia levar o ser humano a libertar-se de uma estreita visão eclesiástica, que faz da religião um quisto no corpo social, livrando a sociedade de uma mentalidade de sacristia, tal como fez a rainha Éster, ao se recusar servir de bibelô na corte do poderoso rei Assuero. Como bem disse o professor Jonas é preciso coragem para não mais adubar as flores fenecidas”.
O papo alcançou as quatro horas da tarde. O Rubem Alves anunciou sua partida, para atender outros compromissos. Antes de ir embora, fez uma pequena reflexão: “O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem.”
João Silvino e eu, ainda emocionados com o encontro, oramos juntos. Nem percebendo que Deus estava bem juntinho de todos nós, aplaudindo o Rubem Alves e o Jonas Rezende.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife – Pernambuco)
Depois do primeiro prato, para o lado de fora fui chamado e apresentado a três pessoas, uma das quais eu me relaciono desde recém nascido, o João Silvino da Conceição. Ele estava ciceroneando Rubem Alves e Jonas Rezende. Duas personalidades bastante conhecidas, de sofrimentos infantis causados por apertos financeiros familiares. O pai de Rubem indo à falência, Jonas pedindo à mãe, como presente de aniversário, um prato de batatas fritas para aliviar o estômago. Ambos evangélicos-cabritos, jamais ovelhas abiloladas. Os dois sendo madeira de lei, aquela que cupim não rói.
Silvino e eu logo aguçamos nossas orelhas, quando Rubem Alves declarou que as religiões criaram gaiolas, a história do Cristianismo estando cheia de gaiolas. E disse mais: “Deus nos deu pensamento. O pensamento são as asas que Deus nos deu. Sou um filho da tradição protestante. Não posso me livrar dela nem quero. O que amo nesta tradição? A ousadia de pensar diferente, de andar na direção contrária: é o que mais amo. Eu prefiro o canto solitário dos sabiás ao canto gregário das maritacas, todas repetindo a mesma coisa”.
Em concordância, Jonas Rezende, que também foi considerado herético pela sua denominação religiosa, manifestou-se: “as instituições religiosas tendem, como qualquer instituição, para o conservadorismo e possui um cacoete histórico de excluir os divergentes”. E disse mais: “A própria palavra herege significa ‘aquele que escolhe’, razão tendo Robert Aron ao proclamar que toda nova fé começa por uma heresia”. E esclareceu: “Acredito que a Reforma do século XVI foi modéstia demais. E eu desejo superar a inércia como quem deseja mais do que antigas conquistas requentadas. Penso como os teólogos Romano Guardini e Paul Tillich: tanto a idade moderna quanto a era protestante estão próximas do esgotamento total. Basta ler o livro profético de Roger Garaudy intitulado O Ocidente é um Acidente. Na minha opinião, Lutero estava tão comprometido com questões eclesiásticas, que não percebeu os ventos renovadores da revolução renascentista”.
Todo metido a entendido, o João Silvino resolveu dar o seu pitaco para as duas celebridades presentes virtualmente na festa da Carminha: “Fico a imaginar a irritação dos inteligentes de outrora diante das discussões acerca dos sexos dos anjos, a temperatura do inferno, o que aconteceria se um rato roesse uma hóstia ou quantos anjos caberiam numa cabeça de alfinete. Convicto estou, como o professor Jonas, que cabe à Teologia levar o ser humano a libertar-se de uma estreita visão eclesiástica, que faz da religião um quisto no corpo social, livrando a sociedade de uma mentalidade de sacristia, tal como fez a rainha Éster, ao se recusar servir de bibelô na corte do poderoso rei Assuero. Como bem disse o professor Jonas é preciso coragem para não mais adubar as flores fenecidas”.
O papo alcançou as quatro horas da tarde. O Rubem Alves anunciou sua partida, para atender outros compromissos. Antes de ir embora, fez uma pequena reflexão: “O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem.”
João Silvino e eu, ainda emocionados com o encontro, oramos juntos. Nem percebendo que Deus estava bem juntinho de todos nós, aplaudindo o Rubem Alves e o Jonas Rezende.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife – Pernambuco)

Um comentário:
Não me admiro que não fales alemão! Tens virtudes outras!
Abraços,
O profissional quase pronto!
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